Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 313 de 359

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Os Miseráveis

XXII — Palmo a palmo

Só Enjolras era o único intacto. Quando não nha arma, estendia a mão para um ou outro lado, e algum dos insurgentes lhe passava uma. De quatro espadas, com que havia comba do, mais uma do que as de Francisco I em Marignan, apenas lhe restava um fragmento da quarta.

Homero diz: «Diomedes degola Axilo, filho de Teutrânia, que habitava na feliz Arisba; Euríalo, filho de Mecisteu, extermina Dresos e Ofeltes, Esepo e esse Pédaso que a náiade Abarbaria concebeu, do irrepreensível Bucolionte; Ulisses prostra por terra Pydito de Percose, An loquo, Ablero; Polipetes, As alo, Polydamante, Otos de Cilene; e Teucro, Aretonte. Meganthios morre aos golpes da lança de Eurypikx Againemnon, rei dos heróis, deita por terra Eslatos, nascido na escarpada cidade banhada pelo sonoro rio Satnois».

Nos nossos an gos poemas de Gestes, Esplandiano ataca com um bisegre de fogo o marquês gigante Swan boro, o qual se defende apedrejando o cavaleiro com as torres que arranca do solo Em algumas paredes an gas, vêem-se pinturas a fresco, representando os dois duques de Bretanha e Bourbon, armados, cheios de mbres e

brasões de guerra, a cavalo e em a tude de se inves rem, de acha de armas em punho, máscaras de ferro no rosto, grevas e guantes, um ajaezado de arminho, o outro ves do de azul; Bretanha com o seu leão entre as duas pontas da sua coroa, Bourbon com um capacete em forma de monstruosa flor de lis com viseira. Para parecer sublime, porém, não é preciso trazer como Yvon o morrião ducal, empunhar como Esplandiano uma chama viva, ou como Fileu, pai de Polydamante, ter trazido de Ephyro uma excelente armadura, presente do rei dos homens Eupheto; basta dar a vida por qualquer convicção ou lealdade. Vedes aquele galucho, ainda ontem aldeão de Beauce ou Limousin, girando, de baioneta ao lado, em volta das criadas que vão passear os meninos ao Luxemburgo?

Vedes aquele estudante pálido, inclinado sobre uma peça anatómica ou sobre um livro, louro adolescente que faz a barba com a tesoura das unhas, vede-los? Pegai neles, insuflai-lhes o sen mento do dever, colocai-os em frente um do outro no largo de Boucherat ou no beco de Planche-Mibray, e que um combata pela sua bandeira, outro pelo seu ideal, de modo que ambos imaginem que combatem pela pátria; vereis como a luta se torna colossal; vereis como a sombra produzida por esse galucho e esse aprendiz de cirurgia no grande campo épico em que a humanidade luta, igualará a sombra projectada por Megaryonte, rei da Lícia, cheia de gres, arcando peito a peito com o imenso Ajax, igual aos deuses.

XXII — Palmo a palmo

Mortos todos os outros chefes, à excepção de Mário e de Enjolras que se achavam nas duas extremidades da barricada, o centro, que durante tanto tempo havia sido defendido por Courfeyrac, Joly, Bossuet, Feuilly e Combeferre, principiou a bater em re rada. O fogo» das peças, posto não abrisse brecha bastante para a tomada do reduto, nha-lhe, contudo, feito um grande rombo no meio, de modo que neste sí o, a parede da barricada acabara por aluir-se ao impulso das balas, formando, por úl mo, os destroços, tanto da parte interna como da parte externa da barricada, duas espécies de taludes, dos quais o segundo, isto é, o da parte exterior, oferecia aos assaltantes um plano inclinado.

Por aí tentaram estes úl mos um supremo assalto, mais bem sucedido que os outros.

A massa, eriçada de baioneta e a passo acelerado, chegou irresis vel, e a espessa vanguarda da coluna de ataque apareceu por entre o nevoeiro de fumo no alto do talude. Desta feita, o assalto era decisivo. O grupo dos insurgentes que defendia o centro recuou tumultuosamente.

Então despertou em alguns o sombrio amor à vida. Ao verem apontada contra eles aquela floresta de espingardas muitos perderam o desejo de morrer. É este o momento em que o instinto da conservação solta rugidos e em que no homem reaparece a besta.

Os insurgentes achavam-se situados junto à elevada casa de seis andares, que formava o fundo da barricada. Esta casa podia ser a salvação, porém achava-se trancada como que murada, desde o primeiro até ao úl mo andar. Antes que a tropa de linha penetrasse no interior do reduto, podia, com a rapidez do relâmpago, abrir-se e fechar-se uma porta, que, assim aberta e fechada de repente, seria a vida para aqueles, infelizes. Por trás daquela casa, havia ruas, a possibilidade da fuga, o espaço.

Principiaram, pois, a bater às portas com as coronhas das armas e com os pés, gritando, chamando, suplicando de mãos erguidas. Ninguém, porém, a veio abrir. Apenas do pos go do terceiro andar con nuava a contemplá-los a cabeça móvel do porteiro assassinado por Le Cabuc.

Porém, Enjolras, Mário e mais sete ou oito que se lhes haviam agregado, postaram-se na frente deles, protegendo-os. Enjolras gritou aos soldados:

— Não avancem!

E, como um oficial não obedecesse, fez-lhe pontaria e matou-o.

Achava-se agora no pequeno pá o interior do reduto, encostado à casa de pasto, de espada numa mão e clavina na outra, guardando a porta aberta e rechaçando os assaltantes. Gritou para os desesperados:

— A única porta aberta é esta!

E, cobrindo-os com o seu corpo, afrontando só um batalhão inteiro, mandou-os passar por trás de si, o que eles fizeram, precipitadamente. Enjolras, executando com a clavina, de que agora se servia como de uma bengala, o que os jogadores de pau chamam vira-octas, baixou as baionetas que o cercavam e entrou na retaguarda dos outros, dando-se então uma luta horrível entre os soldados, que queriam entrar, e os insurgentes, que forcejavam por fechar a porta. Afinal, foi esta fechada com tal violência, que, ao bater na ombreira, apanhou os cinco dedos de um soldado, cortando-lhos e deixando-lhos apertados entre a madeira e a pedra.

Mário ficou da parte de fora. Um ro de espingarda acabava de quebrar-lhe a clavícula, em virtude do que se sen u desfazer e quase prestes a cair. Neste momento, com os olhos já fechados, sen u o contacto de uma robusta mão, que o agarrava, e o desmaio, no qual perdeu o acordo, deixou-lhe apenas tempo para este pensamento, unido à suprema lembrança de Cosette: «Estou prisioneiro, vou ser fuzilado!»

Enjolras, não vendo Mário entre os que se nham refugiado na casa de pasto, teve a mesma lembrança. Aqueles homens, porém, achavam-se nesse instante em que cada qual só tem tempo para pensar na sua própria morte. Enjolras deitou a tranca à porta, correu-lhe os ferrolhos e deu duas voltas à fechadura e ao cadeado, ao mesmo tempo que da parte de fora ba am furiosamente, os soldados com as coronhas das armas, os sapadores com os machados. Os assaltantes nham-se juntado à porta da loja. Era o ataque da casa de pasto que agora ia começar.

Cumpre dizer, os soldados estavam furiosos.

Além da morte do sargento de ar lharia, que os irritara, outra circunstância mais terrível se dava, e vinha a ser que, poucas horas antes do ataque, alguém espalhara entre eles que os insurgentes mu lavam os prisioneiros, como o testemunhava o cadáver de um soldado sem cabeça que se achava na loja da casa de pasto.

Esta qualidade de rumor fatal é o acompanhamento das guerras civis, e foi um falso boato desta natureza que depois veio a causar a catástrofe da rua Transnonain.

Trancada a porta, Enjolras disse para os outros:

— Vendamos caro a vida!