Os Miseráveis
IV — As efervescências de outrora
No meio da mul dão que rodeava e aclamava Lafaye e, notava-se, e era por muitos apontado, um alemão, chamado Ludwig Snyder, que veio a morrer de avançada idade, depois de ter feito a guerra de 1776 e comba do em Trenton às ordens de Washington e em Brandywne, sob o comando de Lafayette.
Ao mesmo tempo, a cavalaria municipal, que se achava na margem esquerda, principiava a agitar-se com o intuito de tomar a passagem da ponte, e na margem direita os dragões desfilavam dos Celes nos e estendiam-se ao longo do cais de Morland.
Apenas o povo, que trazia no meio de si Lafaye e, os avistou, principiou a gritar: «Aí vêm os dragões! Aí vêm os dragões! Aí vêm os dragões!» Estes avançavam, a passo, em silêncio, com as pistolas nos coldres, os sabres embainhados, as clavinas nos arções, com gesto de sombria expectativa
A duzentos passos da ponte do canal, fizeram alto. A sege que conduzia Lafaye e encaminhou-se para o lado onde eles estavam, os dragões abriram filas, deixaram-na passar e tornaram-se a unir, apenas o veículo passou. Nessa ocasião, dragões e povo estavam tão próximos, que se tocavam uns aos outros. As mulheres deitavam a fugir, aterradas.
Que foi o que se passou naquele fatal instante? Ninguém o saberá dizer. É o momento tenebroso da junção de duas nuvens. Contam uns que para o lado do Arsenal se ouvira um clarim tocando a carregar, outros que um rapaz dera uma punhalada num soldado de dragões. O certo é que se dispararam subitamente três ros, um dos quais matou o chefe de esquadrão Cholet, outro uma velha mouca da rua de Contrescarpe, na ocasião em que fechava a sua janela, e outro queimou uma dragona a um oficial.
Apenas uma mulher gritou:
— Começaram cedo de mais! — viu-se vir imediatamente do lado oposto ao cais de Morland um esquadrão de dragões, que nha ficado em quartéis, a galope e de sabre em punho, pela rua de Bassonpierre e boulevard Bourdon, trazendo tudo diante de si.
Então foi o desencadear-se a tempestade. Chovem as pedradas, rebenta a fuzilaria; muitos a ram-se da ribanceira abaixo e passam o pequeno braço do Sena, hoje entulhado; eriçam-se de combatentes os armazéns da ilha Louviers, espécie de cidadela preparada para aquele fim; arrancam-se estacas, disparam-se pistolas, principia-se uma barricada; os rapazes que puxavam o coche funerário, apertados pela mul dão, arrastam-no com presteza pela ponte de Austerlitz, carregando a guarda municipal; acodem os carabineiros, os dragões acu lam, a mul dão dispersa-se em todas as direcções; ressoa um sussurro de guerra pelas ruas de Paris, grita-se:
— Às armas!
Os amo nados correm, atropelam-se, fogem, resistem; enfim, a cólera ateia a revolta do mesmo modo que o vento ateia o fogo.
IV — As efervescências de outrora
Não há nada mais extraordinário do que a primeira confusão de uma revolta. Rebenta tudo simultaneamente em toda a parte. Era uma coisa prevista? Era. Estava preparada?
Não. De onde sai semelhante coisa? Das ruas. De onde cai? Das nuvens. Aqui, a insurreição toma o carácter de uma conspiração; além, o de uma improvisação. O
primeiro que aparece apodera-se de uma corrente da mul dão e leva-a para onde lhe apraz.
Começo medonho, entremeado de certa alegria terrível. Aos clamores, pelos quais principia a revolta, fecham-se as lojas, desaparecem os mostradores; em seguida começam por ouvir-se ros isolados; cada qual foge para o seu lado; ouvem-se bater coronhadas de armas pelas portas e no interior das casas os risos das criadas, dizendo:
— Temos desordem no caso, estamos bem aviadas!
Daí a menos de um quarto de hora, eis o que se passava em Paris, em vinte pontos diferentes ao mesmo tempo:
Na rua de Santa Cruz da Bretonnerie, uns vinte rapazes de barbas e cabelos compridos entravam por uma casa de pasto dentro e um momento depois tornavam a sair, trazendo arvorada uma bandeira tricolor horizontal coberta de fumo, precedidos por três homens, um armado com um sabre, outro com uma espingarda e o terceiro com um chuço.
Na rua das Nonaindières, via-se um burguês obeso, bem trajado, de voz sonora, calvo, fronte espaçosa, barba preta, bigode cerdoso, oferecendo publicamente cartuchos a quem passava.
Na rua de S. Pedro de Montmartre, viam-se uns poucos de homens, de mangas arregaçadas, agitando uma bandeira preta em que se liam estas palavras: «República ou morte».
Na rua dos Jeúneurs, do Quadrante, de Montorgueuil, de Mandar, viam-se agitando bandeiras, nas quais se lia, em letras douradas, a palavra «secção», seguida de um número. Uma dessas bandeiras era vermelha e azul com uma impercep vel risca branca no meio
No boulevard de S. Mar nho, assaltava-se uma fábrica de armas e três oficinas de armeiros, a primeira na rua de Beaubourg, a segunda na rua de Miguel-le-Comte, a terceira na rua do Templo. Dentro em poucos minutos, as mil mãos da mul dão travavam de duzentas e trinta espingardas, quase todas de dois canos, de sessenta e quatro sabres e de oitenta e três pistolas. Para que ficasse maior número de pessoas armado, uns guardavam as espingardas e outros ficavam com as baionetas.
Defronte do cais da Greve, via-se uma mul dão de rapazes, armados de mosquetes, instalando-se em casa de umas mulheres para daí fazerem fogo. Um deles trazia um mosquete de rodas. Ba am, entravam e punham-se a fazer cartuchos. Uma dessas mulheres disse depois:
— Eu nem sabia o que eram cartuchos Meu marido foi que mo disse.
Na rua das Vieilles-Haudrieítes, um grupo arrombava a porta de uma loja de curiosidades, e apossava-se dos yatagans e armas turcas com que nela deparara.
Na rua da Pérola, jazia o cadáver de um pedreiro, morto com um tiro de espingarda.
Além disto, na margem direita, na esquerda, no cais, nos boulevards, no Bairro La no, nos Mercados, viam-se homens arquejando, operários, estudantes, seccionários, lendo proclamações e gritando às armas, quebrando os lampiões, rando os cavalos às carruagens, descalçando as ruas, arrombando as portas das casas, arrancando as árvores, dando buscas no interior das habitações, rolando pipas, amontoando pedras, tábuas, cadeiras, mesas, trancas, construindo barricadas.
Se algum burguês passava, obrigavam-no a ajudá-los. Entravam pelas casas dentro, forçavam as mulheres a apresentar-lhes os sabres de seus maridos ausentes e saíam, deixando na parede escrito a giz:
«Ficam entregues as armas».
Alguns assinavam «com os seus nomes», recibos de espingardas e sabres, e diziam:
— Mande buscá-las amanhã a casa do maire.
Pelas ruas desarmavam as sen nelas isoladas e os guardas nacionais que encontravam em caminho para a sua municipalidade. Aos oficiais arrancavam-lhes as dragonas.
Na rua do cemitério de S. Nicolau, um da guarda nacional viu-se tão perseguido por uma turba armada de paus e floretes, que teve de se refugiar numa casa, o que a muito custo conseguiu, da qual só à noite pôde sair, e disfarçado.
Na rua de S. Jacques, viam-se enxames de estudantes saindo em tropel de suas casas, encaminhando-se pela rua de S. Jacinto para o café do Progresso ou para o dos Sete Bilhares, na rua dos Mathurins. Nesses sí os, viam-se alguns rapazes distribuindo armas de cima dos piões Na rua de Transnonain, alguns insurgentes roubavam um armazém de madeiras para as barricadas. Num único sí o faziam resistência os habitantes; era às esquinas das ruas de Saint-Avroye e de Simon-le-Franc, onde eles próprios destruíam a barricada Num único ponto sucumbiam os insurgentes: era na rua do Templo, onde eles abandonavam uma barricada, depois de haver feito fogo sobre um destacamento da guarda nacional, e fugiam pela rua da Cordoaria. Nessa barricada o destacamento encontrou uma bandeira vermelha, um maço de cartuchos e trezentas balas de pistola.
Os guardas nacionais rasgaram a bandeira e levaram os bocados espetados nas pontas das baionetas
Tudo isto, que nós aqui relatamos lenta e sucessivamente, nha lugar, ao mesmo tempo, em todos os pontos da cidade, no meio de um tumulto imenso, à semelhança de um sem número de relâmpagos acompanhados de um só trovão
Em menos de uma hora, só no bairro dos Mercados levantaram-se do chão vinte e sete barricadas. No centro ficava a célebre casa número 50, que foi a fortaleza de Joana e de seus cento e seis companheiros, e que, flanqueada de uma parte por uma barricada, em Saint-Merry, e da outra por uma barricada, na sua Maubuée, dominava três ruas, a dos Areis, a de S. Martinho e a de Aubry-leBoucher, com a qual defrontava.
Na rua de Montorgueuil e na de Geoffroy-Langevin, Viam-se mais duas barricadas; a primeira prolongava-se em ângulo recto para a Grande Trouandetrie, a segunda para a rua de Saint-Avoy. Sem contar inumeráveis barricadas em mais vinte lugares de Paris, no Marais, na montanha de Santa Genoveva; uma na rua de Menilinontant, onde se via um portão arrancado dos gonzos; outra junto à ponte do Hotel-Dieu, formada de uma carruagem deitada por terra, a trezentos passos da prefeitura de polícia.
Na barricada da rua dos Menestréis, andava um homem bem trajado distribuindo dinheiro aos trabalhadores. Na barricada da rua Grenéta, apareceu um cavaleiro e entregou ao que inculcava ser o chefe da barricada um embrulho, que parecia de dinheiro.
— Aqui tem —, disse ele —, para pagar as despesas, o vinho, etc..
Aqui, via-se um rapaz, de cabelos louros, correndo de barricada em barricada, a levar palavras de ordem. Mais além, via-se outro de sabre desembainhado e com um boné azul de polícia na cabeça distribuindo sen nelas. No interior, isto é, para cá das barricadas, as casas de pasto e os quartos dos porteiros eram transformados em postos
de guarda Em suma, a revolta procedia com a mais sábia tác ca militar. As ruas, estreitas, sinuosas, desiguais, cheias de ângulos e de voltas, não podiam ser melhor escolhidas, principalmente as das imediações dos Mercados, rede de ruas mais emaranhada que uma floresta. Dizia-se que a Sociedade dos Amigos do Povo fora a que tomara a seu cargo dirigir a insurreição no bairro de Saint-Avoy. Na rua do Ponceau, encontrou-se um homem morto. Revistaram-no e acharam-lhe uma planta de Paris.
O que, realmente, nha tomado a direcção da revolta era uma como impetuosidade inaudita que andava na atmosfera. A insurreição, num instante, levantara com uma das mãos as barricadas, enquanto com a outra nha sufocado quase todos os postos da guarda. Semelhantes a um ras lho de pólvora, os insurgentes, em menos de três horas, nham invadido e ocupado, na margem direita, o Arsenal, a mairie da Praça Real, a fábrica das armas Popincourt, a Galiote, o Château d’Eau, todas as ruas das imediações dos Mercados; na margem esquerda, o quartel dos Veteranos, Santa Pelagia, a praça Maubert, o paiol dos Dois Moinhos e todas as barreiras. Às cinco horas da tarde, estavam senhores da Bas lha, da Lingerie e de Blancs-Manteaux: os seus postos avançados chegavam quase até à praça das Vitórias, ameaçando o Banco, o quartel dos Petits-Pères e a casa do Correio. A terça parte de Paris pertencia à revolta.
Em todos os pontos a luta travava-se gigantescamente: dos desarmamentos, das visitas domiciliárias, das rápidas invasões das oficinas dos armeiros resultava que o combate, principiando às pedradas, continuava a tiros de espingarda.
Por volta das seis horas da tarde, a passagem do Salmão tornava-se um campo de batalha. Numa extremidade achavam-se os revoltosos, na outra a tropa, disparando ros de um lado para o outro. Um observador, um sonhador, o autor deste livro, foi ver o vulcão de perto e achou-se me do entre os dois fogos, sem ter outra coisa que o escudasse das balas além das saliências das meias colunas que separam as lojas, conservando-se nesta arriscada situação perto de meia hora.
Ao mesmo tempo, soava o toque a reunir, ves am-se e armavam-se à pressa os guardas nacionais, saíam das mairies as legiões, dos quartéis os regimentos. Defronte da passagem da Ancora era apunhalado um tambor. Outro, na rua do Cisne, era assaltado por uns trinta rapazes que lhe esmigalharam o tambor, rando-lhe o sabre. Na rua do Celeiro de S. Lázaro, era assassinado outro. Na rua de Miguel-le-Comte, caíram mortos três oficiais, uns após os outros. Muitos guardas nacionais chegavam à rua dos Lombardos e voltavam para trás feridos.
Em frente de Cour-Batave, um destacamento de guardas nacionais encontrava uma bandeira vermelha com esta inscrição: «Revolução republicana número 127».