Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 31 de 359

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Os Miseráveis

IV — A alegria de Tholomyés é tão grande que até canta uma canção espanhola

Sob aqueles trapos e fitas, adivinhava-se a existência de uma estátua e nessa estátua havia uma alma.

Fan ne era bela sem que vesse consciência disso. Os raros pensadores, misteriosos sacerdotes do belo, que confrontam silenciosamente tudo com a perfeição, teriam entrevisto naquela jovem costureira, através da transparência da graça parisiense, a an ga eufonia sagrada. Aquela filha das trevas possuía nobreza de raça. Era bela sob as duas espécies, que são o es lo e o ritmo. O es lo é a forma do ideal, o ritmo é o seu movimento.

Dissemos que Fan ne era a personificação da alegria, mas era igualmente a personificação do pudor.

Para um observador que a estudasse atentamente, o que transpirava dela, por entre toda aquela embriaguez da idade, da estação e dos amores, era uma irresis vel expressão de comedimento e modés a. Tudo lhe causava admiração, e esta casta simplicidade é a diferença que separa Psyché de Vénus. Fan ne nha os compridos,

alvos e delgados dedos da vestal que revolve as cinzas do fogo sagrado com um alfinete de oiro.

Conquanto nada vesse recusado a Tholomyés, como em breve se verá, o seu rosto, em repouso, era soberanamente virginal; uma espécie de grave e quase austera dignidade a acome a de repente, em certas ocasiões, e não havia coisa mais singular e embaraçosa do que ver ex nguir-se nela tão rapidamente a alegria e suceder-se sem transição o recolhimento à expansão. Esta súbita gravidade, às vezes severamente acentuada, parecia o desdém de uma deusa.

A fronte, o nariz e o queixo ofereciam esse equilíbrio de linhas, demasiadamente dis nto do equilíbrio de proporção, do qual resulta a harmonia do rosto; no intervalo tão caracterís co que separa a base do nariz do lábio superior, nha essa impercep vel e graciosa ruga, misterioso sinal da cas dade que fez que Barbaroxa se apaixonasse de uma Diana encontrada nas escavações de ícone.

Se o amor é uma falta, Fantine era a inocência sobrenadando nela.

IV — A alegria de Tholomyés é tão grande que até canta uma canção espanhola Aquele dia foi uma permanente aurora. Toda a natureza parecia repousar e sorrir. Os jardins de Saint-Cloud exalavam doces perfumes; a viração do Sena agitava brandamente as folhas; os ramos ges culavam no ar; as abelhas saqueavam os jasmins; as borboletas pousavam con nuamente nas flores; e no augusto parque do rei de França via-se um bando de vagabundos: os pássaros.

Os quatro alegres pares resplandeciam confundidos com o sol, os campos, as flores e as árvores.

E, no meio desta comunhão de paraíso, falando, cantando, correndo, dançando, caçando borboletas, colhendo flores, molhando os rosados braços no orvalho das plantas, todas recebiam, de quando em quando, beijos de todos, excepto Fan ne, encerrada na sua vaga resistência pensativa e arisca, porque amava.

— O que tens, Fantine? Estás hoje com um ar tão esquisito! — dizia-lhe Favorita.

Eis como é o prazer. Estas passagens de pares venturosos são um profundo apelo à vida e a natureza, fazendo desabrochar de tudo carícias e luz

Houve uma fada que fez os prados e as árvores expressamente para os namorados.

Daí provém a eterna escola campesina dos amantes, que sem cessar recomeça e que há-de durar enquanto houver campos e estudantes. Daí a popularidade da Primavera entre os pensadores. O patrício e o plebeu, o duque, o par e o pobre, as pessoas da corte e as da cidade, como noutro tempo se dizia, são todos súbditos desta festa. Todos riem, todos se procuram, há uma claridade de apoteose iluminando a atmosfera. Que transfiguração produz o amor! No campo até os escreventes de tabelião parecem deuses. E os gri nhos, as lutas na relva, os abraços fur vos, a linguagem enigmá ca que se assemelha a uma melodia, as adorações que se mostram no modo de pronunciar uma sílaba, as cerejas arrancadas por uma boca à outra, tudo isto flameja e passa no meio de resplendores celestes.