Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 16 de 359

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Os Miseráveis

II — A prudência aconselha a sabedoria

Passou por uma brecha e entrou na cidade.

Seriam oito horas, pouco mais ou menos. Como não conhecia as ruas, principiou outra vez a vaguear ao acaso.

Chegou assim à prefeitura, depois ao seminário. Ao passar pelo largo da catedral, ameaçou a igreja com o punho cerrado.

A esquina do largo fica a oficina de pografia onde foram impressas as proclamações do imperador e da guarda imperial ao exército, trazidas da ilha de Elba e ditadas pelo próprio imperador.

Exausto de fadiga e perdida já a esperança de encontrar pousada, deitou-se no banco de pedra que fica à porta da tipografia.

Neste momento, uma senhora já idosa que vinha a sair da igreja, ao ver aquele homem deitado ali, perguntou-lhe:

— Que faz você aí, pobre homem?

— Bem vê que estou deitado — respondeu ele secamente.

A bondosa senhora, por certo bem digna de tal nome, era a marquesa de R.

— Neste banco? — tornou ela.

— Quem dezanove anos teve por cama uma tábua — disse o homem — pode muito bem passar a noite num colchão de pedra!

— Então foi soldado?

— É verdade, minha senhora, fui soldado.

— Porque não vai para a estalagem?

— Porque não tenho dinheiro.

— Valha-me Deus. Também não tenho comigo senão quatro soldos! — Então dê-mos, sempre é alguma coisa!

O homem pegou no dinheiro e a marquesa continuou:

— Isso não chega para ir para a estalagem. Já lá foi pedir hospedagem? É impossível que possa ficar aqui toda a noite. Você por força há-de estar com frio e vontade de comer. Pode ser que o recolham por caridade.

— Já bati a todas as portas!

— E então?

— De toda a parte me repeliram.

A marquesa tocou-lhe então no braço e indicou-lhe do outro lado do largo, uma casinha branca pegada ao paço.

— Já bateu a todas as portas? — perguntou ela.

— A todas — respondeu o homem.

— E àquela também?

— Àquela não.

— Pois então vá lá.

II — A prudência aconselha a sabedoria

Nessa mesma noite, o bispo de Digne, depois do seu passeio pela cidade, recolhera-se e conservara-se fechado no seu quarto até muito tarde, ocupado com um grande estudo sobre os Deveres, que, infelizmente, ficou incompleto. Neste trabalho estudava ele quanto os santos padres e os doutores da igreja têm dito sobre tão importante matéria.

O seu livro dividia-se em duas partes: a primeira tratava dos deveres de todos, a segunda dos deveres de cada um, segundo a classe a que pertence. Os deveres de todos são os principais. Há quatro que são os indicados por S. Mateus: deveres para com Deus (Mt VI), deveres para consigo próprio (Mt V, 29-30), deveres para com o próximo (Mt VII, 12),

deveres para com as criaturas (Mt VI, 20-25). Quanto aos outros deveres, achara-os o bispo indicados e prescritos em diversas partes; aos soberanos e aos súbditos, na Epístola aos Romanos; aos magistrados, às esposas, às mães e aos mancebos, em S.

Pedro; aos maridos, aos pais, aos filhos e aos criados, na Epístola aos Efésios; aos fiéis, na Epístola aos Hebreus; às virgens, na Epístola aos Corín os. De todas estas prescrições formavam, à força de trabalho, um todo harmónico, que tencionava oferecer às almas.

Às oito horas estava ainda a trabalhar, escrevendo incòmodamente em quartos de papel, com um volumoso livro aberto sobre os joelhos, quando Magloire entrou, segundo o costume, para tirar a prata do armário junto do leito.

Um momento depois, calculando que a mesa estaria posta e que talvez a irmã es vesse à espera dele, fechou o livro, levantou-se e encaminhou-se para a sala de jantar.

A sala de jantar era uma sala oblonga, com fogão, uma porta para a rua, como já dissemos, e uma janela para o jardim.

Efec vamente, Magloire acabava de pôr a mesa. Ao mesmo tempo que andava neste serviço, conversava com Baptistina.

Sobre a mesa que ficava próxima do fogão estava colocado um candeeiro. No fogão crepitava uma boa fogueira.

Facilmente se pode imaginar o aspecto daquelas duas mulheres, ambas com mais de sessenta anos. Magloire, baixa, gorda e ágil; Bap s na, magra, débil, meiga, um pouco mais alta do que o irmão, trajando um ves do de seda cor de castanha, que era a cor da moda em 1806, o qual ela comprara em Paris nesse ano e que ainda lhe durava. Para nos servirmos de uma dessas locuções vulgares que têm o mérito de exprimir numa só frase uma ideia que mal se desenvolveria numa página, Magloire parecia uma campónia e Baptistina uma fidalga.

Magloire trazia uma touca branca de rufos na cabeça, um cordãozinho de oiro ao pescoço, único adereço feminino que havia em casa, um lenço preto posto por baixo de um ves do de lã preto, com mangas largas e curtas, um avental de chita de quadrados verdes e vermelhos, atado à cintura por uma fita verde, nos pés, sapatos grossos e meias amarelas, como as mulheres de Marselha.

O ves do de Bap s na era talhado pelos moldes de 1806: cinta curta, saia de pouca roda, mangas de dragonas com abas e botões. Uma touca especial ocultava-lhe os cabelos brancos.

Magloire

nha ar de inteligência, bondade e agilidade; os cantos da boca desigualmente contraídos, e o lábio superior mais grosso do que o inferior, davam-lhe uma expressão de orgulhosamente imperial. Enquanto o bispo não exprimia a sua vontade, ela falava resolutamente, com certa liberdade misturada de respeito, mas apenas ele a manifestava, obedecia-lhe tão submissamente como Baptistina.

Quanto a Bap s na, esta nem sequer abria a boca. Limitava-se a obedecer e a condescender. Ainda mesmo em nova, não fora bonita; nha olhos grandes e azuis à flor do rosto, nariz comprido acavaletado; mas o seu aspecto indicava inefável bondade, fora predes nada para a mansidão. Mas a fé, a caridade e a esperança, estas três virtudes

que reanimam a alma, foram gradualmente elevando essa mansidão a san dade. A natureza fizera-a ovelha, a religião fê-la anjo. Pobre santa! Doce recordação desvanecida!

Bap s na referiu tantas vezes, no decorrer do tempo, o que naquela noite se passou no paço, que muitas pessoas, que ainda hoje vivem, se recordam de todos os pormenores da narração.

Na ocasião em que o bispo entrou, Magloire falava com certa vivacidade. Conversava com Bap s na sobre um assunto que lhe era familiar e ao qual o bispo estava acostumado. Tratava-se da porta da rua.

Parece que, na ocasião em que saíra a fazer compras para a ceia, Magloire ouvira dizer certas coisas em diversos lugares. Falava-se de um homem de má catadura, de um vagabundo suspeito, que nesse dia nha chegado à cidade, onde decerto ainda permanecia; dizia-se que era provável que nessa noite quem se recolhesse tarde, vesse algum mau encontro. Que a polícia era a culpada. Mas como não havia de ser assim, se o prefeito e o maire, por causa da sua inimizade, do que tratavam era de comprometer-se mutuamente, deixando andar tudo ao Deus dará? Que pertencia à gente prudente incumbir-se da polícia e guardar-se a si mesma, tendo o cuidado de fechar e aferrolhar bem as portas. Magloire acentuou muito estas úl mas palavras, mas o bispo que vinha do seu quarto, onde sen ra frio, sentou-se em frente do fogão a aquecer-se, com o pensamento, ao que parecia, distraído noutras coisas. Por consequência, passava desapercebida para ele a frase que Magloire acentuava de propósito. Repe u-a. Então, Bap s na, querendo sa sfazer Magloire, sem desgostar o irmão, aventurou-se a dizer timidamente:

— O irmão ouviu o que disse Magloire?

— Vagamente — respondeu o bispo.

Depois, voltando um pouco a cadeira, descansou as mãos nos joelhos e, erguendo para a velha criada o rosto cordial e risonho, a que o clarão da fogueira punha um tom insinuante, acrescentou:

— Então, o que há? Que sucedeu?