Os Miseráveis
XV — Gavroche fora da barricada
Todos, naquela ocasião, se achavam prontos para a rar. Assim, pois, a barricada, há tanto tempo silenciosa, deu uma descarga atroadora e desesperada, a que se sucederam mais sete ou oito, com uma espécie de raiva misturada de prazer, que encheram a rua de espesso fumo. Ao cabo de alguns instantes, puderam, finalmente, os insurgentes descobrir confusamente, por entre aquela espécie de nevoeiro listrado de fogo, duas terças partes dos ar lheiros estendidos ao pé das rodas das peças, ao lado das quais os que não haviam sucumbido con nuavam a servi-las com severa serenidade, porém menos assíduos nas descargas.
— O negócio vai bem! — disse Bossuet. — É um sucesso!
Enjolras, porém, abanou a cabeça e respondeu:
— Estás enganado. Se as coisas con nuam assim por mais um quarto de hora, não
ficam dez cartuchos na barricada!
Parece que Gavroche ouviu esta resposta.
XV — Gavroche fora da barricada
Por entre o chuveiro das balas, Courfeyrac avistou, de súbito, um vulto pela parte exterior da barricada, porém não longe dela.
Era Gavroche, que saíra pela abertura, depois de ter ido buscar um cesto à casa de pasto, para dentro do qual estava sossegadamente deitando as cartucheiras repletas, pertencentes aos guardas nacionais que tinham sido mortos junto ao reduto.
— Que estás tu aí a fazer? — perguntou-lhe Courfeyrac.
— Estou a encher o meu cesto, cidadão! — replicou
Gavroche, levantando desempenadamente a cabeça.
— Ó rapaz, pois tu não vês a metralha?
— Está bem! Está a chover. E depois? — respondeu Gavroche.
— Volta para aqui! — ordenou-lhe Courfeyrac em tom imperativo.
— Vou já — disse o gaiato.
E de um salto embrenhou-se pela rua.
Como devem estar lembrados, a companhia de Fannicot, na sua re rada, deixara atrás de si um rasto de cadáveres.
Uns vinte mortos jaziam aqui e ali, pelo chão, em toda a extensão da rua. Vinte patronas para Gavroche. Uma provisão de cartuchos para a barricada.
O fumo que enchia a rua parecia um nevoeiro. Os que têm visto alguma nuvem caída numa garganta no meio de duas rochas alcan ladas poderão imaginar o que era aquele fumo, cerrado e como que condensado entre duas escuras linhas de altas casas, subindo lentamente e renovando-se sem cessar, do que resultava uma escuridão gradual, que encobria mesmo a luz do Sol, e que não deixava verem-se mutuamente os combatentes de uma extremidade da rua à outra.
Este escurecimento, provavelmente desejado e calculado pelos chefes que deviam dirigir o ataque da barricada, foi útil a Gavroche.
Encoberto por este véu de fumo e favorecido pela sua pequena estatura, pôde o gaiato meter-se pela rua dentro até uma distância considerável, sem ser visto, esvaziando a salvo umas sete ou oito patronas que primeiro encontrou.
Caminhava de gatas, correndo às vezes, com o cesto seguro nos dentes, torcendo-se, ondulando, serpenteando de um cadáver para outro, esvaziando uma cartucheira ou uma patrona, como um macaco abre uma noz.
Na barricada, da qual ainda se não achava muito desviado, ninguém ousava gritar-lhe que se recolhesse, com receio de atrair a atenção sobre ele.
Ao deparar com um polvorinho, em forma de frasco, no cadáver de um cabo da guarda nacional, disse:
— Para matar a sede!
E meteu-o no bolso.
Avançando sempre, chegou, por úl mo, ao ponto em que o nevoeiro produzido pelas descargas se tornava transparente.
De modo que os a radores da tropa de linha que jaziam, de bruços por trás da improvisada trincheira, bem como os da guarda nacional postada à esquina da rua, apontaram de súbito uns aos outros um vulto movendo-se no meio do fumo.
No momento em que Gavroche mais entre do se achava a esvaziar a patrona de um sargento estendido junto de uma porta, uma bala bateu no cadáver.
— Arreda! — exclamou Gavroche. — Assim matam-me os mortos!
Uma segunda bala fez faiscar uma pedra ao lado: dele. Seguiu-se terceira, que lhe tombou o cesto.
Gavroche olhou e viu que as balas vinham dos guardas nacionais.
Ergueu-se de ímpeto, os cabelos soltos ao vento, as mãos nas ilhargas, os olhos fitos nos guardas nacionais, que continuavam a fazer fogo sobre ele e principiou a cantar: Se há gente feia em Nanterre,
A culpa é só de Voltaire;
Se há asnos em Palaiseau,
A culpa é só de Rousseau.
Depois pegou no cesto, deitou para dentro dele, sem deixar um só, os cartuchos que nham caído por fora, e avançando sempre para a frente, isto é, para o lado de onde par am os ros, principiou a esvaziar outra patrona. Quarta bala passou por ele, sem lhe acertar, e o gaiato continuou a cantar:
A culpa é só de Voltaire,
De eu não ter tabelião;
A culpa é só de Rousseau,
De eu não ser um passarão.
Uma quinta bala veio, mas não conseguiu mais do que tirar dele terceira copla: A culpa é só de Voltaire,
Se eu do prazer sou amigo;
A culpa é só de Rousseau
Não ser eu mais que um mendigo.
Assim continuaram as coisas por mais algum tempo.
Era horrível e belo o espectáculo, vendo Gavroche zombando daquele chuveiro de balas, parecendo até que lhe agradava imenso aquele lance. Era o pardal dando bicadas nos caçadores.
A cada descarga replicava com uma copla. Estavam todas as espingardas apontadas para ele e nenhum ro lhe acertava. Os guardas nacionais e os soldados riam-se, ao fazer-lhe pontaria. O gaiato deitava-se, levantava-se, me a-se no vão de alguma porta, saltava, desaparecia, tornava a aparecer, escondia-se, fugia, voltava, respondia à metralha fazendo trejeitos, e, no entanto, ia recolhendo os cartuchos, esvaziando as patronas e enchendo o cesto. Os insurgentes seguiam-no com a vista, na maior ansiedade. A barricada tremia, ele cantava. Não era uma criança, não era um homem: era um gaiato-fada. Dir-se-ia o invulnerável anão do combate.