Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 111 de 359

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Os Miseráveis

IV — Evasão às apalpadelas

Eis o que este bairro era no século passado. A revolução já o havia maltratado bastante, A municipalidade republicana demolira-o, esburacara-o, desmoronara-o. Há trinta anos este bairro, ul mamente conver do em depósitos de entulho, desaparecia sob os borrões das novas construções. Hoje o traço que lhe passaram por cima escondeu-o totalmente.

O Pe t-Picpus, de que em planta nenhuma actual restam ves gios, está claramente indicado na planta de 1827, impressa em Paris na oficina de Diniz Thierry, rua de S.

Tiago, defronte da rua do Gesso, e em Lyon na de Jean Girin, rua dos Capelistas, à Prudência. O Pe t-Picpus era o que acima chamamos um Y de ruas, formado pelo Caminho Verde de Santo António, que se apartava em duas ramificações, das quais a esquerda tomava o nome de viela do Picpus e a direita o de rua de Polonceau. As duas hastes do Y eram reunidas no seu ápice como que por uma barra, que se chamava a rua do Muro Direito, onde vinha terminar a rua de Polonceau.

Quanto à viela do Picpus, passava adiante, subindo em direcção ao mercado de Lenoir.

Quem, ao vir do Sena, chegava à extremidade da rua de Polonceau, encontrava à esquerda a rua do Muro Direito, que fazia rapidamente volta em ângulo recto, em frente à parede desta rua e à direita um prolongamento truncado da rua do Muro Direito, sem

saída, chamado o beco de Genrot.

Era onde estava Jean Valjean.

Como acabamos de dizer, este, ao descobrir o perfil negro, de vigia à esquina da rua do Muro Direito e da viela do Picpus, recuou. Não restava dúvida nenhuma. Era espiado por aquele fantasma.

Que fazer?

Já não era tempo de retroceder. O que ele pouco antes vira por trás de si agitar-se na sombra a alguma distância era, sem dúvida, Javert e a sua escolta. Javert já de certo estava no princípio da rua, em cuja extremidade se achava Jean Valjean. Javert, que, segundo todas as aparências, conhecia aquele pequeno dédalo, tomara as suas precauções, mandando guardar a saída dele por um dos seus homens. Estas conjecturas, tão parecidas a evidências, tumultuaram logo como um punhado de pó arrebatado por uma súbita rajada de vento no doloroso cérebro de Jean Valjean. Examinou, portanto, o beco de Genrot; deste lado, a passagem tapada. Examinou a viela do Picpus; deste lado, uma sen nela, cuja figura escura ele via destacar-se em negro sobre o pavimento inundado pela luz branca da Lua. Avançar, era cair nas mãos daquele homem; recuar, era lançar-se nas de Javert. Ao sen r-se como que apanhado numa rede, que se ia lentamente apertando, Jean Valjean fitou os olhos no céu com uma expressão de angústia desesperada.

IV — Evasão às apalpadelas

Para compreender o que em seguida se vai ler, é necessário que o leitor tenha uma ideia exacta da viela do Muro Direito, e par cularmente da esquina que deixava à esquerda quem saía da rua de Polonceau para entrar nesta viela. Do lado direito, a viela do Muro Direito era quase toda orlada por casas de pobre aparência, que se estendiam até à viela do Picpus; do lado esquerdo por um só edi cio de uma linha severa, composto de muitas moradas, que gradualmente se iam elevando à altura de um andar, consoante se iam aproximando da viela do Picpus; de modo que este edi cio, elevadíssimo do lado desta viela, do lado da rua de Polonceau era bastante baixo, e tanto que no sí o da esquina de que acima falamos só nha um muro. Este muro, porém, não ia terminar em esquadria com a rua; fazia um recanto muito me do para dentro, que as duas esquinas tornavam invisível a quem se achasse na rua de Polonceau e na rua do Muro Direito.

A par r das esquinas do recanto formado pelo muro, prolongava-se este pela rua de Polonceau até uma casa com o número 49 e pela rua do Muro Direito, onde o lanço correspondente era mais estreito, até ao edi cio escuro de que acima falámos, ao qual cortava a empena, formando deste modo um novo ângulo reentrante na rua. A empena deste edi cio era de um aspecto pesadamente triste; via-se-lhe apenas uma janela, ou, para melhor dizer, dois pos gos reves dos de uma folha de zinco, que se conservavam constantemente fechados.

A planta que aqui levantamos, e cuja rigorosa fidelidade ninguém nos contestará, há-de despertar de certo uma lembrança exac ssima no espírito dos an gos moradores daqueles sítios.

O recanto de que acima fizemos menção era completamente pejado por uma coisa semelhante a uma porta colossal e miserável. Era um agregado informe de tábuas perpendiculares, presas por compridos gatos de ferro transversais. Ao lado havia uma porta de carro de dimensões ordinárias, cuja abertura evidentemente se conhecia que não datava de há cinquenta anos.

Por cima do recanto via-se a ramagem de uma lia e do lado da rua de Polonceau o muro todo coberto de hera.

No perigo iminente em que Jean Valjean se achava, o aspecto solitário daquele edi cio, que lhe parecia desabitado, tentava-o. Percorreu-o, pois, rapidamente com a vista, dizendo consigo que se chegasse a penetrar nele, decerto se salvaria. Ocorreu-lhe logo uma ideia e com ela sentiu nascer-lhe uma esperança.

Na parte média da frente do edi cio, que deitava para a rua do Muro Direito, havia em todas as janelas diversas ordens de caleiros de chumbo. As variadas ramificações dos canos, que iam de um cano central terminar a todos estes caleiros, desenhavam uma espécie de árvore. Estas ramificações de tubos com os seus cem cotovelos imitavam os troncos de vide velhos e despojados de folha que serpenteiam em mil voltas pelos frontispícios das antigas herdades.

Esta estranha ramada de ramos de lata e ferro foi o primeiro objecto que impressionou Jean Valjean. Colocou Cose e encostada a uma pedra, recomendando-lhe silêncio, e correu para o sí o onde o cano vinha tocar o chão. Talvez que por ali houvesse meio de subir e entrar na casa. O cano, porém, estava quebrado e inu lizado, porque mal se segurava pela soldadura. Além disso, todas as janelas daquela silenciosa morada eram gradeadas com espessos varões de ferro, até mesmo as águas-furtadas. E, demais, a Lua ba a de chapa na frontaria da casa e o homem que observava Jean Valjean da extremidade da rua tê-lo-ia visto subir. E, finalmente, que fazer de Cosette?

Como içá-la ao alto de uma casa de três andares?

Jean Valjean renunciou, pois, a trepar pelo cano e foi de rojo ao longo da parede, até tornar a entrar na rua de Polonceau.

Ao chegar ao recanto onde deixara Cosette, notou que ali ninguém o podia ver.

Ali escapava a todos os olhares, de qualquer parte que eles viessem. Além disto, ficava encoberto com a sombra. Finalmente, havia duas portas, que talvez fosse possível arrombar. A parede, por cima da qual Jean Valjean via a lia e a hera, dava decerto para algum jardim, onde ao menos se poderia esconder, posto que as árvores ainda não tivessem folha, e passar o resto da noite.

O tempo corria, era urgente uma resolução qualquer.

Chegou-se à porta de dimensões ordinárias, apalpou-a e reconheceu que estava tão inutilizada por dentro como por fora.

Acercou-se então da outra porta grande com mais esperança; e como esta era terrivelmente decrépita e a sua própria imensidade a tornava menos sólida, como as tábuas estavam podres e as ligaduras de ferro, de que só restavam três, se achavam comidas de ferrugem, pareceu-lhe possível penetrar naquela carunchosa clausura.