Os Miseráveis
III — O senhor Mabeuf
Divagou durante todo o dia sem saber por onde; de vez em quando chovia, mas ele nem dava por isso; comprou num padeiro, para jantar, um pequeno pão, meteu-o na algibeira e esqueceu-se dele. Parece que tomou também um banho no Sena, sem ter a consciência do que fazia. Há momentos em que o cérebro parece conter uma fornalha.
Mário estava num destes momentos. Já não nha esperança nem temia nada; dera aquele passo na véspera. Esperava a noite com uma impaciência febril; não nha senão uma ideia clara; era que às nove horas veria Cose e. Esta úl ma felicidade era por então todo o seu futuro; depois a sombra. De vez em quando, caminhando pelos boulevards mais desertos, parecia-lhe ouvir desusados rumores na cidade. Deitava a cabeça fora da
sua abstracção e dizia: «Estarão combatendo?»
Pouco depois de anoitecer, às nove horas em ponto, como prometera a Cose e, estava na rua Plumet. Quando se aproximou da grade, esqueceu-se de tudo. Havia quarenta e oito horas que não via Cose e; ia tornar a vê-la; todos os outros pensamentos se desvaneceram; e não sen u mais do que a inaudita e profunda alegria Os minutos em que se vive séculos têm de soberano e de admirável que no momento em que passam preenchem inteiramente o coração.
Mário rou o varão da grade e precipitou-se no jardim. Cose e não estava lá. Ergueu os olhos e viu que as janelas estavam fechadas por dentro e por fora. Percorreu o jardim todo em volta; o jardim estava deserto. Então voltou ao pé da casa, e insensato de amor, embriagado, assustado, exasperado pela dor e pela inquietação, como um dono de casa que entra para ela a má hora, bateu nas janelas. Bateu, tornou a bater, com o risco de ver abrir-se a janela e aparecer-lhe de frente o pai, perguntando-lhe o que queria.
Mas isto nada era a par do que ele entrevia. Depois de ter ba do, ergueu a voz e chamou Cosette.
— Cosette!
Ninguém no jardim; na casa ninguém. Mário fitou os olhos desesperados naquela casa lúgubre, tão negra, tão silenciosa, mais vasta do que um túmulo, e olhou para o banco de pedra onde passara tão adoráveis horas ao lado de Cose e. Então sentou-se nos degraus da varanda com o coração cheio de doçura e de resolução, abençoou o seu amor no fundo do pensamento e disse consigo, que uma vez que Cose e par ra, só lhe restava morrer.
De repente ouviu uma voz que parecia vir da rua e que gritava através das árvores:
— Senhor Mário!
— Que é?! — disse ele, erguendo-se.
— Está aí, senhor Mário?
— Estou.
— Os seus amigos esperam-no na barricada da rua da Chanvrerie — tornou a mesma voz.
Esta voz não lhe era de todo desconhecida. Assemelhava-se à voz rouquenha e áspera de Eponina.
Mário correu à grade, afastou o varão móvel, deitou a cabeça de fora, e viu alguém que lhe pareceu um rapaz desaparecer, correndo, por entre as sombras da noite.
III — O senhor Mabeuf
A bolsa de Jean Valjean nha sido inú l para o senhor Mabeuf. O infeliz velho, com a sua veneranda austeridade infan l, resolvera não aceitar o presente das estrelas, porque, no seu entender, era inadmissível que um astro se convertesse em luíses de ouro. Ignorando, portanto, que o inesperado auxílio caído das nuvens vinha de Gavroche, fora entregar a bolsa ao comissário de polícia do bairro, como objecto perdido, para ser res tuído a quem mostrasse que de direito lhe pertencia. Escusado é dizer que ninguém apareceu a reclamar, e que, portanto, a bolsa ficou realmente perdida, pois nem socorreu o pobre velho nem voltou às mãos do seu dono.
As circunstâncias crí cas em que veio dar com ele aquele inú l socorro cada vez se agravaram mais.
O resultado das experiências sobre o anil não nha sido mais sa sfatório no Jardim das Plantas do que o fora no seu quintal de Austerlitz. No ano antecedente, devia as soldadas à velha que o servia; actualmente, como se viu, devia o aluguer da casa em que habitava. Ao cabo de treze meses de espera baldada, o Monte de Piedade vendera-lhe as chapas da sua «Flora», que foram talvez -empregar-se nas caçarolas de algum caldeireiro.
Deste modo, impossibilitado até de completar os exemplares trancados que ainda possuía da sua obra, resolvera vendê-los, o que fez a um livreiro alfarrabista, que lhe deu por eles uma diminuta quan a, em virtude de considerar tudo como papel de embrulhos. Da obra, portanto, em que consumira parte da sua vida, nada lhe restava já.
Quando viu que o pequeno produto desta venda se lhe ia também exaurindo, como todos os outros recursos de que nha lançado mão, renunciou à cultura do seu jardim, deixando crescer nele as ervas à sua vontade. Quanto aos dois ovos e ao bocado de carne que de tempos a tempos costumava comer, a esses já há muito que ele nha renunciado. O seu jantar, actualmente, consis a num bocado de pão e algumas batatas.
Levado de degrau em degrau pelo braço da miséria, vira-se obrigado a vender, primeiro os poucos móveis que já lhe restavam, em seguida todas as peças de bragal e roupa de cama, que nha em duplicado, e afinal, os ervários e as estampas. Restavam-lhe porém ainda os seus livros mais preciosos, alguns dos quais eram, realmente, raríssimos, tais como os Quadros Históricos da Bíblia, edição de 1560, a Concordância das Bíblias, de Pedro de Bessa, As Margaritas da Margarita, de Jean de Haya, com uma dedicatória à rainha de Navarra, o livro do Cargo e dignidade do embaixador, por Villiers Hotman, um Florilegium rabbinicum, de 1644, um Tibullo de 1567, com esta esplêndida inscrição Venefiis, in ozdibus Manuiianis; finalmente, um Diogenes Laercio, impresso em Leão em 1644, no qual se encontravam as célebres variantes do manuscrito 411, século XIII, pertencente ao Va cano, e as dos dois manuscritos de Veneza, 393 e 394, tão proveitosamente consultados por Henrique Mes enne, e todas as passagens, em dialecto dórico, que se não encontram senão no célebre manuscrito do século XII, pertencente à biblioteca de Nápoles.
No quarto do senhor Mabeuf nunca se acendia lume.
Antes de anoitecer, deitava-se para não gastar luz. Quando ele saía, os vizinhos fugiam de se encontrar com ele, e tanto à descautela, que para o pobre velho não era desconhecido o empenho que todos punham em evitá-lo. A miséria traz consigo este achaque, que não é, ainda assim, priva vo de todas as misérias. A miséria de uma criança interessa alguma mãe. A miséria de um rapaz interessa a uma rapariga, a miséria de um velho a ninguém interessa. É de todas as penúrias a mais erma de simpa as.
Apesar de tudo isso, porém, Mabeuf não nha perdido inteiramente a sua infan l serenidade. Os olhos animavam-se-lhe de um tal ou qual clarão, quando os fitava nos seus livros, e até pareciam sorrir, quando o livro em que os fixava era o seu Diógenes Laércio, que era um exemplar único. Além dos objectos de mais absoluta precisão, o único dos móveis que conservava era o seu armário envidraçado.
Um dia, a tia Plutarco disse-lhe:
— Ó senhor Mabeuf, eu não tenho com que fazer as despesas para o jantar.
O que ela denominava jantar era um pão e quatro ou cinco batatas.
— Então nem fiado? — perguntou, como hesitando, o pobre velho.
— Bem sabe que já ninguém nos quer fiar.
O senhor Mabeuf dirigiu-se ao armário, repositório sagrado dos seus mais preciosos haveres, abriu-o, pôs-se a contemplar de damente, uns após outros, todos os livros da sua biblioteca, com o gesto com que um pai que se visse forçado a dizimar seus filhos, antes de escolher, os correria primeiro com a vista demoradamente, até que, por fim, pegou repen namente num, meteu-o debaixo do braço e saiu. Daí a duas horas, voltou, sem nada debaixo do braço, deitou trinta soldos acima da mesa e disse:
— Aqui está para o jantar.
Desde então, a serena fronte do velho cobriu-se de um véu sombrio, que a a Plutarco nunca mais viu esvaecer-se para voltar à primitiva limpidez.
Ao outro dia e no seguinte, e em todos os mais que se foram sucedendo, repe a-se igual cena. Mabeuf saía com um livro e entrava com uma moeda de prata. Os livreiros, como conheciam que o pobre velho vendia por precisão, compravam-lhe por vinte soldos o que lhe nha custado vinte francos, às vezes nas lojas dos mesmos a quem agora vendia. Volume a volume ia, contudo, passando a novo possuidor toda a livraria do bom velho. Às vezes dizia ele:
— É o mesmo; eu estou com oitenta anos... — como se por isto quisesse exprimir não sei que secreta esperança de ver terminar seus dias antes de ver nas mãos dos livreiros o último volume da sua biblioteca.
De dia para dia aumentava a sua tristeza. Uma ocasião, porém, esta cessou para dar lugar a uma inesperada alegria. Mabeuf saiu com um Roberto Esi enne, que vendeu por trinta e cinco soldos no cais de Malaquias, e voltou com um Aldo, que comprara por quarenta na rua de Grés.
— Fiquei a dever cinco soldos! — disse ele, transbordando de prazer, à pobre velha que o servia.
Nesse dia não jantou.
Mabeuf era membro da Sociedade de Horticultura e a crítica posição em que se via era conhecida dos seus colegas.
Uma ocasião, o presidente da citada sociedade procurou-o, prometendo-lhe interceder por ele para com o ministro do comércio e agricultura, e, efec vamente, cumpriu a sua promessa.
— Como! — exclamou o ministro. — Pois é possível! Um sábio ancião! Um botânico!
Um homem inofensivo! Na verdade, é credor da minha atenção!
No dia seguinte, Mabeuf foi convidado para jantar em casa do ministro. Mostrou a carta de convite à tia Plutarco, trémulo de alegria, e exclamou:
— Estamos salvos!
No dia marcado apresentou-se em casa do ministro, notando, porém, que os agaloados criados mostravam certo ar de admiração ao aspecto da sua desbotada
gravata, do seu casacão pouco moderno e dos seus sapatos engraxados com saliva.
Ninguém lhe falou, nem mesmo o ministro, porém não se deu por despedido e esperou.
Às dez horas da noite passou a mulher do ministro, formosa dama, decotada, de quem o pobre velho não ousou aproximar-se, e perguntou a um dos criados:
— Quem é aquele velhito que ali está?
A meia-noite, cansado de esperar, recolheu-se a casa, a pé, debaixo de água e em extremo contristado. À ida fora de sege, porém vera de vender para a pagar um Elzevir, que era ainda um dos ornamentos da sua quase exausta biblioteca.
À noite, antes de se deitar, Mabeuf lia sempre algumas páginas do seu Diógenes Laércio. Era um hábito que contraíra e de que nem as suas privações lhe davam vontade de desfazer-se.
Bastante versado na língua grega, estava, portanto, apto para apreciar todas as minuciosidades do texto que possuía, e, actualmente, também era esse o seu único passatempo. Assim decorreram algumas semanas. De repente, a pobre velha que o servia adoeceu. Há ainda coisa mais triste do que não ter com que comprar pão ao padeiro: é não possuir meios para pagar os remédios ao bo cário. Uma ocasião, à noite, veio o médico e receitou uma beberagem em extremo cara. Como se isto não bastasse, a molés a agravava-se e o estado da doente estava reclamando a assistência de uma enfermeira. Mabeuf dirigiu-se à sua biblioteca, abriu-a, e a biblioteca estava vazia.
O derradeiro volume nha seguido o caminho dos outros. Restava-lhe pura e simplesmente o apreciável e apreciado Diógenes Laércio.
Era no dia 4 de Junho de 1832. Meteu o exemplar único debaixo do braço e saiu.
Dirigiu-se à porta de S. Jacques e voltou para casa com cem francos no bolso.
Encaminhou-se ao quarto da velha enferma, pousou o rolo dos cem francos em cima do velador e recolheu-se ao seu quarto, sem proferir uma palavra.
Ao outro dia, apenas amanheceu, ergueu-se, foi-se sentar para o jardim no pião derrubado, que arvorara em banco, e aí o poderia ver quem espreitasse por cima da sebe, toda a manhã, imóvel, com a cabeçapendida para o peito, os olhos vagamente fixos nos descurados alegretes e em tal estado de abstracção, que nem da chuva, que de espaço a espaço caía, parecia dar fé.