Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 169 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Mármore contra granito

— Não tem que ver! — disse consigo Teodulo. — As entrevistas amorosas tempe-

radas com um tanto ou quanto de missa são as melhores. Não há nada mais mimoso do que uma olhadela que passa por cima de Deus.

Chegando à igreja, Mário não entrou e, contornando-a, desapareceu pela parte de trás.

— O ponto de reunião é fora da igreja — pensou Teodulo. — Vejamos a pequena.

E avançou nos bicos dos pés para o ângulo por onde Mário tinha voltado.

Apenas, porém, a dobrou, parou estupefacto.

Mário, com a fronte oculta entre ambas as mãos, estava ajoelhado na erva, sobre uma sepultura, onde nha desfolhado o seu ramalhete. Na extremidade da sepultura, numa elevação que determinava o lugar da cabeça, havia uma cruz de madeira preta com este nome em letras brancas: CORONEL BARÃO DE PONTMERCY. Mário soluçava.

A sua amante era uma sepultura.

VIII — Mármore contra granito

Fora junto daquele túmulo que Mário viera da primeira vez que se ausentara de Paris.

Era ali que ele ia todas as vezes que Gillenormand dizia:

— Fica fora de casa.

O tenente Teodulo ficou absolutamente confundido com aquela aparição inesperada de um sepulcro; experimentou uma sensação desagradável e singular, que era incapaz de analisar e que se compunha do respeito a um túmulo de envolta com respeito a um coronel. Recuou, deixando Mário só no cemitério; mas neste movimento entrou a disciplina. A morte apresentou-se-lhe com dragonas superiores, de sorte que quase lhe fez o cumprimento militar.

Não sabendo o que escreveria a sua a, adoptou a resolução de lhe não escrever; e não teria provavelmente resultado coisa alguma da descoberta feita por Teodulo sobre os amores de Mário, se, por uma das misteriosas e frequentes combinações do acaso, a cena de Vernon não tivesse quase imediatamente em Paris uma espécie de repercussão.

Mário voltou de Vernon no terceiro dia, dirigiu-se para casa de seu avô e, fa gado por duas noites passadas na diligência, sen ndo a necessidade de reparar a insónia com uma hora de escola de natação, subiu rapidamente ao seu quarto, não se demorou senão o tempo de despir o casaco de jornada e de rar o cordão preto que trazia ao pescoço, saindo logo para o banho.

Gillenormand, erguido desde muito cedo como todos os velhos que gozam de saúde, sen ra-o entrar e apressara-se em subir, o mais velozmente que lhe permi am as suas velhas pernas, a escada do último andar, onde era o quarto de Mário, a fim de o abraçar, de lhe fazer algumas perguntas enquanto o abraçava, e de ver se descobria, pouco mais ou menos, de onde ele vinha.

Porém, o mancebo gastara menos tempo em descer do que o octogenário em subir; de maneira que quando Gillenormand entrou no seu quarto, já ele ali não estava.

A cama estava intacta e sobre ela, sem a mínima precaução, o casaco de jornada e o cordão preto.

— Antes assim — disse Gillenormand.

E um momento depois entrava na sala onde estava sentada sua filha mais velha, trabalhando no seu bordado do tempo da restauração.

A entrada foi triunfal.

Gillenormand que levava numa das mãos o casaco de Mário e na outra o cordão, gritava:

— Vitória! Vamos penetrar o mistério! Vamos saber o fim do fim; vamos tomar conhecimento das liber nagens do nosso sonso. Estamos senhor da novela. Tenho em meu poder o retrato.

Com efeito, do cordão estava suspensa uma espécie de boceta escura, muito semelhante a uma medalha.

O velho pegou na boceta e contemplou-a por algum tempo antes de a abrir, com o ar de voluptuosidade, de contentamento e de cólera de um pobre esfaimado, vendo passar próximo do nariz um excelente jantar que não fosse para ele.

— É evidentemente um retrato. Disto entendo eu. São coisas que se trazem ternamente sobre o coração. Estúpidos! É alguma abominável labrega, capaz de meter medo! Os rapazes de hoje têm o gosto depravado!

— Vejamos, meu pai — disse a filha.

A boceta abria-se por meio de uma mola. Abriram-na e só encontraram um papelinho cuidadosamente dobrado.

— Da mesma ao mesmo — disse Gillenormand, rindo. — Já sei o que isto é. Uma carta de namoro.

— Ah! Vamos a ouvir! — disse a tia de Mário.

E pôs os óculos. Desdobraram o papel e leram ambos:

Para meu filho.

O imperador fez-me barão no campo de batalha de Waterloo. Visto que a restauração me contesta este tulo, que eu paguei com o meu sangue, recomendo a meu filho que o tome e use como seu. Escuso de dizer que será digno dele.

O que pai e filha experimentaram não se pode exprimir. Sen ram-se gelados como pelo hálito de uma caveira, sem ousar trocar uma palavra. Apenas Gillenormand disse em voz baixa e como falando consigo mesmo:

— A letra é do traga-mouros!

A filha examinou o papel, virou-o em todos os sen dos e depois tornou a pô-lo na caixinha.

Neste instante caiu de um bolso do casaco um massozinho quadrilongo, embrulhado em papel azul, que a filha de Gillenormand apanhou e desembrulhou. Eram os cem bilhetes de visita que Mário encomendara ao gravador. Passou um a Gillenormand, que leu: «Mário, barão de Pontmercy».

O velho chamou por Nicole e e disse-lhe, a rando a caixinha, o casaco e a fita para o meio do chão:

— Leve daqui estes trapos!

Passou-se uma boa hora no mais profundo silêncio, durante o qual es veram ambos sentados com as costas um para o outro, mas pensando provavelmente nas mesmas coisas. Decorrida uma hora, a filha de Gillenormand disse:

— Bonito!

Daí a alguns instantes, Mário entrou. Antes mesmo de ter transposto o limiar da porta da sala, avistou o avô com um dos seus bilhetes de visita numa das mãos, o qual, ao vê-lo, exclamou com o seu ar de superioridade burguesa e escarnecedora, que parecia esmagar:

— Ora esta! Ora esta! Com que então agora és barão?! Muitos parabéns! Que quer isto dizer?

Mário corou levemente e disse:

— Quer dizer que sou o filho de meu pai.

Gillenormand interrompeu o seu riso e disse com dureza:

— Teu pai sou eu!

— Meu pai replicou Mário com os olhos pregados no chão e ar de severidade era um homem humilde mas heróico, que serviu com glória a república e a França, que foi grande entre os maiores de que fala a história, que viveu um quarto de século nos acampamentos, de dia com o peito exposto à metralha e às balas, de noite debaixo de neve, de lama, de chuva, que tomou duas bandeiras, que foi ferido vinte vezes, que morreu no olvido e no abandono, e que só teve um defeito, amar de mais dois ingratos a pátria e a mim!

Era mais do que Gillenormand podia ouvir. Aquela palavra república levantara-se, ou, para melhor dizer, dera um pulo. Cada uma das palavras que Mário acabava de pronunciar nha produzido no rosto do velho realista o efeito do sopro de um fole sobre um ção ardente. De pardo tornara-se vermelho, de vermelho purpurino e de purpurino cor de fogo.

— Mário! — exclamou ele. — Rapaz odiento! Eu não sei o que era teu pai, nem o quero saber, disso não, sei; mas o que sei é que todos esses de que tu falas não passaram de meia dúzia de miseráveis! Era tudo uma súcia de tratantes, de assassinos, de republicanos, de ladrões! E digo tudo, tudo, sem exceptuar um só, um único, ouves, Mário? Tu és tanto barão como este meu chinelo! Tudo uma corja de bandidos que obedeceram a Robespierre e es veram ao serviço de Bonaparte! Tudo traidores, que traíram, traíram e tornaram a trair o seu rei legí mo! Tudo uma súcia de cobardes, que fugiram aos prussianos e aos ingleses em Waterloo! Aí está o que eu sei! Se teu pai era desses, ignoro-o, mas tenho pena e sou um seu criado!

Por sua vez, era Mário o ção e Gillenormand o fole. Mário sen a percorrer-lhe em todos os membros um tremor involuntário; não sabia o que havia de fazer, ardia-lhe a cabeça. Parecia o sacerdote a quem a ram ao vento todas as suas hós as, o faquir que vê o seu ídolo cuspido por um homem que passa. Era impossível que diante dele se dissessem impunemente semelhantes coisas. Mas que fazer? Seu pai acabava de ser calcado aos pés e pisado na sua presença, por quem?, por seu avô. Como vingar um, sem ultrajar o outro?

Era impossível que ele insultasse seu avô e igualmente impossível que ele não desafrontasse seu pai. De uma parte um túmulo sagrado, da outra um homem de cabelos brancos. O mancebo ficou alguns instantes ébrio e vacilante, com todo este turbilhão na cabeça, depois ergueu-a e exclamou com voz atroadora, olhando fixamente

para seu avô:

— Abaixo os Bourbons e esse infame porco de Luís XVIII!

Luís XVIII tinha morrido há quatro anos, mas o mancebo não se importava com isso.

O velho, de escarlate que estava, tornou-se subitamente mais branco que os seus cabelos. Voltou-se para um busto do duque de Berry, que estava sobre a pedra do fogão, e saudou-o profundamente com uma espécie de majestade singular. Depois foi duas vezes, lentamente e em silêncio, do fogão para a janela e da janela para o fogão, atravessando a sala e fazendo estalar o soalho, como uma figura de pedra a andar. Da segunda vez curvou-se para sua filha, que assis a a este choque com o pasmo estúpido de uma ovelha, e disse-lhe com um sorriso quase sereno:

— Um barão como aquele senhor e um burguês como eu não podem habitar debaixo das mesmas telhas!

E, endireitando-se de repente, lívido, trémulo, terrível, com a fronte iluminada do assustador clarão da cólera, estendeu os braços para Mário e gritou-lhe:

— Saia!

Mário, efectivamente, saiu da casa de seu avô.

No dia seguinte, Gillenormand disse a sua filha:

— Mande sessenta pistolas de seis em seis meses a esse bebedor de sangue e não me torne mais a falar dele!

E como nha um imenso resto de furor a desafogar e não sabia que fazer dele, continuou a tratar sua filha por senhora durante mais de três meses.

Mário, pela sua parte, nha saído indignado, tendo-se dado uma circunstância que agravava a sua exasperação. Há sempre dessas pequenas fatalidades que complicam os dramas domés cos. Os ressen mentos aumentam, posto que na essência não cresçam as ofensas. Nicole e, ao levar precipitadamente por ordem do avô «os trapos» de Mário para o quarto dele, deixara cair, sem dar fé, provavelmente nas escadas das águas-furtadas, que eram escuras, o medalhão de pele de lixa preta que guardava o papel escrito pelo coronel. Mário, que não pôde tornar a dar nem com o medalhão nem com o papel, ficou convencido que «o senhor Gillenormand», como ele desde então o começou a tratar, queimara «o testamento de seu pai».

O mancebo sabia de cor as poucas linhas escritas pelo coronel, e, por consequência, ainda se não perdera tudo. Mas o papel, a escrita, essa relíquia sagrada, tudo isso era o seu próprio coração. Que lhe haviam feito dele?