Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 223 de 359

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Os Miseráveis

I — O campo da Cotovia

— Foi.

— Branco.

— Que fortuna! Ah, tens ainda sorte! (Prolongada meditação.) Dois.

— Ás.

— Nem cinco nem ás. Isto é estúpido para ti.

— Dominó.

— Os demónios te levem!

LIVRO SEGUNDO — EPONINA

I — O campo da Cotovia

Mário assis ra ao inesperado desenlace da cilada de que nha dado parte a Javert para os efeitos necessários, mas apenas este deixou o casarão, conduzindo consigo os presos em três carros, também ele saiu cautelosamente de casa, e como apenas fossem nove horas da noite, dirigiu-se à de Courfeyrac. Courfeyrac já não era o imperturbável habitante do país la no; nha mudado para a rua dos Vidraceiros «por mo vos polí cos». A rua dos Vidraceiros era um dos pontos onde a insurreição nesse tempo achava favorável acolhimento. Mário disse a Courfeyrac: «Venho cá ficar con go esta noite». Courfeyrac rou um cobertor de cima da cama dele, que nha dois, estendeu-o no meio do chão e disse: «Aqui tens».

No dia seguinte pela manhã, apenas deram sete horas, voltou Mário ao casarão, pagou o resto do aluguer e o que devia a mame Bougon, mandou transportar num carro os livros, a cama , a mesa, a cómoda e as duas cadeiras, e saiu sem deixar dito para onde se mudava; de modo que, quando Javert nessa mesma manhã ali voltou para interrogar Mário sobre as ocorrências do dia antecedente, deparou apenas com mame Bougon, que lhe respondeu: «Já cá não mora!»

Ao ver o procedimento do rapaz, a boa velha Bougon ficou convencida de que Mário não era inteiramente estranho aos planos dos ladrões capturados na noite antecedente.

— Quem tal havia de dizer?! — exclamava ela para as vizinhas. — Um rapaz que me parecia mesmo uma menina.

Duas razões operaram em Mário e o resolveram à sua repen na mudança. Primeira, porque ficara com horror àquela casa, em que de tão perto e em todas as suas fases nha visto, no seu desenvolvimento mais repelente e feroz, uma fealdade social ainda mais medonha talvez do que o mau rico: o mau pobre. Segunda, porque não queria figurar no processo, que provavelmente se ia seguir nem ser levado a depor contra Thenardier.

Javert, que supôs que o rapaz, cujo nome lhe esquecera, vera medo e fugira, ou talvez não recolhesse a casa na ocasião da cilada, fez ainda alguns esforços para dar com ele, porém não conseguiu encontrá-lo.

Passou-se um mês e ainda outro. Mário conservava-se em casa de Courfeyrac Soubera por um advogado pra cante, frequentador habitual da sala dos Passos Perdidos, que Thenardier estava no segredo. Todas as segundas-feiras, Mário mandava entregar na secretaria da Force cinco francos para Thenardier.

Mário não tendo já dinheiro, pedia os cinco francos a Courfeyrac. Era a primeira vez que pedia dinheiro emprestado. Aqueles cinco francos periódicos eram um duplo enigma para Courfeyrac, que os dava e para Thenardier que os recebia «Para quem irá isto?»

pensava Courfeyrac. «Donde me poderá vir este dinheiro?» perguntava Thenardier a si mesmo.

No fim de tudo, Mário sentiu-se profundamente magoado.

Tudo desaparecera novamente. Não via nada diante de si; a sua vida achava-se outra vez mergulhada no mistério em que caminhava às apalpadelas. Num momento tornara a

ver muito perto de si, naquela escuridão, a jovem que amava, o velho que parecia seu pai, os entes desconhecidos que eram o seu único interesse e a sua única esperança no mundo; e quando julgara tê-las seguras, ambas aquelas sombras lhe haviam sido arrebatadas por um sopro. Nem mesmo uma fagulha de certeza e de verdade saíra do mais medonho choque Nenhuma conjectura possível. Nem sequer sabia o nome que julgava saber. Com toda a certeza, este nome não era Úrsula. Cotovia era uma alcunha. E

que deveria pensar do velho? Ocultava-se, com efeito, da polícia? Então, Mário recordou-se do operário de cabelos brancos, que encontrara nas proximidades dos Inválidos. Tornava-se então provável que o senhor Leblanc e aquele operário fossem o mesmo homem. Logo, disfarçava-se? Aquele homem nha lados heróicos e lados equívocos. Porque não chamara ele por socorro? Porque nha fugido? Era ou não o pai da jovem? Enfim, seria realmente o homem que Thenardier julgara reconhecer? Ter-se-ia Thenardier enganado? E estas interrogações eram outros tantos problemas insolúveis. É

verdade que tudo isto não diminuía o encanto angélico da jovem do Luxemburgo.

Pungente angús a: Mário nha uma paixão no coração, e nos olhos a escuridão. Era impelido, era atraído e não podia mover-se. Tudo se desvanecera, excepto o amor. Do próprio amor perdera ele os ins ntos e as iluminações súbitas. Ordinariamente esta chama que nos queima, alumia-nos também um pouco e projecta exteriormente algum clarão ú l. Mário nem mesmo já ouvia os próprios conselhos da paixão. Já não dizia: se eu fosse, se eu tentasse? Aquela a quem já não podia chamar Úrsula estava evidentemente em alguma parte; mas coisa nenhuma indicava a Mário o lado por onde deveria procurar. Toda a sua vida se resumia agora em duas palavras: uma incerteza absoluta num nevoeiro impenetrável. Aspirava sempre tornar a vê-la, a ela, mas não o esperava.

Para cúmulo de infelicidade via-se outra vez próximo da miséria. Sen a-lhe já muito perto, por trás de si, o hálito gelado. Em todos estes tormentos e já desde há muito tempo, interrompera o trabalho; é um hábito que se perde. Hábito fácil de deixar, di cil de readquirir.

Uma certa quan dade de meditação é boa, como um narcó co em dose discreta. A meditação, as febres, algumas vezes acerbas, da inteligência em acção, fazem nascer no espírito um vapor brando e fresco que corrige os contornos demasiadamente ásperos no pensar puro, preenchem num e outro lado lacunas e intervalos, ligam os conjuntos e esfumam os ângulos das ideias. Mas a meditação demasiada submerge e afoga.

Desgraçado do trabalhador pelo espírito, que se deixa cair todo inteiro do pensar na abstracção! Julga que subirá de novo facilmente, e diz consigo que tanto vale uma coisa como outra. Que erro!

O pensar é o trabalho da inteligência, a distracção é a sua voluptuosidade. Substituir o pensamento pela distracção é confundir o veneno com o alimento.

Mário, se bem se recordam, começara por aqui. Viera-lhe a paixão e acabara de o precipitar nas quimeras sem objecto e sem fundo. Já não saía de casa senão para sonhar.

Produção perigosa. Voragem tumultuosa e estagnante. E, à medida que o trabalho diminuía, cresciam as necessidades. Isto é uma lei. O homem no estado de abstracção é

naturalmente pródigo e insensível; o espírito distendido, não pode conservar a vida cerrada. Neste modo de ver há uma mistura de bem e de mal, porque, se a indolência é funesta, a generosidade é sã e boa. Mas o homem pobre, generoso e nobre, que não trabalha, está perdido. Os recursos esgotam-se, as necessidades surgem.

Declive fatal onde os mais honestos e mais firmes são arrastados, tanto como os mais fracos e viciosos, e que termina num de dois antros: o suicídio ou o crime.

O homem nestas circunstâncias, à força de sair de casa para sonhar, chega um dia em que sai para se lançar à água

Os excessos do sonho produz os Escousse e os Lebras.

Mário descia esse declive vagarosamente, com os olhos fitos no que não via. Parece estranho o que acabamos de escrever, e contudo é verdadeiro. A lembrança de um ente ausente acende-se nas trevas do coração; quanto mais completamente desapareceu aquele ente, tanto mais brilhante é a lembrança; a alma desesperada e obscura vê no seu horizonte aquela luz, estrela da noite interior. Ela! Eis a que se reduzia todo o pensar de Mário. Não pensava noutra coisa; conhecia confusamente que a sua velha casaca se tornava casaca impossível, e que a nova se tornava velha, que iam estando muito usadas as camisas, o chapéu e as botas, isto é, que nha a vida gasta, e dizia consigo: «Se ao menos pudesse tornar a vê-la antes de morrer!»

Só lhe restava a doce ideia de que ela o amava, que os seus olhos lho nham dito, que ela não lhe conhecia o nome, mas que lhe conhecia a alma, e que talvez, já onde estava, qualquer que fosse esse lugar misterioso, ainda o amava. Quem sabe se pensava nele como ele pensava nela? Algumas vezes, nas horas inexplicáveis, como as têm todo o coração que ama, não tendo senão razões para estar triste, e sen do contudo um obscuro estremecimento de alegria, dizia consigo: «São os seus pensamentos que vêm ter comigo» Depois acrescentava: «Talvez os meus cheguem até ela»

Esta ilusão, a que ele encolhia os ombros quase no mesmo momento, conseguia todavia lançar-lhe na alma certos raios de luz, que se assemelhavam à esperança.

De tempos a tempos, principalmente à hora da tarde que mais entristece os sonhadores, deixava cair num caderno de papel, onde não havia outra coisa, as mais puras, as mais impessoais, as mais ideais das quimeras, de que o amor lhe enchia o cérebro. Chamava a isto «escrever-lhe».