Os Miseráveis
II — O gaiato inimigo das luzes
Assim, quando viu que tudo decididamente acabara, que ela lhe escapava, que lhe escorregava das mãos, que se ocultava, que era um fluído; quando viu diante de si esta evidência esmagadora: — um outro é o alvo do seu coração, um outro cons tui a aspiração da sua vida; há um querido, eu sou apenas o pai, já não existo.
Quando não pôde duvidar, quando disse consigo «Vai deixar-me», a dor que experimentou ultrapassou os limites do possível. Ter feito tudo o que nha feito para chegar a semelhante resultado, e, no fim de tudo não ser nada! Então, como há pouco dissemos, houve nele um estremecimento de revolta. Sen u até à raiz dos cabelos o imenso despertar do egoísmo; o eu uivou no abismo daquele homem.
Há desmoronamentos interiores. A penetração de uma convicção desesperada no homem, não se opera sem que se afastem e rompam certos elementos profundos, que são por vezes, o próprio homem. A dor quando a nge este grau, é um salve-se quem puder de todas as forças da consciência. São estas crises fatais Poucos de entre nós saem delas semelhantes a si mesmos e firmes no dever. Quando o limite do sofrimento se tem ultrapassado abala-se até a virtude mais imperturbável. Jean Valjean levantou do chão o mata-borrão convenceu-se novamente e ficou curvado e como que petrificado, olhando para as irrecusáveis linhas, com olhar fito; e formou-se nele uma tal nuvem, que poderia julgar-se ter-lhe desabado todo o íntimo da alma.
Examinou a revelação através do engrossamento do sonho, com uma tranquilidade aparente e medonha; pois que é uma coisa medonha e temível a tranquilidade do homem, quando chega à frieza da estátua.
Mediu o passo espantoso que o seu des no nha dado, sem que ele o suspeitasse, recordou-se dos receios do Verão anterior, tão loucamente dissipados; reconheceu o precipício, era sempre o mesmo; a diferença consis a em já não estar, ele, Jean Valjean, à beira, mas sim no fundo.
Inaudita e pungente circunstância: caíra nele sem que o percebesse. Toda a luz da sua vida para ali tinha ido e ele acreditando ver sempre o Sol!
O seu ins nto não hesitou. Aproximou certas circunstâncias, certas datas, o rubor e a palidez de Cose e em dadas ocasiões, e disse consigo: «É ele». O dom de adivinhar do desespero, é uma espécie de arco misterioso que não erra nunca o ro. Logo à primeira conjuntura alcançara Mário. Não sabia o nome, mas achou rapidamente o homem.
Avistou dis ntamente, no fundo da implacável evocação das recordações, o desconhecido passeante do Luxemburgo, aquele miserável namorador, aquele bargante de romances, aquele imbecil e cobarde; porque é uma cobardia mostrar olhos ternos às raparigas que estão ao lado dos seus pais, que as amam.
Depois de bem convencido de que nha achado o herói, ele, Jean Valjean, o homem regenerado, que tanto tinha trabalhado para a sua alma, o homem que empregara todos os esforços para resolver a vida toda, toda a miséria e toda a desventura em amor, olhou para dentro de si mesmo e viu um espectro, o ódio. As grandes dores contêm prostrações. Tiram o ânimo. O homem em que elas entram sente sair de dentro de si o que quer que é. Uma tal visita na mocidade é lúgubre; mais tarde, é sinistra.
Ah! Quando o sangue ferve, quando os cabelos são pretos, quando a cabeça se ostenta firme sobre o corpo como a chama sobre o facho, quando o rolo do des no apresenta quase toda a sua espessura, quando o coração, cheio de um amor cobiçável, tem ainda palpitações que podem ser correspondidas, quando temos diante de nós o tempo de reparar tudo, todas as mulheres, todos os sorrisos, todo o futuro e todo o horizonte, quando a força da vida está completa, se então é uma coisa medonha a desesperança, o que não é ela na velhice quando os anos se precipitam cada vez mais polidos, na hora crepuscular em que se começa a ver as estrelas do interior do túmulo!
Enquanto Jean Valjean assim pensava, entrou Toussaint.
Jean Valjean levantou-se e perguntou:
— De que lado é, sabe?
Toussaint, estupefacta, só pôde responder-lhe:
— Ora esta!
— Não me disse há pouco que havia combate? tornou
Jean Valjean.
— Há, sim, senhor — respondeu Toussaint — lá para os lados de Saint-Merry.
Há certos movimentos maquinais que provêm, sem que demos por isso, do nosso pensamento mais profundo. Foi decerto, por um impulso deste género e de que apenas tinha a consciência, que Jean Valjean se achou na rua ao cabo de cinco minutos.
Estava com a cabeça descoberta, sentado no degrau da porta, parecendo escutar.
Tinha já anoitecido.
II — O gaiato inimigo das luzes
Quanto tempo esteve Jean Valjean naquela posição? Quais foram os fluxos e refluxos da sua trágica meditação? Ergueu-se? Permaneceu curvado? Ter-se-ia curvado até quebrar? Poder-se-ia ainda endireitar e tomar pé nalgum ponto sólido da sua consciência? Provavelmente nem ele próprio poderia dizê-lo.
A rua estava deserta. Alguns burgueses que se recolhiam rapidamente para suas casas mal deram por ele. Nos tempos de perigo cada um vela por si... O limpa-candeeiros foi, como era costume, acender o lampião; situado precisamente defronte da porta número 7 e seguiu o seu des no. Jean Valjean, se alguém, naquela ocasião, o observasse, não parecia um homem vivo. Estava sentado no degrau da porta, imóvel como uma larva de gelo. O desespero contém certa congelação. Ao longe ouvia-se o toque de rebate e vagos rumores tumultuosos.
No meio de todas aquelas convulsões do sino casadas com a revolta, deu o relógio de S. Paulo onze horas, gravemente e sem se apressar; porque o toque de rebate é o homem; a hora é Deus. O passar da hora não produziu efeito algum em Jean Valjean, que não se moveu. Contudo, quase ao mesmo tempo, ressoou no espaço uma inesperada detonação do lado dos Mercados, que foi logo seguida por segunda, mais violenta ainda; fora, provavelmente, o ataque da barricada da rua da Chanvrerie, que há pouco vimos repelido por Mário. Jean Valjean ouvindo aquela dupla descarga, cuja fúria parecia aumentar com o pasmo produzido pela noite, estremeceu; ergueu-se, voltando-se para o lado donde viera O ruído; depois tornou a deixar-se cair sobre o poial, cruzou os braços e a cabeça tornou vagarosamente a pender-lhe para o peito.
E continuou o tenebroso diálogo consigo mesmo.
De repente ergueu os olhos; vinha alguém pela rua; ouviu passos perto de si, olhou, e à luz do lampião, do lado da rua que conduz aos Arquivos, viu um rosto lívido, jovem e alegre.
Gavroche acabava de chegar à rua do Homem Armado.
Gavroche olhava para cima e parecia procurar alguma coisa. Via perfeitamente Jean’
Valjean, mas não o dava a conhecer.
O gaiato, depois de ter olhado para cima, olhou para baixo; punha-se nos bicos dos pés e apalpava as portas e as janelas das lojas, que estavam todas fechadas e aferrolhadas. Depois de ter examinado cinco ou seis portas, todas for ficadas, encolheu os ombros e entrou em matéria consigo mesmo, nestes termos:
— C’os diabos!
Depois continuou a olhar para o ar.
Jean Valjean, que um momento antes, na situação de alma em que se achava, não teria falado nem mesmo olhado para pessoa alguma, sen u-se irresis velmente impelido a dirigir a palavra àquela criança.
— O que tens tu, pequeno?
— Tenho fome — respondeu Gavroche prontamente.
E acrescentou:
— Pequeno é você também.
Jean Valjean meteu a mão no bolso e tirou uma moeda de cinco francos.
Mas Gavroche, que era uma espécie: de borboleta e que passava rapidamente de um para outro gesto, acabara de apanhar uma pedra. Descobrira um lampião.
— Olha! — disse ele. — Ainda por aqui há disto. Vocês não estão na ordem, meus amigos. Isto é desordem. Abaixo com ele.
E a rou a pedra ao lampião, cujo vidro caiu em pedaços, com um tal estampido, que uns burgueses escondidos por trás das cortinas da casa fronteira, exclamaram:
— Estamos em 93!
O candeeiro oscilou violentamente e apagou-se. A rua ficou repentinamente escura.
— É assim mesmo, sua rua velha: ponha o seu barrete de dormir.
E voltando-se para Jean Valjean:
— Como é que vocês chamam àquele monumento muito grande que está lá no fim da rua? São os Arquivos, não é verdade? Aquelas colunas é que eram mís cas para uma barricada.
Jean Valjean aproximou-se de Gavroche.
— Pobre criança — disse ele a meia voz, como se falasse consigo mesmo — tem fome.
E meteu-lhe na mão a moeda de cem soldos.
Gavroche levantou O nariz, espantado pela grandeza da dádiva; mirou-a no meio da sombra e ficou deslumbrado pela alvura de tão grande soldo. Não conhecia as moedas de cinco francos senão por ouvir dizer, a sua reputação era-lhe muito agradável, por isso ficou encantado por ver uma e disse consigo: «Contemplemos o gre». Olhou alguns instantes para o dinheiro, extasiado; depois voltou-se para Jean Valjean e disse majestosamente, querendo restituir-lhe a moeda de cinco francos.
— Burguês, quero antes quebrar os candeeiros. Guarde a sua fera. A mim ninguém me corrompe. Este bicho tem cinco garras, mas não me arranha.
— Não tens mãe? — perguntou Jean Valjean.
— Talvez tanto como você.
— Pois então guarda esse dinheiro para tua mãe — tornou Jean Valjean.
Gavroche sen u-se comovido. Depois acabara de reparar que o homem estava com a cabeça descoberta, e isso inspirava-lhe confiança.
— Mas então não é para me impedir que eu quebre os lampiões?
— Quebra tudo o que tu quiseres.