Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 340 de 359

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Os Miseráveis

VI — Como os dois velhos, cada um a seu modo, empregam toda a sua diligência em tornar Cosette feliz

Tinha uma enxada escondida no mato, num esconderijo só dele conhecido.

Ao ver Mário em convalescença, julgou que era chegada a hora em que aquele dinheiro podia ser ú l e fora buscá-lo; foi ele, pois, o homem que Boulatruelle viu no bosque, porém desta vez de manhã e não de tarde. Boulatruelle ficou herdeiro do alvião.

A soma real eram quinhentos e oitenta e quatro mil e quinhentos francos. Jean Valjean guardou para si os quinhentos francos.

— Depois veremos — disse ele consigo.

A diferença entre esta soma e a de seiscentos e trinta mil francos rada de casa de Laffite representava a despesa de dez anos, isto é, desde 1823 a 1833. Os cinco anos passados no convento apenas tinham custado cinco mil francos.

Chegado a casa, Jean Valjean pusera os dois cas çais de prata na pedra do fogão, onde Toussaint os via luzir com grande admiração.

Quanto a Javert, sabia Jean Valjean que estava livre dele. Ouvira dizer e depois

verificara no «Monitor» que entre a Pont-au-Ghange e a Ponte Nova nha aparecido o cadáver de um inspector de polícia chamado Javert, e que, a julgar por um escrito que esse homem, aliás irrepreensível e muito es mado de seus superiores, nha deixado, parecia que um acesso de loucura o tinha impelido ao suicídio.

— Em verdade — disse Jean Valjean — também assim o acredito. A não ser por loucura, não sei explicar como ele me deixasse, depois de estar senhor de mim.

VI — Como os dois velhos, cada um a seu modo, empregam toda a sua diligência em tornar Cosette feliz

Principiaram os preparativos para o casamento.

Foi consultado o médico e este respondeu que poderia ter lugar em Fevereiro.

Estava-se em Dezembro. Assim decorreram algumas semanas de perfeita ventura, O menos feliz não era Gillenormand. O pobre velho ficava às vezes horas inteiras em contemplação diante de Cosette.

— Que perfeição de rapariga! — exclamava ele, extasiado. — Que gesto tão afável, tão cheio de bondade! Tenho dito e não admito réplica: é a jovem mais bonita que meus olhos têm visto! Lá para diante, será um ramalhete de virtudes, perfumadas de violeta!

Oh, parece uma das três Graças! Com uma criança assim não pode a gente deixar de nutrir nobres sen mentos! Olha, Mário, és barão, estás rico, sê também bom rapaz; peço-te que deixes de andar a arengar pelos tribunais!

Cosette e Mário tinham passado repentinamente do sepulcro para o paraíso.

— A transição, de rápida que foi, deixá-los-ia atordoados, se os não tivesse extasiado.

— Tu sabes como isto foi? — dizia Mário para Cosette.

— Não — respondia Cosette — mas afigura-se-me que Deus nos contempla.

Jean Valjean desfez, aplanou, destruiu todos os obstáculos, conciliou todas as dificuldades, tornou tudo fácil. Apressava a realização da ventura de Cose e com tanto afã e, na aparência, com tanta alegria como a própria Cosette.

Como havia sido maire, soube resolver um problema di cil, cujo segredo só ele sabia: o estado civil de Cosette.

Declarar francamente a origem da jovem — quem sabe? — talvez fosse um obstáculo ao casamento.

Resolveu livrá-la destas dificuldades, arranjando-lhe uma família de mortos, meio seguro de não ver surgir reclamação alguma.

Cose e era o único membro de uma família ex nta, e não sua filha, mas filha de um outro Fauchelevent.

Procedeu-se a informações no convento da Adoração Perpétua, da rua das Postas, onde tinham estado na qualidade de jardineiros dois irmãos de apelido Fauchelevent.

Recorreram àquele convento e ali abundaram as melhores e mais respeitáveis informações; as excelentes religiosas, pouco aptas e pouco inclinadas a sondar as questões de paternidade, e não vendo em semelhante coisa menor sombra de malícia, não tinham nunca sabido ao certo qual dos dois Fauchelevent era pai de Cosette.

Disseram tudo que se queria, e disseram-no com zelo.

Disto tudo lavrou-se um auto. Cose e tornou-se, perante a lei, Eufrásia Fauchelevent,

e foi declarada órfã de pai e mãe. Jean Valjean dispôs as coisas de modo que fosse, sobre o nome de Fauchelevent, designado tutor de Cose e, com o senhor Gillenormand como subtutor.

Quanto aos quinhentos e oitenta e quatro mil francos provinham do legado deixado a Cosette por uma pessoa já falecida e que desejara ficar desconhecida.

O legado primi vo fora de quinhentos e noventa e quatro mil francos, mas dez mil haviam sido despendidos na educação da menina Eufrásia, dos quais cinco mil nham sido pagos ao convento.

Este legado, depositado nas mãos de um terceiro, devia ser entregue a Cose e quando chegasse à sua maioridade, ou quando se casasse.

Todo este conjunto de coisas, era, como se vê, muito aceitável, sobretudo com o apêndice de mais de meio milhão.

Havia decerto nele algumas singularidades, mas ninguém as via. Um dos interessados tinha os olhos vendados pelo amor, os outros pelos seiscentos mil francos.

Cose e soube que não era filha daquele velho a quem por tanto tempo chamara pai e que lhe não era mais do que um parente; o seu verdadeiro pai era outro Fauchelevent.

Esta descoberta, noutra qualquer ocasião, tê-la-ia desconsolado. Mas na inefável quadra em que se achava, não foi mais do que uma sombra, um ligeiro escurecimento; e era tão grande a sua alegria que em breve se lhe desvaneceu a ténue nuvem.

Tinha Mário, que lhe faltava?

À chegada do mancebo desaparecia o ancião; a vida é assim.

E depois, havia muitos anos que Cose e estava habituada a ver-se rodeada de enigmas. O ente cuja infância foi misteriosa, acha-se sempre pronto para certas renúncias.

Todavia continuou a chamar pai a Jean Valjean.

Cose e sen a-se entusiasmada pelo avô Gillenormand, que a sobrecarregava de madrigais e de presentes.

Enquanto Jean Valjean dispunha para Cose e uma situação normal na sociedade e a posse de uma situação inexpugnável, velava o senhor Gillenormand pelo enxoval. Nada o divertia tanto como ser magnífico.

Tinha dado a Cose e um ves do de rendas de linho de Binche, que pertencera a sua avó.

— Estas modas estão renascendo — dizia ele — as an qualhas estão fazendo furor, e as jovens da minha velhice estão-se vestindo como as velhas da minha infância.

Quem pagava estas generosidades eram as suas respeitáveis cómodas abauladas, de que já não havia memória que tivessem sido abertas.

— Confessemos estas velhas — dizia ele — vejamos o que têm no abdómen.

Violava ruidosamente as barrigudas gavetas cheias de vestuário. Ce ns, damascos, cassas pintadas, ves dos de seda de Tours, cor de logo, lenços da Índia bordados de oiro, mas de um oiro que podia lavar-se, bordados de Génova e de Alençon, jóias de an ga ourivesaria, bocetas de marfim, lavrado representando batalhas em ponto microscópico, vestidos, fitas, prodigalizava tudo a Cosette.

A jovem maravilhada, transportada de amor por Mário e cheia de gra dão para com Gillenormand, sonhava uma ventura sem limites, ves da de veludo e de ce m.

Afigurava-se-lhe ver os serafins pondo-lhe na cabeça a sua grinalda de noiva. Parecia-lhe que voava para o céu, sustentada por asas de renda de Malines

A embriaguez dos dois jovens, como já dissemos, só podia ser igualada pela alegria louca de Gillenormand.

Era um delírio completo naquela casa.

Não se passava um dia sem que o bom velho oferecesse algum brinde a Cose e. Era um estendal esplêndido em torno da jovem.

Gillenormand às vezes punha-se a discorrer sobre os seus presentes.

— O amor é uma excelente coisa — dizia ele — mas desacompanhado destas bugigangas não presta para nada! O inú l torna a felicidade completa. Se a limitais ao necessário, adeus ventura! Quantas mais superfluidades melhor. Um palácio é o seu coração. O seu coração e o Louvre. O seu coração e os lagos de Versalhes. Dai-me a minha pastora, mais vede se arranjais a fazer-ma duquesa. Dai-me Philis coroada de boninas, mas assegurai-lhe cem mil libras de renda. Abri-me uma bucólica sem fim num peris lo de mármore. Aceito a bucólica e também o prodígio de mármore e ouro. A felicidade desacompanhada é como o pão seco. Come-se, mas não se janta. Quero o supérfluo, o inú l, o extravagante, o demasiado, O que não serve de nada. Lembra-me ter visto na catedral de Estrasburgo um relógio da altura de uma casa de três andares, que dava horas, que fazia favor de dar horas, mas que parecia não ter nascido para semelhante fim, e que, depois de dar meio-dia, ou meia-noite — meio-dia, a hora do Sol meia-noite, a hora do amor — ou, finalmente, qualquer hora mostrava a Lua e as estrelas, a terra e o mar, os pássaros e os peixes, Phebo e Phebe, e uma trapalhada de coisas, que saíam de um nicho, como os doze apóstolos, o imperador Carlos V, Eponina e Sabino, e uma chusma de homenzinhos dourados tocando trombeta, para remate da coisa! Já não falo na imensidade de repiques com que a todo o instante se punha a atroar os ouvidos à gente quando menos se esperava. Porventura um reles relógio, que só marca as horas e mais nada, tem lá comparação com este? Eu cá sou da opinião do enorme relógio de Estrasburgo, que prefiro aos reloginhos de cuco da Floresta Negra.

Gillenormand levava a barra ainda mais além, principalmente em se tratando da boda, sobre a qual ele falava, misturando com os seus di rambos todos os enxovais do século XVIII.

— Vocês não sabem nada da arte das festas! Já não há quem seja capaz de fazer um dia de alegria, Este século XIX não vale um cei l! Não sabe o que é magnificência, grandeza, opulência. Em tudo mostra a sua sovinice! O vosso terceiro estado é insípido, incolor, inodoro e informe. O sonho das vossas burguesas que se estabelecem, como elas dizem, é um lindo camarim, forrado e mobilado de novo, sabe Deus como. Aí vai! Deixem passar! É o senhor Grigou casado com a senhora Grippesou. Sumptuosidade e esplendor.

Um luís de ouro pregado numa tocha! Aí está O que é esta época! Oh, desde 1787 que eu profe zei que estava tudo perdido, quando vi vir a Longchamps, numa sege, que parecia uma capoeira, o duque de Rohan, príncipe de Leão, duque de Chabot, duque de

Montbazon, marquês de Soubise, visconde de Thouars, par de França. O resultado aí o têm! Hoje em dia todos negoceiam, todos jogam na Bolsa, todos ganham dinheiro e não passam da cepa torta! Só põem esmero em andar lavadinhos, ensaboados, barbeados, penteados, embanhados, frisados, perfumados, escovados, polidos como um seixo, asseadinhos e lépidos, tudo isto por fora, que por dentro, Deus me perdoe!, trazem cada camada de esterco na alma, que fariam deitar a fugir qualquer lapónio que se assoa aos dedos! Outorgo ao tempo de agora a divisa: «Asseio porco». Não me leves isto a mal, Mário; deixa-me falar; eu não digo mal do povo, antes, como vês, quero-lhe muito; o meu fim — é, por conseguinte, não te zangues — é pura e simplesmente dar uma tunda na burguesia. Eu sou burguês, mas amigos, amigos, negócios à parte; primeiro está a verdade. À vista disto, declaro alto e bom som, que hoje em dia todo o mundo se casa, mas ninguém se sabe casar! Oh, dantes é que era! Tenho saudades da galanteria dos an gos costumes. Tenho saudades de tudo! Daquela elegância cavalheiresca, daquelas maneiras corteses, daquele luxo fes vo que todos ostentavam, a música fazendo parte da boda, sinfonia em cima, tamborinagem em baixo, danças, rostos alegres em volta da mesa, madrigais alambicados, canções, fogos de ar

cio, risadas, fitas, laços, o diabo a

quatro e trinta por uma linha! Tenho saudades da liga da noiva. A liga da noiva é prima da cinta de Vénus. Qual foi a causa da guerra de Tróia? Ora é muito boa! A liga de Helena. Qual é a causa de todas as guerras? Porque é que Diodemó o divino despedaça na cabeça de Merioneu aquele grande capacete de bronze de dez pontas? Porque é que Aquiles e Heitor se trespassam às lançadas? Porque Helena deixou que Paris lhe roubasse a liga. A liga de Cose e daria assunto a Homero para outra Ilíada, em que figuraria um velho tagarela como eu, a que ele daria o nome de Nestor. No tempo que já lá vai, com bem pena minha, os meus amigos sabiam como corriam estas coisas de casamentos. Em seguida ao casamento, um regabofe. Apenas Cujacio saía, entrava Gamache. Como, assim não havia de ser, se o estômago é um animal agradável que não abdica os seus direitos e também quer ter a sua boda? Ceava-se regaladamente e cada qual nha a seu lado uma bela, moderadamente decotada. Aquilo é que eram tempos!

A mocidade era um ramalhete; não havia um mancebo que não terminasse por um ramo de lilases ou por um festão de rosas; até os guerreiros eram pastores; e se, por acaso, havia algum capitão de dragões, lá arranjava a chamar-se Florian. Havia interesse em ser bonito. Todos se cobriam de bordados e arrebiques. Os burgueses pareciam flores, os marqueses cofres de pedrarias. Não se usavam presilhas nem botas. Andávamos com uns palmitos, o que não obstava a que se puxasse pela espada quando era preciso. O beija-flor tem bico e unhas. Era o tempo das Índias falantes. Um dos caracterís cos desse século era a delicadeza, o outro, a magnificência, e, Deus me perdoe, a gente diver a-se.

Hoje tudo é seriedade. O burguês é avarento, a burguesa beata. Que século tão desgraçado o actual! Se hoje em dia se apresentassem as Graças, seriam corridas por crime de lesa-hones dade! A que tempo chegámos, que até as belezas se ocultam, como se foram fealdades! Desde a revolução para cá, começou tudo a andar de calça, inclusive as dançarinas; uma bailarina deve ser grave; as danças deste tempo são doutrinárias.

Todos querem tomar ares majestosos. O seu gosto é andar aprumados na gravata

inflexível. O ideal do galopim de vinte anos que se casa é parecer-se com o senhor Royer-Collard. E quereis saber o que conseguem com a sua majestade? Tornar-se ridículos.

Olhai, a alegria não consiste só no prazer, consiste também na grandeza. Mas amai jovialmente, com mil diabos! Casai, se quiserdes casar, com a febre e o atordoamento, com o estrondo e o alarido do prazer! Quereis portar-vos com gravidade na igreja?

Concedido. Mas, apenas termine a missa, viva Deus!, deixai girar um sonho em torno da desposada! Um casamento deve ser real e quimérico; deve principiar na catedral de Reims e findar no pagode de Chanteloup. Eu não posso ver casamentos à capucha!

Valha-vos um dardo! Pois nem ao menos por um dia quereis subir ao; Olimpo! Tornai-vos deuses! Para que haveis de ficar mesquinhos, podendo transformar-vos em silfos, brincos, risos, argiráspides! Meus amigos, um noivo deve tornar-se um príncipe Aldobrandini. Aproveitai este instante, único na vossa vida, para subirdes ao empíreo com os cisnes e as águias, embora no dia seguinte tenhais de tornar a cair na burguesia das rãs. Não sejais económicos com o Himeneu nem lhe cerceeis os esplendores; não regateeis no dia da vossa maior sa sfação. A boda não tem nada com o viver domés co.

Oh, se as coisas corressem à medida da minha fantasia, havíeis de ver o bonito; até as árvores ressoariam como instrumentos! O meu programa era este: azul e prata, Assis ram à festa as divindades agrestes; convocaria as dríades e as nereidas. As núpcias de Anfitrite, uma nuvem cor-de-rosa, ninfas nuas, um académico oferecendo quadras à deusa, um carro puxado por monstros marinhos.

Tristão trotava adiante e com seu búzio

Tão gratos sons desferia, que assombravam!

Eis aqui o programa de festa, ou eu, com um milhão de diabos, não sei onde tenho o nariz!

Enquanto Gillenormand, em plena efusão lírica, se dilatava nestas considerações, Mário e Cosette embriagavam-se, olhando-se livremente.