Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 359 de 359

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Os Miseráveis

VI — A erva esconde e a chuva apaga

São par lhas feitas por Deus, que está lá em cima, que nos vê a todos, e que sabe o que faz no meio das suas grandes estrelas. Vou-me, meus filhos. Amem-se sempre muito.

Não têm já no mundo outra coisa a fazer senão amarem-se. De vez em quando lembrar-se-ão do pobre velho que aqui morreu. Ó minha Cose e, não fui culpado, vamos, de te não ver sempre durante este úl mo tempo, o que me fazia estalar o coração; ia até à esquina da rua e devia produzir extraordinário efeito à gente que me via passar; andava como louco; uma vez até saí de casa sem chapéu. Meus filhos, já não estou a Ver muito bem; nha ainda muitas coisas a dizer, mas é o mesmo. Lembrem-se um pouco de mim.

São entes abençoados. Não sei o que tenho, estou vendo luz. Cheguem-se mais. Morro feliz. Deixem-me pôr as mãos sobre as suas queridas cabeças.

Cose e e Mário ajoelharam, desorientados, sufocados pelas lágrimas, cada um sob uma das mãos de Jean Valjean. Aquelas mãos augustas já não se moviam.

Tinha-se encostado para trás; a luz dos dois cas çais iluminavam-no; o seu rosto descorado olhava para o céu e deixava Cose e e Mário cobrir-lhe as mãos de beijos; estava morto.

A noite não tinha estrelas e era profundamente escura.

Sem dúvida, no meio da sombra, estava de pé algum anjo imenso de asas abertas, esperando a alma.

VI — A erva esconde e a chuva apaga

No cemitério do Père-Lachaise, nas proximidades da vala comum, longe do bairro elegante daquela cidade dos sepulcros, longe de todos aqueles túmulos de fantasia, que ostentam em presença da eternidade as hediondas modas da morte, num canto deserto, ao pé de um velho muro, debaixo de um grande teixo, reves do de trepadeiras, entre moitas de erva e de musgo, há uma pedra. Esta pedra não está mais isenta que as outras das lepras do tempo, do bolor, de musgo e do excremento dos passarinhos. A água torna-a esverdinhada, o ar enegrece-a.

Não está próxima de nenhum caminho e ninguém vai para o lado dela, porque a erva ali é alta e num momento se molham os pés. Quando há Sol vão ali os lagartos. Em torno há um estremecimento de folhagem.

Na Primavera cantam nas árvores as toutinegras.

Esta pedra está completamente nua,

Não pensaram talhá-la, senão no que era necessário para o túmulo; só veram em vista fazê-la bastante comprida e estreita, para que só cobrisse um homem.

Não tem nome nenhum.

Há já bastantes anos, porém, houve quem escrevesse nela a lápis estes quatro versos, que a pouco e pouco se tornaram ilegíveis, pela acção da chuva e da poeira, e que decerto estão hoje de todo apagados:

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