Os Miseráveis
XII — O avô
Este modo de proceder estava pouco em harmonia com os hábitos do espião. Não podia, porém, maravilhar-se muito de que Javert depositasse agora nele uma espécie de confiança al va, a confiança do gato que concede ao rato uma liberdade Circunscrita ao comprimento das garras, visto que Jean Valjean estava resolvido a entregar-se e a findar por uma vez. Abriu a porta, entrou, gritou ao porteiro, que já estava deitado, e que, mesmo da cama, puxara pelo cordão:
— Sou eu!
E subiu a escada.
Chegado ao primeiro andar, parou. Todas as vias dolorosas têm estações. A janela do patamar, que era de peitoril, achava-se aberta. Como em muitas casas an gas a escada recebia luz por esta janela, a qual deitava para a rua. Exactamente defronte, ficava um lampião, que derramava alguma claridade sobre os degraus, o que era uma economia de luzes.
Jean Valjean, ou com o fim de tomar ar ou maquinalmente, deitou a cabeça fora da janela e olhou para a rua. Como era pouco extensa, o lampião iluminava-a de uma
extremidade à outra. Jean Valjean teve um deslumbramento de pasmo, ao vê-la completamente deserta.
Javert tinha-se ausentado.
XII — O avô
Biscainho e o porteiro haviam transportado Mário para o salão, onde con nuava imóvel no canapé em que o nham deitado, ao chegar. Acudira o médico, que havia sido chamado, e a tia Gillenormand levantara-se.
Ela andava de um lado para outro, aferrada, de mãos juntas e incapaz de fazer mais nada do que dizer:
— Deus de misericórdia! Parece uma coisa impossível!...
E acrescentava às vezes:
— Não tardaremos a nadar todos em sangue!
Passados os primeiros momentos de horror, o seu espírito abriu-se a certa filosofia da situação, que se traduziu por esta exclamação:
— Aí está no que tudo veio a parar! — sem, todavia, acrescentar o «bem o dizia eu», que é de uso em ocasiões análogas.
Por ordem do médico, foi colocada uma cama de lona junto do canapé.
O médico examinou Mário, e depois de se ter cer ficado de que o pulso persis a, de que o ferido não nha no peito nenhuma ferida muito profunda e que o sangue dos cantos da boca provinha das fossas nasais, fê-lo deitar ao comprido na cama, sem travesseiro, com a cabeça no mesmo plano que o corpo, e até um pouco mais baixa, descoberto até à cintura para facilitar a respiração.
Ao ver que tratavam de despir Mário, a filha de Gillenormand re rou-se e recolheu-se ao quarto a rezar as suas contas.
O tronco estava isento de lesão interna; uma bala, amortecida pela carteira, resvalara ao longo das costelas, fazendo um medonho rasgão, pouco profundo, e, por consequência, sem perigo. A extensa marcha subterrânea acabara de deslocar a clavícula quebrada, agravando, deste modo, o ferimento. Os braços estavam cheios de cu ladas.
Nenhum golpe lhe desfigurava o rosto, porém a cabeça nha-a cheia deles. Que se seguiria destas feridas na cabeça? Seriam apenas na pele ou teriam penetrado o crânio?
Ainda era cedo para o saber. Um sintoma grave é que os ferimentos na cabeça nham causado o desmaio e nem sempre despertam os que caem nesses desmaios. Além disto, a hemorragia nha extenuado o ferido. Da cintura para baixo, o corpo não sofrera nada, protegido, como se achara, pela barricada.
Biscainho e Nicole e rasgavam pano e preparavam ligaduras; Nicole e cosia-as, Biscainho enrolava-as.
A míngua de fios, o médico estancara o sangue provisoriamente com chumaços de algodão.
Ao lado da cama ardiam três velas sobre uma mesa, na qual se via aberto o estojo cirúrgico.
O médico lavou o rosto e os cabelos de Mário com água fria.
Era tal a quan dade de sangue coagulado, que um balde de água ficou vermelho no
mesmo instante.
O porteiro alumiava, com uma vela que nha na mão, todas as operações do tratamento.
O médico parecia tristemente preocupado.
De espaço a espaço fazia com a cabeça um aceno nega vo, como se respondesse a alguma pergunta que a si mesmo dirigisse.
Mau sinal para o doente estes diálogos de um médico consigo mesmo.
No momento em que o clínico enxugava o rosto do ferido e lhe tocava ao de leve com o dedo as pálpebras, que ele con nuava a ter fechadas, abriu-se uma porta no fundo da sala e deu passagem a um vulto esguio e pálido. Era o avô.
Havia dois dias que os tumultos em extremo agitavam, indignavam e preocupavam Gillenormand. Não pudera dormir na noite precedente e todo o dia es vera a arder em febre. À noite, deitara-se muito cedo, recomendando que fechassem bem todas as portas, e adormeceu profundamente de extenuado que se encontrava.
Os velhos têm o sono leve. O quarto de Gillenormand ficava con guo à sala, de modo que, apesar das maiores precauções, acordara com o mo m que não foi possível deixar de fazer. Admirado de ver luz por entre as fendas da porta, saltara abaixo da cama e dirigira-se para ela às apalpadelas.
Parado no limiar, com uma das mãos no trinco da porta entreaberta, a cabeça trémula um pouco inclinada para diante, coberto com um estreito roupão branco, direito e sem pregas, como uma mortalha, parecia, com o seu ar espantado, um fantasma olhando para o túmulo.
Ao avistar na cama aquele rapaz coberto de sangue, com o rosto branco como cera, os olhos fechados, a boca aberta, os lábios roxos, nu até à cintura, crivado de feridas, imóvel, no meio de uma luz vivíssima, Gillenormand sen u, desde a cabeça até aos pés, o estremecimento de que podem ser capazes membros ossificados; os olhos, cuja córnea a idade lhe amarelecera, cobriram-se-lhe de um fulgor vítreo; o seu rosto tomou instantaneamente a cor plúmbea de uma cabeça de esqueleto; os braços caíram-lhe desfalecidos, como se lhes quebrasse a mola que os sustentava, e o seu pasmo traduziu-se pelo afastamento dos dedos de suas trémulas mãos; os joelhos curvaram-se-lhe, deixando ver pela abertura as pobres pernas nuas, eriçadas de cabelos brancos, e murmurou:
— Mário!
— Senhor — disse Biscainho — acabam agora mesmo de o trazer. Foi-se meter na barricada e...
— Morreu! — exclamou o velho com voz terrível. Ah, facínora!
Uma espécie de transfiguração sepulcral se operou então naquele velho, res tuindo-lhe o vigor de um rapaz.
— Senhor — disse ele — visto ser o médico, diga-me uma coisa antes de mais nada.
Ele está morto, não é assim?
O médico, profundamente angustiado, permaneceu silencioso.
Gillenormand tornou, torcendo as mãos e soltando uma medonha gargalhada:
— Morreu! Morreu!... Era tal o ódio que me nha, que quis ir morrer numa barricada!
Foi contra mim que ele fez isto! Ah, sanguinário! Em que estado ele me volta a casa!
Miséria das misérias! Morto!
Em seguida, chegou-se a uma janela, abriu-a de par em par, como se receasse abafar, e, em pé diante da escuridão, principiou a falar para baixo, por entre as trevas da noite:
— Tratante! Aparecer-me aqui neste estado! Cheio de cu ladas, degolado, exterminado, retalhado, feito em postas! Já se viu uma coisa assim?! Ele bem: sabia que eu o esperava, que lhe nha mandado preparar o quarto e posto à cabeceira da minha cama o seu retrato, rado quando ele era pequeno! Bem sabia que, se não voltasse, era porque não queria, porque eu há muitos anos o esperava e passava as noites ao fogão com as mãos sobre os joelhos, sem saber o que havia de fazer, como um pateta! Bem sabias isto; bem sabias que não nhas mais do que voltar e dizer: «Sou eu!» e que serias o dono da casa e que farias de mim. O que bem te parecesse! Bem o sabias, mas disseste lá con go: É um realista, não quero nada com ele!» E foste Meter-te nas barricadas e procurar a morte por maldade! Só para te vingares do que eu te disse a respeito do senhor duque de Berry! Oh, isto é infame! Deite-se lá uma pessoa e durma descansadamente para acordar e vê-lo naquele estado, morto!...
O médico, que principiava a inquietar-se por dois lados, desamparou Mário por um instante, e dirigindo-se para Gillenormand, travou-lhe do braço.
O ancião voltou-se, fitou-o com os olhos descomunalmente abertos e purpureados de sangue, e disse-lhe serenamente:
— Obrigado, senhor! Não tenha receio, eu sei ser homem; vi morrer Luís XVI, sei arrostar os revezes! Uma ideia, porém, que eu não posso tolerar, é a de que a causa de todo o mal são os vossos jornais. Haveis de ter escrevinhadores, faladores, advogados, oradores, tribunas, discussões, progresso, luzes, direitos de homem, liberdade de imprensa, para nos trazerdes a casa os filhos neste estado! Ah, Mário! Isto é abominável! Morto! Morrer primeiro do que eu! Uma barricada! Ah, facínora!... Doutor, mora por aqui perto, não? Oh, eu bem o conheço! Vejo da minha janela passar o seu carro. Ora escute. Engana-se se cuida que estou agastado. Agastar-se a gente contra um cadáver é uma estupidez! Eu criei esse rapaz. Já eu era velho e ele ainda era criança.
Brincava nas Tulherias com um sachozinho e um carrinho, e, para os guardas não lhe ralharem, eu ia tapando com uma bengala os buracos que ele ia fazendo com o sacho.
Um dia gritou: «Abaixo Luís XVIII!» e ninguém mais soube dele. Não ve culpa nenhuma.
Era corado e louro. A mãe nha-lhe morrido. Tem notado que todas as crianças são louras? Porque será? É filho de um desses salteadores do Loire, mas os filhos não têm culpa nos crimes dos pais. Ainda me lembro de quando ele era pequenino! Muito lhe custava a pronunciar os dd. Tinha um modo de falar tão doce e tão pouco claro, que parecia um pássaro! Lembro-me que, uma vez, diante do Hércules Farnesio, Rodearam-no umas poucas de pessoas para o ver e admirar, tão lindo era! Tinha uma cabeça como as que se vêem nas pinturas. Eu engrossava a voz e me a-lhe medo com a bengala, mas ele bem sabia que era a rir! De manhã, quando entrava no meu quarto, ralhava-lhe, mas vê-lo a ele era como se visse o Sol! A gente não pode resis r a estes pequerruchos!
Agarram-se, prendem-se, nunca mais nos largam! O que é facto é que não havia pequerrucho mais lindo. Agora que me diz dos senhores Lafaye es e Benjamins Constants, dos senhores Tirecuirs de Corcelles, que mo puseram neste estado? Oh, isto não se pode sofrer!...
Acercou-se de Mário, que con nuava lívido e imóvel, e para junto do qual voltara o médico, e principiou de novo a torcer os braços, agitando os pálidos lábios quase maquinalmente e proferindo, ou antes, gemendo palavras quase indis ntas, que mal se ouviam:
— Ah, desalmado! Clubista! Celerado! Setembrista!
Surdas exprobrações de um agonizante contra um cadáver.
Pouco a pouco, como é necessário que as erupções interiores achem por onde dilatar-se, voltou-lhe o encadeamento das palavras, mas parecia que já não nha força para as pronunciar. A sua voz nha-se tornado a tal ponto surda e débil, que parecia vir do outro lado de um abismo.
— Mas é o mesmo; também, não tardarei a morrer! E não haver em Paris uma desavergonhada que quisesse fazer a ventura deste maroto?! Um pa fe, que, em lugar de se diver r e levar boa vida, foi bater-se e aparar as balas, como um pedaço de asno! E
por quem e para quê? Pela república! Em vez de ir dançar para a Chaumière, como devem fazer todos os rapazes! De que lhe servia então ter vinte anos? A república, asneira chapada! Pobres mães, aí está para que dais o ser a filhos bonitos! Lá vai, morreu! Serão dois enterros que terão de sair pela mesma porta! Deixaste pôr-te nesse estado pelos belos olhos do general Lamarque! Que te nha feito o general Lamarque?