Os Miseráveis
II — Fantine feliz
A irmã Simplícia não nha espelho, mas abriu um estojo de cirurgia e rou um espelhinho de que se servia o médico da enfermaria para se convencer de que qualquer doente estava morto vendo que já não respirava.
Madelaine pegou no espelho, viu nele os cabelos e disse:
— É verdade!
Esta palavra pronunciou-a ele com indiferença e como que pensando noutra coisa. A irmã de caridade sen u-se gelada pelo que quer que era de desconhecido, que lhe parecia entrever em tudo aquilo.
— Posso vê-la? — perguntou ele.
— Mas o senhor maire não lhe manda buscar a filha? — disse a irmã, ousando apenas arriscar-se a uma pergunta.
— Sem dúvida, mas para isso são necessários dois ou três dias.
— Então, se ela daqui até lá não vir o senhor maire — tornou midamente a irmã —
não saberá que já voltou e mais facilmente se obterá que se resigne; quando a criança chegar pensará naturalmente que foi o senhor maire quem a trouxe. Deste modo não haverá mentira.
Madelaine pareceu reflectir um instante e disse depois com gravidade e sossego:
— Não, minha irmã, preciso vê-la. Não poderei talvez demorar-me.
A religiosa pareceu não notar a palavra talvez e respondeu respeitosamente, baixando os olhos:
— Ela está a descansar, mas o senhor maire pode entrar. Madelaine fez algumas observações sobre uma porta que se fechava mal e que produzindo bulha podia despertar a doente, em seguida entrou no quarto de Fan ne, aproximou-se do leito e entreabriu as cortinas.
Estava a dormir.
A respiração saía-lhe do peito com o ruído trágico próprio daquelas doenças, e que faz esmorecer as pobres mães que velam à cabeceira de um filho adormecido, apesar de condenado. Mas esta respiração di cil mal lhe perturbava uma espécie de serenidade inefável espalhada em todo o rosto e que a transfigurava enquanto dormia.
Fan ne nha as faces vermelhas e o que era palidez convertera-se em brancura. As compridas pestanas loiras, única beleza que lhe restava da sua virgindade e juventude, apesar de cerradas e baixas, palpitavam. Toda ela tremia como que um abrir de asas prestes a levantar voo e a levá-las, asas que se sen am agitar, mas que não se viam.
Quem a visse daquele modo não poderia acreditar que era uma enferma quase sem esperança. Assemelhava-se mais ao que está para voar do que ao que está para morrer.
O arbusto, quando a mão se lhe aproxima para lhe rar a flor, estremece, e parece ao mesmo tempo esquivar-se e oferecer-se. O corpo humano par cipa um tanto desse estremecimento quando chega o instante em que os dedos misteriosos da morte lhe vão colher a alma.
Madelaine conservou-se por algum tempo imóvel junto do leito, olhando simultaneamente para a doente e para o crucifixo, como o fizera dois meses antes, no dia em que fora pela primeira vez visitá-la àquele asilo. Estavam ainda ambos, na mesma a tude, ela dormindo, ele orando; a diferença era que agora, e depois desses dois meses, tinha ela os cabelos grisalhos e ele tinha-os brancos.
A irmã não entrara juntamente com Madelaine. Este estava, pois, junto do leito, de pé, e com um dedo sobre os lábios, como se quisesse impor silêncio a alguém que es vesse no quarto. Entretanto, Fan ne abriu os olhos, e ao vê-lo ali, disse-lhe, sorrindo com serenidade:
— E Cosette?
II — Fantine feliz
Fan ne não fez um só movimento de surpresa nem de alegria. Aquela simples pergunta, E Cose e?, foi feita com uma fé tão profunda, com tanta certeza, com tão completa ausência de inquietação e de dúvida, que Madelaine não achou uma única palavra que lhe responder.
Fantine continuou:
— Eu já sabia que o senhor se encontrava aí, estava a dormir, mas via-o. Há muito tempo que o estava vendo; segui-o com os olhos toda a noite. O senhor estava no centro de uma auréola brilhante e tinha em volta de si toda a espécie de figuras celestes.
Madelaine ergueu os olhos para o crucifixo.
— Mas — con nuou ela —, diga-me, onde está Cose e? Por que não a pôs sobre a minha cama, para que eu a visse assim que acordasse?
Madelaine respondeu-lhe o que quer que foi de que mais tarde não pôde lembrar-se.
Felizmente chegou o médico, que nha sido prevenido e que acudiu em auxílio de Madelaine.
— Sossegue, minha filha. A menina está ali.
Os olhos de Fan ne iluminaram-se e inundaram-lhe de luz todo o rosto. Juntou ao mesmo tempo as mãos com uma expressão que con nha tudo o que na súplica pode haver de mais violento e mais suave.
— Tragam-ma! — exclamou ela.
Enternecedora ilusão maternal! Cose e con nuava a ser para ela a criancinha de colo.
— Por ora não, porque ainda tem febre — tornou o médico. — A presença de sua filha agitá-la-ia e far-lhe-ia mal. É preciso, primeiro que tudo, restabelecer-se.
Fantine interrompeu-o impetuosamente:
— Mas eu já estou boa! Afianço-lhe que já não tenho nada! É tolo este médico!
Então... quero ver minha filha!
— Bem vê — disse o médico — o modo porque se inquieta. Enquanto es ver nesse estado hei-de opor-me sempre a que lhe deixem ver amenina. Não é bastante vê-la, é preciso que viva para ela. Quando se mostrar mais razoável eu mesmo lha trarei.
A pobre mãe curvou a cabeça.
— Perdoe-me, senhor doutor, peço-lhe que me perdoe. Noutro tempo não teria falado como o fiz agora, mas têm-me sucedido tantas desgraças que às vezes nem sei o que digo. Compreendo muito bem, o senhor receia alguma comoção; esperarei quanto quiser, mas juro-lhe que me não faria mal vê-la. Eu vejo-a, desde ontem à noite que não ro os olhos dela. Quer até que lhe diga? Se ma trouxessem agora falar-lhe-ia muito devagarinho. Aí está. Pois não é natural que eu deseje ver a minha filha, a quem expressamente foram buscar a Mon ermeil? Eu não estou zangada. Tenho acerteza de que vou ser feliz. Toda a noite es ve vendo coisas brancas e rostos que se sorriam para mim. Quando o senhor doutor quiser, traga-me Cose e. Já não tenho febre, já estou curada, sei muito bem que não tenho nada, mas vou estar como se me achasse doente: não me hei-de mexer, para fazer a vontade às senhoras que aqui estão. Quando virem que estou muito tranquila, hão-de dizer: não há remédio senão entregar-lhe a filha.
Madelaine sentou-se numa cadeira que estava ao lado da cama, Fan ne voltou-se para ele, fazendo visíveis esforços para parecer tranquila e prudente,como ela dizia com o enfraquecimento da doença que se assemelha à infância, a fim de que, vendo-a tão pacífica, não tivessem dificuldade em lhe levarem Cosette.
Entretanto, mesmo contendo-se, não podia abster-se de dirigir a Madelaine
intermináveis perguntas:
— Foi boa a sua jornada, senhor maire? Que bondade a sua em ir buscá-la! Diga-me só como ela está. Veio bem pelo caminho? Decerto não me conhece? Há tanto tempo, por força se esqueceu de mim, pobre anjinho! As crianças não têm memória, são como os passarinhos. Hoje vêem uma coisa, amanhã outra, e não pensam em nada. E ela tem roupa branca? Os Thenardier traziam-na limpa? Alimentavam-na bem? Se soubesse como eu sofria dirigindo a mim mesma todas estas perguntas no meio da minha miséria!
Agora já não é assim! Estou muito alegre! Como eu desejo vê-la! Achou-a bonita, senhor maire? Não é bonita a minha filha? O senhor havia de sen r bastante frio na diligência.
Não ma podiam trazer só por um bocadinho? Levavam-na logo outra vez! Diga, senhor maire! Se o senhor quisesse! O senhor é quem manda aqui!
Madelaine pegou-lhe na mão.
— Cose e é bonita — disse ele — e passa excelentemente. Há-de vê-la em breve, mas por agora sossegue. Está falando com muita vivacidade e depois descobre os braços, o que lhe faz aumentar a tosse.
Com efeito, a tosse interrompia-a de momento a momento.
Fan ne não respondeu coisa alguma, receou ter comprome do por algumas expressões demasiadamente apaixonadas a confiança que desejava inspirar, e passou a dizer coisas indiferentes.
— Mon ermeil é uma terra bonita, não é verdade? No Verão vai lá muita gente passear. Os Thenardier fazem negócio? Por ali há pouco trânsito, e depois a estalagem que eles têm é uma espécie de baiuca.
Madelaine segurava-lhe ainda a mão e contemplava-a com angús a. Era evidente que fora ali para lhe dizer coisas, perante as quais o pensamento parecia hesitar.
O médico, tendo feito a sua visita, retirara-se. Só ficara junto deles a irmã Simplícia!
De repente, no meio do silêncio, Fantine exclamou:
— Oiço-a, meu Deus! Oiço-a!
Estendeu os braços para que se conservassem silenciosos, conteve a respiração e aplicou ouvido como escutando.
Era uma criança que andava a brincar no pá o, talvez a filha de alguma operária. Era este um dos acasos que se encontram sempre e que parece fazerem parte do misterioso cenário dos acontecimentos lúgubres. A criança era uma rapariguinha, que andava correndo de um lado para o outro, rindo e cantando em voz alta. Ah! Ao que se aliam muitas vezes os brinquedos de crianças! Era esta pequenina que Fantine ouvia cantar.
— É a minha Cosette! — tornou ela. — Bem lhe conheço a voz!