Os Miseráveis
IV — Onde Jean Valjean faz acreditar que leu Austin Castillejo
— Reverenda madre, há-de ser precisa uma alavanca que tenha pelo menos seis pés.
— Aonde a há-de arranjar?
— Onde não faltam grades não faltam barras de ferro. Num canto do jardim tenho lá um montão de ferros velhos.
— Não se esqueça, três quartos de hora antes da meia-noite, pouco mais ou menos.
— Reverenda madre?
— Que é?
— Se vossa reverendíssima ver mais alguma obra como esta, eu chamo meu irmão, que é forte como um turco!
— Há-de andar o mais depressa que puder.
— Lá isso é que eu não poderei muito bem, porque sou aleijado aqui de uma perna.
Por isso é que eu queria outro homem que me ajudasse. Sou coxo, reverenda madre.
— Ser coxo não é defeito, ou antes, talvez seja uma bênção. O imperador Henrique II, que combateu o an -Papa Gregório e restabeleceu Bento VIII, teve dois sobrenomes, o de Santo e o de Coxo.
— Oh, dois sobrenomes é bem boa coisa! — murmurou Fauchelevent, que na
realidade, não era muito fino de ouvido.
— Senhor Fauvent, lembra-me que será melhor marcar uma hora inteira; talvez se não arranje tudo nos três quartos de hora. Não é de mais. Esteja, portanto, ao pé do altar-mor, com a sua barra de ferro, às onze horas. O o cio principia à meia-noite. Porém deve estar tudo concluído um bom quarto de hora antes.
— Hei-de fazer tudo para provar o meu zelo à comunidade. Aqui está como é. As onze horas em ponto, depois de ter pregado o caixão, devo estar na capela, onde estarão as madres cantoras e a madre Ascensão. Dois homens era melhor. Mas, enfim, não importa! Como eu levo a alavanca... Devemos abrir o carneiro, descer o caixão e torná-lo a fechar. Depois passe por lá muito bem. O governo não saberá de coisa nenhuma.
Reverenda madre, fica tudo assim bem arranjado?
— Não.
— Então que temos ainda?
— Resta o caixão vazio.
Isto causou uma pausa. Fauchelevent e a prioresa meditavam.
— Senhor Fauvent, que se há-de fazer do caixão vazio?
— Leva-se para o cemitério.
— Vazio?
Outro silêncio. Fauchelevent, porém, fez com a mão esquerda essa espécie de gesto com que se despede uma pergunta molesta.
— Reverenda madre, como sou eu o que hei-de pregar o caixão, na sala inferior da igreja, como lá não pode entrar mais ninguém senão eu, cubro a tumba com o pano mortuário.
— Sim, mas os que a conduzem, ao pô-la no carro e ao descê-la à cova, conhecerão que não leva nada dentro.
— Ah! di... — exclamou Fauchelevent.
A prioresa fez o sinal da cruz, fitando os olhos no jardineiro. «Abo» ficou-lhe na garganta.
Apressou-se, porém, a improvisar um expediente para fazer esquecer a praga.
— Reverenda madre, sabe o que eu faço? Encho o caixão de terra, de modo que há-de parecer que leva gente.
— Tem razão. A terra é a mesma coisa que o homem. De maneira que você arranja o caixão vazio?
— Deixe-me cá o negócio por minha conta.
O rosto da prioresa, até então turvo e escuro, serenou e a madre fez-lhe o sinal do superior que despede o inferior. Fauchelevent dirigiu-se para a porta, porém, no momento em que ia a sair, a prioresa elevou de mansinho a voz e disse-lhe:
— Senhor Fauvent, estou sa sfeita consigo; amanhã depois do enterro, traga-me seu irmão e diga-lhe que traga também a criança.
IV — Onde Jean Valjean faz acreditar que leu Austin Castillejo Passos de coxo são como olhares de vesgo; nunca chegam com presteza ao alvo.
Além de que, Fauchelevent estava perplexo. Por isso, levou-lhe um quarto de hora a
chegar à barraca do jardim. Cose e já estava acordada, sentada ao pé do fogão, para onde a levara Jean Valjean. Mostrava-lhe ele no momento em que Fauchelevent entrou, o cesto do jardineiro, pendurado da parede e dizia-lhe:
— Toma bem sen do no que eu te digo, Cose e. Nós não temos remédio senão irmo-nos daqui embora, mas havemos de voltar e ficar op mamente. Aquele velho que tu viste leva-te às costas dentro daquilo e hás-de esperar por mim em casa de uma senhora, onde eu hei-de ir ter con go. Mas olha bem, se não queres que a Thenardier te leve outra vez, obedece e não digas nada.
Cosette fez um aceno de cabeça com ar grave.
Ao rumor que Fauchelevent fez, abrindo a porta, Jean Valjean voltou-se e disse rapidamente:
— Então?
— Tudo se arranja e nada se arranja! — disse Fauchelevent — Tenho licença para o fazer entrar, mas, antes de o fazer entrar, é necessário fazê-lo sair. Aí é que pega o carro.
Lá quanto à pequena, isso é fácil.
— Sempre a leva?
— Irá ela calada?
— Por isso respondo eu.
— Mas o senhor, senhor Madelaine?
E, após um silêncio cheio de ansiedade, exclamou:
— Mas porque não sai por onde entrou?
Jean Valjean limitou-se a dizer, como da primeira vez:
— Impossível!
O jardineiro murmurou por entre dentes, mais falando consigo do que com Jean Valjean:
— Ainda há outra coisa que me apoquenta mais: é ter dito que lhe deitaria terra dentro. A terra não se parece nada com um corpo, há-de mexer dum lado para o outro e os homens hão-de por força conhecê-lo. Bem percebe, senhor Madelaine, pode ser descoberto pela autoridade
Jean Valjean encarou-o e julgou-o delirante.
Fauchelevent prosseguiu:
— Como di... acho há-de o senhor sair? É necessário que fique tudo feito amanhã!
Amanhã é que hei-de apresentá-lo; amanhã é que a prioresa o espera.
Em seguida explicou a Jean Valjean, que era a recompensa de um serviço que ele, Fauchelevent, prestara à comunidade. Que entrava nas suas atribuições tomar parte nos enterros, que era ele quem pregava os caixões, e no cemitério ajudava o coveiro.
Que a religiosa que morrera pela manhã pedira para ser me da no caixão que lhe servia de cama e sepultada no carneiro situado por baixo do altar da capela. Que isto era proibido pelos regulamentos da polícia; mas que a defunta era daquelas a quem não se nega coisa alguma. Que a prioresa e as madres vocais esperavam executar a úl ma vontade da finada, e que quem ficava mal era o governo. Que ele, Fauchelevent, pregaria o caixão na cela, levantaria a pedra na capela e faria descer a morta para o carneiro. Que
a prioresa, para lhe agradecer este serviço, lhe admi a no convento seu irmão como jardineiro e sua sobrinha como educanda. Que seu irmão era o senhor Madelaine, e sua sobrinha Cose e. Que a prioresa dissera que lhe apresentasse seu irmão no dia seguinte, depois do enterro fingido do cemitério; mas que não poderia trazer de fora o senhor Madelaine, se o senhor Madelaine ali não es vesse; que era esta a primeira dificuldade, mas que depois desta ainda havia outra, que era o caixão vazio.
— Mas que caixão vazio é esse? — perguntou Jean Valjean.
— O caixão da administração — respondeu Fauchelevent.
— Qual caixão? Qual administração?
— Quando morre uma religiosa, o médico dos mortos vem comprovar o facto. O
governo manda um caixão, e no dia seguinte o carro dos defuntos e os gatos-pingados para lhe pegarem e o acompanharem ao cemitério. Pois quando vierem os gatos-pingados, levantarão o caixão e conhecerão que não tem nada dentro.
— Mas meta-lhe alguma coisa.
— Um morto? Não tenho.
— Não é isso.
— Então o quê?
— Um vivo.
— Mas qual vivo?
— Eu disse — Jean Valjean.
Fauchelevent, que se sentara, ergueu-se, como se aos pés lhe houvesse rebentado uma bomba.
— O senhor?!
— Porque não?
Jean Valjean mostrou um daqueles sorrisos que lhe apareciam no rosto, qual clarão num céu de Inverno.
— Bem sabe, Fauchelevent, que quando disse: a madre Crucificação está morta, acrescentei eu: e o senhor Madelaine enterrado. Não será mais do que isto.
— Ah, o senhor ri-se, não fala seriamente!
— Muito seriamente. Não é preciso sair daqui?
— Sem dúvida.
— Não lhe disse que visse se achava também para mim um cesto com tampa?
— E então?
— O cesto será de pinho e a tampa um pano preto.
— Não há-de ser preto, mas sim branco. As religiosas são enterradas de branco.
— Pois seja de branco.
— O senhor não é um homem como os outros, senhor Madelaine.
Ter semelhantes ideias, que não representam senão as selvagens e temerárias invenções das galés, sair das coisas pacíficas que o rodeavam, e envolver-se no que ele chamava mexericos do convento, era para Fauchelevent um mo vo de espanto, igual ao que experimentaria o transeunte que visse um groenlandês pescando na enxurrada das ruas de S. Diniz.
Jean Valjean prosseguiu:
— Trata-se de sair daqui sem ser visto. Aqui está um meio. Mas preciso de informações. Como é que se passam estas coisas todas? Onde está o caixão?
— O vazio?
— Sim.
— Está lá em baixo, no que chamam a câmara dos defuntos. Está sobre dois cavaletes e coberto com um pano mortuário.
— Que cumprimento tem ele?
— Seis pés.
— Mas o que é a câmara dos defuntos?
— É uma casa à beira da rua, com uma janela de grades para o jardim, que se fecha pela parte de fora, e que tem um pos go e duas portas: uma para o interior do convento, outra para a igreja.
— Qual igreja?
— A igreja que dá para a rua, a igreja de toda a gente.
— E tem a chave dessas duas portas?
— Não. Tenho a chave da porta que comunica com o convento; a da outra, a que dá para a igreja, tem-na o porteiro.
— Quando abre o porteiro essa porta?
— Unicamente quando tem de deixar entrar os gatos-pingados que vêm buscar o caixão. Apenas sai o caixão é logo a porta fechada.
— Quem é que prega o caixão?
— Sou eu.
— Quem é que o cobre com o pano?
— Sou eu.
— Só você?
— Além de mim e do médico da polícia, nenhum outro homem pode entrar na câmara das defuntas. Isto mesmo lá está escrito na parede.
— Não poderá, esta noite, quando es ver tudo a dormir no convento, esconder-me nessa casa?
— Não. Mas posso escondê-lo num cubículo que dá para ela, onde guardo os meus utensílios dos enterros e cuja chave está em meu poder.
— A que horas virá amanhã o carro buscar o caixão?
— Aí pelas três da tarde. O enterro é no cemitério Vaugirard, pouco antes da noite.
— Pois ficarei escondido no tal cubículo toda a noite e toda a manhã. E de comer?
Hei-de ter fome.
— Comida levo-lha eu.
— Em sendo duas horas pode ir fechar-me no caixão.
Fauchelevent recuou espantado, fazendo estalar os ossos dos dedos.
— É impossível!
— O quê! Impossível pegar num martelo e pregar uma tábua?
O que parecia inaudito a Fauchelevent, era da maior simplicidade para Jean Valjean,
que atravessara muito piores estreitos. Quem quer que tenha estado preso, sabe a arte de se encolher segundo o diâmetro das evasões. O prisioneiro é sujeito à fuga como o doente à crise, que o mata ou que o salva. Uma evasão é uma cura. O que é que o doente não aceita para se restabelecer? Fazer com que o pregassem e conduzissem num caixão, como qualquer mercadoria, viver por muito tempo numa boceta, ter ar onda o não há, economizar a respiração durante horas inteiras, saber abafar sem morrer, era um dos sombrios talentos de Jean Valjean
No fim de contas, se um caixão levando dentro uma pessoa viva, é expediente de forçado, é também expediente de imperador. Se dermos crédito a Aus n Cas llejo, foi este o meio que Carlos V, querendo, depois da sua abdicação, ver pela úl ma vez a Plombes, empregou para a fazer entrar e sair no convento de S. Justo.
Fauchelevent, passado o primeiro momento de espanto, exclamou:
— Mas como há-de arranjar-se para respirar?
— Hei-de respirar.
— Dentro do caixão Eu sinto-me sufocado só por pensar nisso
— O senhor tem por força uma verruma; faça com ela alguns furos no lugar da boca e depois pregará a tábua sem a unir.
— E se tiver vontade de tossir ou de espirrar?
— Quem foge nunca tosse nem espirra.
E Jean Valjean continuou:
— Senhor Fauchelevent, é preciso tomar-se uma decisão; ou hei-de ser apanhado aqui, ou hei-de sair no carro
Não há ninguém que haja notado o prazer que têm os gatos em brincar entre os dois batentes de uma porta cerrada. Quem não tem dito a um gato: Pode entrar! Há homens que, num acidente entreaberto diante deles, têm pelo mesmo modo pronunciada tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, mesmo correndo o risco de serem esmagados pelo des no, que pode fechar de repente a aventura. Os demasiadamente prudentes, gatos como são, e mesmo porque o são, correm muitas vezes maior perigo do que os audazes. Fauchelevent pertencia a este género hesitante. Todavia, o sangue-frio de Jean Valjean ia-o, a seu pesar, dominando de tal modo, que o obrigou a murmurar: