Os Miseráveis
IV — O barril de pólvora
— Cidadãos! Eis o exemplo que os velhos dão aos moços. Nós hesitámos e ele expôs-se! Nós recuámos e ele avançou! Eis o que os que tremem de velhice ensinam aos que tremem de medo. Este velho é augusto perante a pátria. Teve longa vida e magnífica morte! Agora recolhamos o cadáver, defenda cada um este velho morto, como defenderia seu pai vivo, e torne a sua presença aqui inexpugnável a barricada!
Estas palavras foram seguidas de um murmúrio de adesão sombriamente enérgico.
Enjolras curvou-se, levantou a cabeça do velho, e, feroz, beijou-o na fronte; depois, abrindo-lhe os braços e movendo-o com a mais terna precaução, como se temesse molestá-lo, despiu-lhe a casaca e disse, mostrando aos circunstantes os buracos ensanguentados:
— É esta agora a nossa bandeira.
III — De como Gavroche teria feito melhor aceitando a carabina de Enjolras Acto con nuo, o o Mabeuf foi coberto com um grande xaile preto da viúva Hucheloup. Seis homens fizeram das espingardas uma padiola, sobre as quais foi posto o cadáver, e assim o levaram, de cabeças descobertas, vagarosa e solenemente, para cima da maior mesa que havia na loja.
Aqueles homens, todos entregues à coisa grave e sagrada que estavam fazendo, já
nem pensavam na perigosa situação em que se achavam.
Quando o cadáver passou próximo a Javert, como sempre impassível, Enjolras disse ao espião:
— Tu, logo!
Durante este tempo, Gavroche, o único que não deixara o seu posto e que ficara em observação, julgou ver alguns homens que se aproximavam da barricada, com pés de ladrão. De repente gritou:
— Atenção!
A este brado, Courfeyrac, Enjolras, Jean Prouvaire, Combeferre, Joly, Bahorel e Bossuet, saíram todos tumultuosamente da taberna. Era tarde; via-se já ondular no cimo da barricada grande espessura de baionetas. Alguns guardas municipais, de grande estatura, penetravam já na barricada, uns subindo pelo ónibus, os outros pela abertura de comunicação, levando diante de si o gaiato, que recuava mas não fugia.
O momento era crítico. Era o primeiro e temível minuto da inundação, quando o rio se ergue ao nível da levada, e que a água começa a infiltrar-se pelas fendas do dique. Mais um segundo e estaria tomada a barricada.
Bahorel arremessou-se sobre o primeiro guarda municipal que ia entrando e matou-o com um ro de clavina à queima-roupa; o segundo matou Bahorel com uma baionetada.
Outro nha já lançado por terra Courfeyrac, que gritava: «A mim!» O mais alto de todos, espécie de colosso, corria sobre Gavroche de baioneta calada.
O gaiato ergueu com os pequenos braços a enorme espingarda de Javert, fez resolutamente a pontaria ao gigante e desfechou. A arma não fez fogo. Javert não a tinha carregado. O soldado soltou uma gargalhada e ergueu a baioneta sobre o rapazito.
Antes, porém, que a baioneta tocasse em Gavroche, a espingarda caiu das mãos do guarda municipal, o qual, ferido por uma bala na fronte, tombou para trás. O outro guarda que assaltara Courfeyrac caía igualmente, ferido por outra bala, recebida em cheio no peito.
Era Mário que acabava de entrar na barricada.
IV — O barril de pólvora Mário, ainda oculto pelo cotovelo da rua Mondétour, assis ra, à primeira fase do combate irresoluto e trémulo. Contudo não pudera resis r por muito tempo à ver gem misteriosa e soberana que poderia denominar-se atracção do abismo. Diante da iminência do perigo, diante da morte do senhor Mabeuf, fúnebre enigma, em presença de Bahorel morto, de Courfeyrac pedindo auxílio, dos seus amigos a socorrer ou a vingar, toda a hesitação se lhe desvanecera, e precipitara-se na refrega com as duas pistolas em punho. Com o primeiro salvara Gavroche, com o segundo libertara Courfeyrac.
Ao estampido dos ros, aos gritos dos guardas feridos, nham os assaltantes trepado ao parapeito, em cuja crista se viam aparecer em mais de meio corpo e em turba, guardas municipais, soldados de linha e guardas nacionais do termo, todos de espingardas na mão. Já cobriam mais de dois terços da trincheira, mas não saltavam para o recinto e pareciam indecisos temendo alguma cilada. Olhavam para o escuro interior da barricada como se olhassem para um antro de leões. O clarão do archote não
iluminava senão as baionetas, as felpudas barre nas e a parte superior dos rostos inquietos e irritados.
Mário estava desarmado, por que lançara para longe de si as pistolas descarregadas, mas nha lobrigado o barril de pólvora dentro da loja, ao pé da porta. No momento em que se voltava de lado, olhando para aquele sí o, um dos soldados apontou-lhe a espingarda, fazendo menção de disparar. Nesse instante, uma mão tapou a boca da arma. Era a do jovem operário de calças de belbu na. O soldado desfechou, a bala atravessou a mão, talvez mesmo o operário, porque este caiu, mas não alcançou Mário.
Tudo isto no meio de espesso fumo, mais entrevisto que visto. Mas em momentos como estes as coisas que se vêem vacilam e precipitam-se, e a vista não se demora -em coisa alguma. Sente-se o indivíduo obscuramente impelido para maior sombra ainda; é tudo nevoeiro.
Os insurgentes, surpresos, mas não atemorizados, tinham-se reunido. Enjolras gritara:
— Esperem! Não atirem ao acaso!
No primeiro momento de confusão podiam com efeito ferir-se uns aos outros. A maior parte subira para a janela do primeiro andar e para as águas-furtadas, donde dominavam os assaltantes. Os mais resolutos com Enjolras, Courfeyrac, Jean Prouvaire e Combeferre, nham-se atrevidamente encostado às casas do fundo, a descoberto, e fazendo frente às fileiras de soldados que coroavam a barricada.
Tudo isto se executou sem precipitação, com a estranha e ameaçadora gravidade que procede as lutas. De ambos os lados se apontaram as armas à queima-roupa; estavam tão próximos uns dos outros, que poderiam ouvir-se falando sem esforço. Quando chegaram ao momento em que a centelha está prestes a despedir-se, viu-se um oficial de gola bordada e grandes dragonas, erguer a espada e dizer:
— Apontar!
— Fogo! — disse Enjolras.
As duas descargas partiram ao mesmo tempo e tudo ficou envolto em fumo.
Fumo acre e sufocante em que se arrastavam com gemidos fracos e surdos os moribundos e os feridos.
Quando o fumo se dissipou, viram-se de ambos os lados os combatentes, desbaratados, mas. nos mesmos lugares, e carregando as armas em silêncio.
De repente, ouviu-se uma voz estrondosa gritando:
— Retirem-se ou faço ir pelo ar a barricada!
Todos se voltaram para o lado donde vinha a voz.