Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 177 de 359

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Os Miseráveis

II — Mário pobre

Assim se criam naturezas firmes e raras; a miséria, quase sempre madrasta, é também mãe algumas vezes; a indigência gera a grandeza de alma e de espírito; a pobreza alimenta a altivez; o infortúnio é um bom leite para os magnânimos.

Mário teve uma época na sua vida em que era ele próprio quem varria a escada, que ia comprar um soldo de queijo de Brie à barraca da fruteira e esperava que anoitecesse para ir à padaria comprar um pão, que fur vamente levava para a sua água-furtada, como se o tivera roubado.

Às vezes via-se entrar no açougue da esquina, acotovelado pelas palradeiras criadas de servir, um mancebo com dois livros debaixo do braço, de aspecto mido e furioso, que, depois de entrar e rar o chapéu da cabeça, que lhe escorria em suor, fazendo uma profunda saudação à espantada dona do açougue e ao moço que cortava, pedia uma costeleta de carneiro, que lhe custava seis ou sete soldos, embrulhava-a num bocado de papel, me a-a entre os livros que trazia debaixo do braço e ia-se embora. O mancebo era Mário, que com essa costeleta, que ele próprio guisava, passava três dias.

No primeiro dia comia-lhe a carne, no segundo a gordura, no terceiro roía-lhe os ossos.

Por muitas vezes tentou a filha de Gillenormand fazê-lo aceitar as sessenta pistolas.

Mário, porém, recambiou-as de todas as vezes, mandando-lhe dizer que não nha

precisão de nada.

Quando na vida do mancebo se operou a revolução que acabamos de referir, andava ainda de luto pela morte de seu pai, e desde então não tornara a deixar a roupa preta. A roupa, porém, é que principiava a deixá-lo a ele, até que um dia se viu sem casaco. As calças, essas ainda remediavam. Neste aperto valeu-lhe Courfeyrac, a quem ele nha prestado alguns bons serviços, dando-lhe um casaco velho. Por trinta soldos, Mário mandou-o virar a um porteiro e o casaco ficou como novo. Porém, como era verde, o mancebo só saía ao anoitecer, o que o fazia parecer preto. Deste modo, Mário, que queria con nuar a andar de luto, ves a-se com as sombras da noite para realizar o seu intento.

Após todas estas vicissitudes, conseguiu, afinal, ser inscrito advogado, com suposta aposentadoria em casa de Courfeyrac, que era decente, e onde um certo número de alfarrábios de direito, misturados com volumes de romances truncados, podiam simular a livraria exigida pelo regulamento. Às pessoas com quem se correspondia recomendava que lhe dirigissem as cartas para casa de Courfeyrac.

Quando Mário alcançou o seu lugar na advocacia, escreveu a seu avô uma carta fria, mas cheia de submissão e respeito, par cipando-lho. Gillenormand pegou na carta, abriu-a trémulo, leu-a e a rou com ela para debaixo da mesa, rasgada em quatro bocados. Dois ou três dias depois, Mademoiselle Gillenormand ouviu seu pai, que estava só no quarto, a falar em voz alta, o que lhe acontecia todas as vezes que a sua agitação era muito grande. Aplicou pois o ouvido e percebeu que o velho dizia: «Se não foras um pedaço de asno, havias de saber que advogado e barão são duas coisas que não se coadunam».

II — Mário pobre

Sucede com a miséria como sucede com tudo. Chega esta a tornar-se possível; vem a tomar forma e a arredondar-se, e por fim, vegetamos, quer dizer, vivemos como que entorpecidos, mas não privados inteiramente de sentimento.

Eis de que modo Mário conseguira regular a sua existência.

O desfiladeiro em que ele caíra ia gradualmente alargando. A poder de trabalho, de coragem, de perseverança e vontade, chegara a realizar setecentos francos por ano.

Aprendera o alemão e o inglês e auxiliado por Courfeyrac, que o relacionara com o livreiro seu amigo, Mário representava na literatura-livraria o modesto papel de u lidade. Fazia prospectos, traduzia jornais, anotava edições, compilava biografias, etc., produto líquido, uns anos por outros, setecentos francos, com os quais passava menos mal, como vamos dizer.

Mário ocupava no casebre Gorbeau um cubículo sem fogão, arvorado em gabinete, pelo qual pagava trinta francos de renda, e em que, quanto a móveis, só havia os indispensáveis, que eram propriamente dele. Dava três francos por mês à velha principal locatária para lhe varrer o quarto e levar-lhe todos os dias pela manhã uma pouca de água quente, um ovo e um pão de um soldo, em que consis a o seu almoço, cujo preço variava de três a quatro soldos, conforme os ovos estavam, caros ou baratos. As seis horas da tarde saía e ia jantar ao Rousseau, na rua de S. Jacques, defronte de Basset,

com loja de estampas à esquina da rua dos Mathurins. Não comia sopa. Pedia uma ração de carne de seis soldos, meia ração de legumes, que custava três, e por igual quan a nha a sobremesa. Pão, por três soldos nha quanto pudesse comer. Quanto a vinho, em vez dele, bebia água. Depois dirigia-se ao mostrador, ao qual se achava majestosamente sentada Madame Rousseau, nesse tempo ainda gorda e fresca; pagava, dava um soldo ao criado, recebia um sorriso de Madame Rousseau e saía. Por dezasseis soldos tinha pois o mancebo um sorriso e um jantar.

O restaurante Rousseau, onde se esvaziavam tão poucas garrafas de vinho e tantas de água, era mais um calmante do que um restaurante. Já não existe. O dono nha a engraçada alcunha de Rousseau o aquático.

Deste modo, jantando por dezasseis soldos e almoçando por quatro, ficava-lhe o dia por vinte soldos, que perfaziam a quan a de trezentos e sessenta e cinco francos por ano. Acrescente-se a isto os trinta francos da renda da casa e os trinta e seis à velha, e mais algumas despesas miúdas, e ver-se-á que Mário por quatrocentos e cinquenta francos nha casa, criada e comida. Em roupa e calçado gastava cento e cinquenta francos, a lavadeira ficava-lhe por cinquenta, o que dava tudo um total de seiscentos e cinquenta francos, ficando-lhe ainda um resto de cinquenta francos. Era rico, portanto, achando-se em circunstâncias de poder emprestar dez francos a um amigo se este lhos pedisse. Uma vez chegara a emprestar sessenta francos a Courfeyrac. Quanto à despesa com o fogão, como não o tinha, eliminara essa verba.

Mário nha sempre dois vestuários completos: um mais velho «para o uso ordinário», outro novo para as ocasiões extraordinárias. Eram ambos pretos. Camisas nha três: a que trazia no corpo, uma que nha guardada e outra na lavadeira. Conforme as ia rompendo, assim as ia renovando. Como, porém, nenhuma delas deixava de estar mais ou menos rota, abotoava o casaco até ao pescoço para se não ver.

Para Mário chegar a esta florescente situação levou anos. Anos rudes, cheios de dificuldades e provações. O mancebo, porém, nem um só dia desanimara, sofrendo toda a qualidade de privações, resignando-se a tudo, menos a contrair dívidas. Quando volvia os olhos para o seu passado, sen a prazer em poder asseverar que nunca devera um soldo a ninguém. Na sua opinião, uma dívida era um princípio de escravidão, e ainda ia mais longe: dizia ele que um credor é pior que um senhor, porque um senhor possui apenas a pessoa do escravo, enquanto que o credor possui a dignidade do devedor e pode esbofeteá-la. Antes de se resolver a pedir emprestada qualquer soma, primeiro esgotaria o mancebo todos os recursos, sujeitando-se mesmo a passar sem comer. Dias sem comer passara ele muitos. Conhecendo que todos os extremos se tocam e que, se não há a devida cautela, a falta de meios pode levar a falta de honra, nha todo o cuidado em conservar intacta a sua. Às vezes uma fórmula, um passo que em qualquer outra situação lhe teria parecido uma deferência, afigurava-se-lhe uma baixeza, e o mancebo não se resolvia a pô-la em prá ca. Para se não ver forçado a recuar, não se aventurava coisa nenhuma. No rosto de visava-se-lhe um rubor severo. A sua midez tocava as raias da intratabilidade.