Os Miseráveis
V — Noite, após a qual sucede o dia
— Cocheiro — disse ele — rua do Homem Armado, número 7.
O fiacre partiu.
— Que felicidade! — disse Cose e. — Vamos à rua do Homem Armado! Não me atrevi a falar-te nisso. Vamos visitar o senhor Jean.
— Teu pai, Cose e, teu pai mais do que nunca! Estou adivinhando tudo. Disseste-me
que não recebeste a carta que eu te mandara pelo Gavroche: foi decerto parar-lhe às mãos, Cose e, e fez com que ele fosse à barricada para me salvar; mas como tem a necessidade de ser um anjo, mesmo de passagem, salvou outros, salvou Javert.
Arrancou-me daquele abismo para me dar a , e conduziu-me às costas pelo medonho esgoto. Sou um monstruoso ingrato. Depois de ter sido a tua Providência, Cose e, foi-o também para mim. Imagina que havia ali um espantoso sorvedouro onde poderia afogar-se cem vezes, afogar-se em lama, e atravessou-o comigo! Eu nha perdido os sen dos; não via nem ouvia nada, não podia saber coisa alguma da minha própria aventura. Vamos buscá-lo, trazê-lo connosco, queira ou não queira; não se há-de tornar a separar de nós; assim ele esteja em casa, assim nós o encontremos! Passarei o resto da minha vida a venerá-lo. Sim, deve ser isto, não te parece, Cose e? Foi a ele que Gavroche entregou a carta; bem compreendes, deste modo tudo se explica.
Cosette não compreendia uma única palavra.
— Deve ser assim, deve... — disse-lhe ela.
Entretanto, o fiacre continuava a andar para a rua do Homem Armado.
V — Noite, após a qual sucede o dia
Jean Valjean ouvindo bater na porta, voltou-se.
— Entre — disse com voz fraquíssima.
A porta abriu-se, e logo apareceram Cosette e Mário.
Cosette precipitou-se dentro do quarto.
Mário ficou à entrada da porta, em pé, encostado à ombreira.
— Cose e! — disse Jean Valjean; e ergueu-se com os braços abertos e trémulos, desmaiado, lívido, sinistro, com incrível alegria nos olhos.
Cosette, sufocada pela comoção, precipitou-se sobre o peito de Jean Valjean.
— Meu pai! — exclamou ela.
Jean Valjean, transtornado, balbuciava:
— Cosette! Ela! A senhora! És tu! Oh, meu Deus!
E estreitado pelos braços de Cosette, exclamou:
— És tu, estás aqui! Logo, perdoas-me!
Mário, baixando as pálpebras para impedir as lágrimas de cair, deu um passo e murmurou com os lábios convulsivamente contraídos para abafar os soluços:
— Meu pai!
— O senhor! Também o senhor me perdoa! — disse Jean Valjean.
Mário não pôde achar uma palavra para dizer: Jean Valjean acrescentou:
— Muito obrigado!
Cosette tirou o abafo e o chapéu e lançou-os sobre a cama.
— Está-me incomodando isto — disse ela.
E, sentando-se nos joelhos do ancião, afastou-lhe os cabelos brancos com um movimento adorável e beijou-o na fronte.
Jean Valjean, desvairado, não se opunha a estas carícias.
Cose e, que só muito confusamente compreendia a situação, redobrava de carinho, como se quisesse pagar a dívida de Mário. Jean Valjean balbuciou:
— Como se é estúpido! Então não acreditava eu que não tornaria a vê-la?! Imagine, senhor Pontmercy, que no momento em que os senhores entraram nha eu dito comigo: Acabou-se tudo. Ali está o seu ves dinho: sou um desgraçado, não torno a ver Cose e: era o que eu dizia quando vinham subindo a escada. Estava idiota! Não contava com Deus! Pensas que te abandonam, pateta! disse Nosso Senhor: não, não há-de ser assim.
Ora vamos, é um pobre velho que precisa de um anjo. E o anjo vem, e o triste torna a ver a sua Cosette, a sua Cosettesinha! Ah, sentia-me muito desgraçado!
Esteve um momento sem poder falar e depois prosseguiu:
— Eu nha verdadeira necessidade de ver Cose e, por um bocadinho, de tempos a tempos. O coração parece que precisa dum osso para roer. Entretanto bem conhecia que era demais, e forcejava por me convencer; não precisam de , deixa-te estar no teu canto, ninguém tem direito de se tornar eterno, dizia eu sem cessar. Mas, louvado seja Deus! Tornei a vê-la! Sabes, Cose e. Teu marido é um moço perfeito. Que bonito Colarinho bordado que trazes; gosto bem desse desenho. Aposto que foi escolhido por teu marido? Deixe-me tratá-la por tu, senhor Pontmercy, não será por muito tempo.
— Que maldade o deixar-nos de semelhante modo! Aonde é que foi? Por que se demorou tanto tempo? Dantes as suas viagens não duravam mais de três ou quatro dias.
Todas as vezes que mandei a Nicole e saber no cias suas, respondiam-lhe que estava ausente. Quando foi que voltou? Porque não nos deu parte da sua chegada? Sempre está muito mudado! Que pai tão mau! Esteve doente -e nós sem o sabermos! Olha, Mário, como ele tem a mão fria!
— Ei-lo, enfim! Sempre me perdoa, senhor Pontmercy! — repetiu Jean Valjean.
A estas palavras, que Jean Valjean acabava de dizer pela segunda vez, tudo o que oprimia o coração de Mário achou saída, e como que detonou:
— Ouves, Cose e! A pedir-me perdão! E sabes tu o que ele me fez? Salvou-me a vida.
Ainda fez mais: deu-me a . E depois de tudo isto, Cose e, o que fez ele de si mesmo?
Sacrificou-se. Eis o que foi este homem! E é a mim, o ingrato, o esquecido, a mim o desapiedado, o culpado, é a mim que ele diz: Obrigado! Seria demasiadamente pouco o passar o resto da minha vida a seus pés. A barricada, o cano de despejo, a fornalha e a cloaca, tudo ele atravessou por mim e por , Cose e; conduziu-me através de todas as marés que ele afastava de mim, e que aceitava para si. Todas as voragens, todas as virtudes, todos os heroísmos, todas as san dades, possui-as ele! Este homem, Cose e, é um anjo!
— Caluda! — disse muito baixinho Jean Valjean — Para que havia de dizer tudo isso?
— Mas o senhor — exclamou Mário, com uma cólera em que havia veneração. —
Porque o não disse? É também sua a culpa. Salva-nos a vida, para depois se ocultar! Faz ainda mais: como pretexto de se desmascarar, calunia-se. Foi muito mal feito!
— Não disse senão a verdade — respondeu Jean Valjean.
— Não — tornou Mário — a verdade, é a verdade inteira, e o senhor não a expôs. Era o senhor Madelaine, porque o não disse? Tinha salvo a Vida a Javert; do mesmo modo, porque o não disse? Devo-lhe a vida; porque o ocultou?
— Porque pensava como o senhor; achava-me toda a razão. Era preciso que me
afastasse; e se o senhor soubesse a história do cano, ter-me-ia feito ficar junto de si; portanto devia calar-me. Falando constrangeria tudo.
— Constranger o quê, a quem? — tornou Mário. Julga acaso que ficará aqui? Nós vimos buscá-lo. Meu Deus! Quando penso em que só por acaso soube tudo isto! Há-de ir connosco. O senhor faz parte de nós mesmos; é tanto pai de Cose e como meu. Não passará nem mais um dia nesta medonha casa. Não pense que estará amanhã aqui.
— Amanhã — disse Jean Valjean — não estarei aqui, mas não estarei em sua casa.
— O que é que diz? — replicou Mário. — Ora essa! Não lhe permi mos mais viagens, não tornará a Separar-se de nós; pertence-nos, não o deixamos mais.
— Desta vez é tudo pelo melhor — acrescentou Cose e — temos lá em baixo uma carruagem. Vou raptá-lo, e, se for preciso, emprego a força.
E rindo, fez a acção de erguer o velho nos braços.
— Em nossa casa ainda não deixou de haver o seu quarto — prosseguiu ela. -— Não faz ideia de como agora está bonito o jardim! As azáleas dão-se tão bem nele! As ruas estão todas cobertas de areia da praia, de sorte que se vêem por todos os lados muitas conchinhas roxas. Há-de comer dos meus morangos, que são regados por mim. E nada mais de senhora, nem de senhor Jean; estamos em república, toda a gente se trata por tu; não é assim, Mário? Alterou-se o programa. Se soubesse, meu pai! Passei por um grande desgosto: havia no jardim um pintarroxo que nha feito o ninho num buraco da parede; pois foi comido por um horrendo gato. Meu pobre pintarroxinho, que deitava a cabeça de fora da sua janela para olhar para mim! Chorei muito, por causa disto; a minha vontade foi matar o gato! Mas agora já ninguém chora mais; toda a gente se ri, todos são felizes. Meu pai vai já daqui connosco. Como o avô ficará contente! Olhe que há-de ter também o seu canteirinho no jardim para cul var, e veremos se é capaz de ter melhores morangos do que eu. Hei-de fazer tudo o que quiser: mas olhe que também me há-de obedecer.
Jean Valjean escutava-a sem a ouvir, ouvia-lhe mais a música da voz do que o sen do das palavras; uma volumosa lágrima, das que são sombrias pérolas da alma, ia-se-lhe vagarosamente formando no canto do olho.
— A prova de que Deus é bom — murmurou ele é que a vejo aqui.
— Meu pai! — disse Cosette.
Jean Valjean continuou:
— É realmente verdade que seria encantador o vivermos juntos. Têm as suas árvores cheias de passarinhos. Passearia com Cose e. Ver-se, falar-se a gente, chamar-se no jardim, é muito doce! Todos se vêem uns aos outros desde pela manhã. Cul varíamos cada um o nosso can nho de terra. Ela dar-me-ia dos seus morangos e eu colheria para ela as minhas rosas. Seria encantador. Mas... Interrompeu-se e disse brandamente:
— É pena!
A lágrima não se desprendeu, tornou a recolher-se, e Jean Valjean subs tuiu-a por um sorriso.
Cosette juntou nas suas, ambas as mãos do ancião.
— Valha-me Deus! — disse ela. — As suas mãos estão cada vez mais frias. Sente alguma coisa? Está doente?
— Eu? Não! — respondeu Jean Valjean. — Estou bom. Mas...
E calou-se.
— Mas, o quê?
— Morro daqui a pouco.
Cosette e Mário estremeceram,.
— Morrer? — exclamou Mário.
— Sim, mas isso não vale nada — disse Jean Valjean.
Tomou a respiração, sorriu-se e continuou:
— Estavas falando comigo, Cosette; fala, fala, continua.
O teu pintarroxinho morreu... Fala, deixa-me ouvir a tua voz.
Mário, petrificado, olhava para o velho.
Cosette soltou um grito despedaçador.
— Meu pai! Há-de viver, meu pai! Quero por força que viva!
Jean Valjean ergueu para ela os olhos com adoração.
— Sim, sim, proíbe-me que morra. Quem sabe? Talvez obedeça. Quando chegaram estava eu a morrer. A vossa chegada fez-me demorar: pareceu-me que renascia.
— Está ainda cheio de força e de vida! — exclamou Mário. — Então julga que se morre deste modo? Tem do desgostos, mas não tornará a tê-los. Sou eu que lhe peço perdão, e de joelhos! Há-de viver e viver connosco, por muito tempo. Tornámos a possuí-lo.
Doravante não teremos ambos senão um único pensamento: a sua felicidade!
— Bem vê — tornou Cose e debulhada em lágrimas — como o Mário diz que não há-de morrer.
Jean Valjean continuou a sorrir-se.
— O tornar-me a possuir, senhor Pontmercy, faria com que eu deixasse de ser o que sou? Não. Deus pensou como o senhor e como eu, e não muda de opinião: é ú l que me vá. A morte acomoda tudo. Deus sabe melhor que nós o que nos convém. Que Sejam muito felizes, que o senhor Pontmercy possua Cose e, que a mocidade despose a manhã, que em torno de si, meus filhos, tenham lilases e rouxinóis, que a vida lhes seja verdejante prado inundado de sol, que todos os encantos do céu lhes preencham a alma; e agora, eu que já não sirvo para nada, que morra; não tem dúvida que tudo isto assim deve ser. Ora, pois, sejamos razoáveis; já não há aqui possibilidade de mais nada; sinto tudo completamente acabado! Há uma hora, ve um desmaio. E depois, esta noite bebi toda a água que estava naquela bilha. Como é bondoso o teu marido, Cose e!
Estás melhor com ele do que comigo.
Nisto, sentiu-se rumor à porta. Era o médico que entrava.
— Boa tarde e adeus, doutor — disse Jean Valjean. — Já aqui estão os meus pobres filhos.
Mário aproximou-se do médico e dirigiu-lhe uma única palavra:
— Doutor?...
Mas na maneira de a pronunciar havia uma pergunta completa.
O médico respondeu à pergunta com expressivo olhar.
— Por as coisas nos desagradarem — disse Jean Valjean — não devemos ser injustos para com Deus.
Seguiu-se um momento de silêncio. Todos os peitos se sentiam opressos.
Jean Valjean voltou-se para Cose e e pôs-se a contemplá-la como se o quisesse fazer para toda a eternidade.
Na profundidade da sombra a que já nha descido, era-lhe ainda possível o êxtase olhando para Cose e. A reverberação daquele meigo rosto iluminava-lhe as pálidas faces. O Sepulcro pode ter também o seu deslumbramento.
O médico tomou-lhe o pulso.
— Eram os senhores o que lhe faltava! — murmurou ele, olhando para Cose e e para Mário.
E, inclinando-se para o ouvido de Mário, acrescentou muito baixinho:
— É tarde demais.
Jean Valjean, quase sem cessar de olhar para Cose e, observou Mário e o médico com a maior serenidade, e ouviram-lhe sair dos lábios estas palavras articuladas:
— Morrer é nada: não viver é que é medonho.
De repente levantou-se.
Estes regressos de força são por vezes o próprio indício da agonia.
Dirigiu-se com passos firmes para a parede, afastou Mário e o médico, que queriam ajudá-lo, dependurou o crucifixo de cobre que ali estava pendurado, tornou a ir sentar-se com toda a liberdade de movimentos próprios da mais perfeita saúde, e disse em voz alta, pondo o crucifixo sobre a mesa:
— Eis aqui o grande mártir!
Depois comprimiu-se-lhe o peito, sen u uma tontura como se fora acome do pela embriaguez do túmulo, e as duas mãos, apoiadas nos joelhos, começaram a raspar com as unhas o pano das calças.
Cose e Sus nha-lhe os ombros e, sufocada pelos soluços, diligenciava dirigir-lhe a palavra, sem o poder conseguir. Percebiam-se-lhe entre os sons misturados com a lúgubre saliva que acompanha as lágrimas, palavras como estas:
— Meu pai! Não nos deixe. Pois é possível que só o tornássemos a achar para o perder?!
Poder-se-ia dizer que a agonia serpenteia; adianta-se, recua, avança para o sepulcro e volta-se para a vida.
A acção de morrer é executada como que às apalpadelas.
Jean Valjean, depois desta meia síncope, recobrou o ânimo, sacudiu a cabeça como para expelir dela as trevas, e tornou-se quase plenamente lúcido. Pegou numa das mãos de Cosette e beijou-a.
— Tornou a si, doutor, tornou a si! — exclamou Mário.
— Têm ambos muito bom coração — disse Jean Valjean.
— Vou dizer-lhes o que tanto me mor ficou. O meu desgosto, senhor Pontmercy, proveio do senhor não querer tocar naquele dinheiro, que é muito de sua mulher. Vou explicar-lhes Como o ob ve; e é por isso mesmo que me dá tão grande contentamento o vê-los. O azeviche preto vem de Inglaterra, o claro da Noruega. Acharão tudo isto no papel que além está. Para os braceletes inventei eu os fios encadeados, em subs tuição dos que eram soldados, E mais bonito, melhor, mais barato. Já pode calcular quanto dinheiro é fácil ganhar por este modo. A riqueza de Cose e pertence-lhe. Conto-lhe estes pormenores para sossego do seu espírito.
A porteira subira a escada e fora espreitar pela porta entreaberta. O médico mandou-a re rar, mas não pôde evitar que a pobre mulher, antes de descer, gritasse, cheia de zelo, ao moribundo:
— Quer um padre?
— Já tenho um. — respondeu Jean Valjean.
E com o dedo pareceu designar um ponto acima de si, onde se diria que estava vendo alguém.
Era provável que o bispo assistisse, com efeito, àquela agonia.
Cose e, brandamente, colocou-lhe um travesseiro sobre os rins. Jean Valjean prosseguiu:
— Senhor Pontmercy, conjuro-o para que não tenha receio. Os seiscentos mil francos pertencem de direito a Cose e. Teria perdido toda a minha vida, se os não gozassem!
Tínhamos chegado a obter a perfeição naquele género de fabrico. Os nossos produtos rivalizavam com os que vinham de Berlim. Por exemplo, não pode compe r-se com a missanga preta da Alemanha, Uma grossa, que contém mil e duzentas contas bem acabadas, custa apenas três francos.
Quando está para morrer um ente que nos é caro, o olhar parece agarrar-se a ele e querer detê-lo. Ambos mudos de aflição, não sabendo que dizer à morte, trémulos e sem esperança, conservaram-se diante dele, Cosette apertando a mão a Mário.
Jean Valjean declinava de instante para instante.
Baixava, aproximava-se do horizonte Sombrio. A respiração tornara-se-lhe intermitente, entrecortada pelo estertor.
Custava-lhe a mover o antebraço, os pés haviam perdido todo o movimento; e ao passo que a fraqueza dos membros e o desfalecimento do corpo crescia, toda a majestade da alma se lhe patenteava e desenvolvia na fronte. A luz do mundo desconhecido era-lhe já visível.
O seu rosto empalidecia e sorria ao mesmo tempo.
A vida já ali não estava, era outra coisa em seu lugar.
O alento diminuía, a vista aumentava. Era um cadáver em que se sentiam asas.
Fez sinal a Cose e e depois a Mário para que se aproximassem — era evidentemente o úl mo minuto da úl ma hora — e começou a falar-lhes com voz tão fraca que parecia vir de longe, e que faria supor, desde então, a existência de muralha entre ele e aqueles a quem se dirigia.
— Aproximem-se, aproximem-se ambos, quero-lhes muito. Oh, como é bom morrer!
Tu também me queres muito, minha Cose e? Eu bem sabia que nunca deixaras de ter amizade ao teu pobre velho. Fizeste bem em me teres posto esta almofada debaixo dos
rins! Hás-de chorar por mim, não é verdade? Não muito. Não quero que tenhas desgostos profundos. Devem diver r-se muito, meus filhos. Esqueci-me de lhes dizer que nas fivelas sem bico, se ganhava mais que em todos os outros objectos. Cada grosa, doze dúzias, saía por dez francos e vendia-se por sessenta. Era realmente um bom comércio.
Não devem causar-lhe espanto os seiscentos mil francos, senhor Pontmercy. É dinheiro honrado. Podem gastá-los sem escrúpulos. Deverão ter uma carruagem, de tempos a tempos um camarote nos teatros, bonitos ves dos de baile, minha Cose e; dar bons jantares aos seus amigos, serem muito felizes. Ainda agora estava escrevendo a Cose e, que há-de aí achar a minha carta. É a ela que eu deixo os dois castiçais que estão sobre o fogão. São de prata, mas para mim, são eles de oiro, são de diamantes; transformam em círios as velas que se lhes põem. Não sei se aquele que mos deu estará sa sfeito comigo, lá em cima. Fiz quanto pude. Meus filhos, não se esqueçam nunca de que sou um pobre: far-me-ão enterrar no canto de terra mais obscuro, onde só porão uma pedra, para designar o sí o. É esta a minha vontade; e sobre a pedra nada de nome. Se Cose e ali quiser ir algumas vezes dar-me-á prazer; e o senhor também, senhor Pontmercy. É
preciso que lhe confesse que nem sempre lhe fui afeiçoado. Peço-lhe que me perdoe.
Agora, ela e o senhor não são para mim mais do que um só. Devo-lhe: muito reconhecimento. Tenho a consciência que faz a felicidade de Cose e. Não faz ideia, senhor Pontmercy, as suas lindas faces coradas eram a minha alegria; quando a via um tanto pálida ficava triste. Na cómoda está uma nota de quinhentos francos. Não lhe toquei, é para os pobres. Olha, Cose e, vês o teu ves dinho, ali em cima da cama?
Lembras-te dele? E contudo há apenas dez anos. Como o tempo passa! Fomos muito felizes! Ora, pois, acabou-se tudo. Não chorem, meus filhos, não vou para muito longe; vê-los-ei de lá. Bastar-lhes-á olhar, depois de anoitecer, para me verem sorrir. Cose e, lembras-te de Montfermeil? Estavas na mata, toda cheia de medo; lembras-te de quando te peguei na asa do balde? Foi a primeira vez que eu toquei na tua pobre mãozinha; estava tão fria! Ah, nesse tempo nha as mãos vermelhas, minha menina, agora tem-nas muito brancas. E a boneca muito grande! Lembras-te? Chamavas-lhe Catarina. Que pena sen as de não a teres levado para o convento! Quantas vezes me fizeste rir, meu anjinho! Quando nha chovido, deitavas tu palhinhas nos regatos e punhas-te muito admirada a vê-las ir levadas pela água. Num dia dei-te uma raqueta de vime e um volante com penas amarelas, azuis e verdes. Já te não lembras. Foste tão traquina enquanto pequenina! Não fazias senão brincar. Quando nhas ginjas nunca as deixavas de as pôr nas orelhas à maneira de brincos. Tudo isto já lá vai. As matas por onde um homem passa com sua filha, as árvores que lhe deram abrigo, os conventos onde se Ocultaram, os brinquedos, os singelos risos da infância, é tudo sombra. Tinha chegado a imaginar que tudo isto me pertencia: esta é que foi a minha loucura. Aqueles Thenardier foram muito maus; é preciso perdoar-lhes. Cose e, chegou o momento de te dizer o nome de tua mãe. Chamava-se Fan ne. Ajoelha sempre que o pronunciares. Sofreu muito e queria-te ainda mais. Teve de infelicidade tanto quanto tu tens do de ventura.