Os Miseráveis
XVIII — O abutre convertido em presa
O reduto da rua da Chanvrerie, repe mos, parecia interiormente pacífico. Todas as peripécias e fases nham sido ou iam ser terminadas. A posição dos insurgentes de crí ca tornara-se temerosa e de temerosa ia, provavelmente, tornar-se desesperada. À
medida que a situação se anoveava, um clarão heróico cada vez mais purpureava a barricada. Enjolras dominava agravemente, na a tude de um jovem esparciata dedicando a espada desembainhada ao sombrio génio Epídotos.
Combeferre ocupava-se no cura vo dos feridos, de avental atado à cintura; Bossuet e Feuilly faziam cartuchos com pólvora do polvorinho achado por: Gavroche no cadáver do cabo da guarda nacional e Bossuet dizia para Feuilly:
— Estamos por instantes a fazer-nos de vela para outro planeta!
Courfeyrac colocava e acomodava em cima do monte de pedras que reservara para si, ao lado de Enjolras, a sua bengala de estoque, a espingarda, duas pistolas de arção e outra de algibeira, com o esmero de uma jovem que põe em ordem um aparador. Jean Valjean contemplava silencioso a parede que lhe ficava fronteira. Um operário atava à cabeça com um barbante um grande chapéu de palha da a Hucheloup «para se preservar do ardor do sol», dizia ele. Os jovens da Cougourde de Aix conversavam alegremente uns com os outros, como se quisessem aproveitar a úl ma ocasião, de se falarem na sua algaravia natal.
Joly examinava a língua num espelho da viúva Hucheloup, que rara do prego em que se achava pendurado.
Alguns combatentes, tendo deparado com algumas côdeas de pão, já bolorentas, dentro de uma gaveta, comiam-nas avidamente. Mário andava desassossegado com a ideia do que seu pai lhe ia dizer.
XVIII — O abutre convertido em presa Insis mos sobre um facto, psicológico par cular às barricadas. Nada do que caracteriza esta maravilhosa guerra das ruas deve ser omitido.
Por maior que seja a singular tranquilidade interior de que acabamos de falar, a barricada, para os que dentro dela se acham, nem por isso deixa de ser uma visão.
A guerra civil tem o que quer que seja de apocalíp co; é um conjunto de clarões terríveis acompanhados de toda a espécie de névoas do incógnito. As revoluções são esfinges, e quem se vê no meio de uma barricada julga-se ludibrio de um sonho.
O que em tais lugares se sente já o deixámos dito a propósito de Mário., porém agora vamos a ver as suas consequências, que são mais e menos do que a vida. Quem uma vez sai de uma barricada não se recorda já do que nela viu. Levamos o nosso denodo ao extremo do furor e ignoramo-lo. Vimo-nos rodeados de ideias combatendo sob formas humanas; vimo-nos inundados da luz do futuro; vimos cadáveres estendidos no chão e fantasmas de pé. As horas eram colossais e pareciam as da eternidade. Vivemos na morte. Vimos deslizar sombras. Que seria? Vimos mãos manchadas de sangue; sen amos um ensurdecimento terrível, reinava também um silêncio medonho; havia bocas abertas que gritavam, e outras também abertas, que se conservavam silenciosas; era tudo fumo e talvez trevas. Julgamos ter tocado a transudação sinistra das profundezas desconhecidas; olhamos e vemos um não sei quê vermelho nas unhas. De mais nada nos recordamos.
Voltemos à rua da Chanvrerie.
Num intervalo entre duas descargas, ouviu-se, de repente, ao longe, um sino dando
horas.
— É meio-dia — disse Combeferre.
Ainda bem não nham soado as doze badaladas, Enjolras alçou-se em pé e bradou do alto da barricada em voz clamorosa:
— Levem pedras para casa. Guarneçam o parapeito da janela e as águas-furtadas.
Metade dos homens às espingardas, a outra metade às pedras. Não há um minuto a perder.
Na extremidade da rua acabava de aparecer em ordem de batalha um pelotão de sapadores bombeiros, de machados ao ombro.
Não podia ser senão uma testa de coluna. Evidentemente da coluna de ataque, por isso que os sapadores bombeiros encarregados de demolir a barricada, deviam preceder os soldados encarregados de a escalar. Chegava-se evidentemente ao momento a que o senhor de Clermont-Tonerre em 1822, chamava decisivo.
A ordem de Enjolras foi executada com a correcta presteza própria dos navios e das barricadas, únicos lugares de combate de onde é impossível a evasão.
Em menos de um minuto os dois terços de pedras que Enjolras fizera amontoar à porta de Corinto foram levadas para o primeiro andar e para o sótão, e antes que houvesse passado um segundo minuto estavam todas aquelas pedras colocadas ar s camente umas sobre as outras, murando a janela do primeiro andar e das águas-furtadas até meia altura, Alguns intervalos cuidadosamente conservados por Feuilly, principal construtor, podiam deixar passar os canos das espingardas. Este armamento das janelas pôde fazer-se com tanta facilidade, porque cessara a metralha. As duas peças nham passado a a rar à bala, ao centro da barricada, a fim de lhe fazer uma aberta, e, se fosse possível, uma brecha para o assalto.
Depois de colocadas convenientemente as pedras des nadas a sustentar a defesa suprema, mandou Enjolras levar para o primeiro andar da taberna as garrafas que pusera sobre a mesa em que estava deitado o senhor Mabeuf.
— Quem beberá isto? — perguntou-lhe Bossuet.
— Eles — respondeu Enjolras.
Em seguida for ficaram a janela da loja e puseram ao alcance da mão as barras de ferro, que serviam para de noite trancar interiormente a porta da taberna, A fortaleza estava completa. A barricada era a trincheira, a taberna o reduto.
Com as pedras que restavam, taparam a abertura que servia de porta à barricada.
Como os defensores de uma barricada são sempre obrigados a poupar as munições, e como os assaltantes o sabem, executam estes todos os seus preparos com uma espécie de irritante sossego, expondo-se antes de tempo ao fogo, mais na aparência do que na realidade, e adaptando-se todas as comodidades. Os aprestes do ataque fazem-se sempre com certo vagar metódico; depois do que cai o raio.
Este vagar permi u que Enjolras revisse e aperfeiçoasse tudo,. Tinha a convicção de que tais homens deviam morrer, portanto queria que a sua morte fosse uma obra-prima.
— Nós somos os dois chefes — disse ele a Mário. — Eu vou dar as úl mas ordens no interior, tu conserva-te fora e observa.
Mário colocou-se em observação no alto da barricada. Enjolras mandou pregar a porta da cozinha, que, como devem lembrar-se, era o hospital.
— Nada de salpicar os feridos — disse ele.
Em seguida deu as úl mas ordens na loja da taberna, com voz breve, mas profundamente tranquila; Feuilly escutava e respondia em nome de todos.
— No primeiro andar tenham os machados prontos para cortar a escada; têm-nos?
— Temos — disse Feuilly.
— Quantos?
— Dois machados e um malho.
— Bem. Nós somos ainda vinte e seis combatentes.
— Quantas espingardas temos?
— Trinta e quatro.
— Oito de mais. Tenham essas espingardas carregadas com as outras e ao alcance da mão. A cintura os sabres e as pistolas. Na barricada vinte homens; os seis restantes emboscados nas águas-furtadas e na janela do primeiro andar, para fazerem fogo sobre os assaltantes através das seteiras que se deixaram entre as pedras. É necessário que não haja aqui um único trabalhador inú l. Daqui a pouco, apenas o tambor tocar à carga, precipitem-se os vinte de baixo sobre a barricada. Os que chegarem ali primeiro são os que ficarão mais bem colocados.
Adoptadas estas disposições, voltou-se para Javert e disse-lhe:
— Não me esqueço de ti.
E, pondo sobre a mesa uma pistola, acrescentou:
— O último que sair dará um tiro neste homem.
— Aqui? — perguntou uma voz.
— Não, não misturemos este cadáver com os nossos.
A barricada pequena da rua Mondétour pode saltar-se, tem apenas quatro pés de altura. O homem está bem amarrado, levem-no para lá e executem-no então, Havia ali alguém, que naquele momento estava mais impassível do que Enjolras; era Javert.