Os Miseráveis
IX — Clausura
Esta aventura engrandeceu o bondoso Fauchelevent, que teve um tríplice sucesso: com Jean Valjean a quem salvou e deu guarida; com o coveiro Gribier, que dizia a sós consigo: «Aquele homem foi causa de eu não pagar a multa»; e com o convento, que, ficando, graças a ele, de posse do corpo da madre Crucificação, iludiu a César e sa sfez a Deus. Ficou um caixão com cadáver no Pe t-Picpus e foi um caixão sem cadáver para o cemitério de Vaugirard; a ordem pública de certo foi profundamente perturbada com isso, mas não deu por tal coisa. Quanto ao convento, foi grande o reconhecimento de que se sen u dominado para com Fauchelevent. Fauchelevent tornou-se o melhor dos
servidores e o mais precioso dos jardineiros Na visita imediata do arcebispo, a prioresa contou o caso a sua grandeza, parte confessando-se, parte também gabando-se, e na saída do convento o arcebispo repe u-o em voz baixa, aplaudindo-o, ao senhor de La l, confessor do príncipe que depois foi arcebispo de Reims e cardeal. Correu tanto a admiração por Fauchelevent, que chegou até Roma.
Temos à vista uma carta de Leão XII, então Papa reinante, dirigida a um seu parente, chefe da nunciatura em Paris, e como ele chamado Della Genga, na qual se lêem as seguintes linhas:
Dizem-me que há aí, num convento dessa cidade, um excelente jardineiro chamado Fauvent, que parece ser um santo homem.
Nem o mais leve murmúrio, porém, de todo este triunfo chegou até à barraca de Fauchelevent. O pobre velho con nuou a fazer enxertos, a sachar e a tratar dos meloais sem ter conhecimento da sua virtude nem da sua san dade Teve tanta no cia da sua glória como qualquer boi de Durham ou de Surrey, de que a Illustrater London News publica o retrato com esta inscrição:
Boi premiado na exposição dos animais cornígeros.
IX — Clausura
No convento, Cose e con nuou no seu silêncio a respeito dos acontecimentos que precederam a sua entrada.
A pobre criança julgava-se filha de Jean Valjean.
Além disso, como não sabia nada, nada podia dizer, e, ainda quando soubesse, nada diria. Como acabamos de notar, não há coisa que mais discreta torne uma criança do que o infortúnio. Cose e havia sofrido tanto que até de falar e de respirar nha medo. É
que tantas vezes bastava uma só palavra para fazer desabar sobre ela uma torrente de maus tratos! A filha de Fan ne mal principiava a tranquilizar-se desde que pertencia a Jean Valjean. Depressa, porém, se habituou ao convento. Apenas sen a a falta de Catarina, mas não ousava dizê-lo. Uma vez, porém, disse para Jean Valjean: «Ó pai! Se eu soubesse, trazia-a».
Cose e, tornando-se recolhida do convento, teve de tomar o hábito das educandas da casa, alcançando Jean Valjean que lhe res tuíssem os ves dos que ela deixara. Era o vestuário preto que ele lhe fizera ves r quando deixou a taberna dos Thenardier. Ainda não estava muito usado. Jean Valjean meteu toda esta roupa, inclusive as meias de lã e os sapatos, numa pequena mala que pôde arranjar, enchendo-a de cânfora e de todos os aromas que abundam nos conventos. Pôs a mala em cima de uma cadeira ao pé da cama onde dormia e guardou a chave, trazendo-a sempre consigo.
— Ó pai! — perguntou-lhe um dia Cose e. — Que caixa é aquela que ali está que cheira tão bem?
O senhor Fauchelevent, além da glória de que falámos e que ele ignorava, foi recompensado pela sua boa acção; primeiro com o prazer que sen a, depois porque o serviço que lhe estava a cargo assim dividido, veio a tornar-se-lhe menor. Finalmente, como gostava muito de tabaco, a presença de Madelaine tornava-se-lhe ainda vantajosa, por isso que tomava muito mais do que dantes e de um modo infinitamente mais voluptuoso, atendendo a que era ele quem lho pagava.
As religiosas não adoptaram o nome de Ul me para nomear Jean Valjean; chamavam-lhe o outro Fauvent.
Se aquelas santas mulheres possuíssem alguma coisa do olhar de Javert, viriam por úl mo a notar que quando era necessário alguma saída para objectos rela vos ao cul vo do jardim era sempre o Fauchelevent sénior, o velho, o aleijado, o manco, o que saía e nunca o outro; porém, ou porque os olhos sempre fixos em Deus não sabem espiar, ou porque de preferência se entre vessem em mutuamente se espreitarem, nunca fizeram reparo em semelhante coisa.
Também foi o que valeu a Jean Valjean conservar-se quieto e sem se bulir. Javert durante mais de um mês não cessou de pesquisar pelo bairro.
Aquele convento era para Jean Valjean como uma ilha cercada de abismos. O mundo para ele agora eram aquelas quatro paredes. Dali via o céu, o suficiente para se conservar sereno, e Cosette, o suficiente para viver satisfeito.
Principiou então de novo para ele uma vida cheia de doçura.
Habitava com o velho Fauchelevent na barraca situada ao fundo do jardim. Era uma casinhola de paredes de tabique, que ainda em 1845 exis a, a qual, como se sabe, se compunha de três quartos completamente desguarnecidos, tendo só as paredes. O
principal cedera-o Fauchelevent a Jean Valjean, obrigando-o a aceitá-lo à força, pois debalde resis ra. O ornato da parede deste quarto, além dos dois pregos des nados para dependurar, um a joelheira, outro o cesto, era uma cédula de papel-moeda realista de 93, colado por cima da chaminé.
Este assinado vendeano nha sido pregado na parede pelo passado jardineiro, an go chouan, que morrera no convento e a quem Fauchelevent sucedera.
Jean Valjean trabalhava todos os dias no jardim, prestando nele úteis serviços.
Noutro tempo fora podador e gostava de se ver jardineiro. Se bem se recordam, Jean Valjean sabia toda a qualidade de receitas e segredos de cultura, e deles se aproveitou As árvores do pomar que eram quase todas bravias, enxertou-as de borbulha e fez-lhes dar excelentes frutos.
Cose e nha licença de vir todos os dias passar uma hora na companhia dele Como as sorores eram tristes e ele cheio de bondade, a criança comparava e adorava-o À hora marcada, corria para a barraca, e quando nela entrava, inundava-a da luz do paraíso.
Jean Valjean julgava-se feliz e sen a aumentar a sua felicidade com a felicidade que dava a Cose e. Longe de enfraquecer, como todos os reflexos, tem a alegria que inspiramos o encanto de voltar para nós mais resplandecente ainda. Nas horas do recreio, Jean Valjean via-a, de longe, a brincar e a correr, dis nguindo-lhe o riso do das suas companheiras.
Pois Cose e agora ria e até no rosto nha tal ou qual diferença, havendo-lhe desaparecido a névoa escura da angús a que lhe envolvia o coração. O riso é como o sol: desfaz do rosto humano as nuvens negras que nele condensa a tristeza da alma.
Depois que acabava o recreio e que Cose e se recolhia, Jean Valjean punha-se a contemplar as janelas da aula dela, e de noite levantava-se para se pôr a contemplar a janela do seu dormitório.
Deus emprega os meios que lhe apraz para chegar aos seus fins; o convento e Cose e contribuíam para conservar e completar em Jean Valjean a obra do bispo. É certo que a virtude por um dos lados termina na soberba, para a qual se passa por uma ponte construída pelo diabo Jean Valjean, sem o saber, estava muito próximo desse lado e dessa ponte, quando a Providência o impeliu para o convento do Pe t-Picpus; enquanto se não comparara senão com o bispo, achara-se indigno e fora humilde; havia algum tempo, porém, que ele principiava a comparar-se aos homens; e daí a nascer-lhe a soberba, quem sabe? Talvez por último viesse a voltar lentamente ao ódio.
O convento fê-lo parar no meio deste declive.
Era aquele o segundo lugar de ca veiro que via. Na sua mocidade, no que nha sido para ele o princípio da vida, e depois, bem perto ainda, nha visto outro lugar horroroso, lugar terrível, cujas severidades lhe nham parecido sempre a iniquidade da jus ça e o crime da lei. Hoje, após as galés, via o claustro, e lembrando-se que nha feito parte das galés e que era agora, para assim dizer, espectador do claustro, confrontava-os no seu pensamento com ansiedade.
Às vezes, fincando o braço no cabo da pá espetada no chão, descia lentamente pelas espirais sem fundo da cogitação.
Lembrava-se dos seus an gos companheiros e punha-se a reflec r na sua miséria: aqueles infelizes levantavam-se ao romper do dia e trabalhavam até à noite, concedendo-se-lhes apenas alguns instantes de sono; o seu leito eram camas de lona, em que lhes não permi am colchões de mais de duas polegadas de grossura, dispostos em salas que só nos meses mais ríspidos do ano eram aquecidas; o seu vestuário consis a em horríveis jaquetas encarnadas, permi ndo-se-lhes por muito favor, nos grandes calores, o uso de calças de linho, e uma camisola de lã nos grandes frios, vinho nunca o bebiam, carne nunca a comiam, senão quando lhes sobrevinha a «fadiga». Os nomes que nham perdiam-nos, designados apenas por números e de algum modo feitos algarismos. Viviam, mas com os olhos baixos, a voz submissa, os cabelos cortados, de contínuo ameaçados pelo azorrague, sepultados no opróbrio.
Depois o seu espírito passava para os entes que tinha diante da vista.
Esses entes viviam também com os cabelos cortados, os olhos baixos, a voz submissa, não no opróbrio, mas no meio das zombarias do mundo não com as costas feridas pelo azorrague, mas com os ombros lacerados pela disciplina. Os seus nomes haviam também desaparecido dentre os homens e sido subs tuídos por austeros apelidos. Nunca comiam carne nem bebiam vinho; estavam muitas vezes todo o dia sem comer; andavam ves dos, não com uma vés a vermelha, mas com uma mortalha de lã, pesada no Verão, leve de Inverno, sem poder rar nem acrescentar nada a todas estas coisas, sem ter sequer consoante a estação, o recurso da roupa de linho ou do sobretudo de lã, e trazendo seis meses camisas de sarja, que os faziam arder em febre.
Esses entes habitavam, não em salas aquecidas somente nos frios rigorosos, mas em celas, onde nunca se acendia o lume; dormiam, não em colchões de grossura de duas polegadas, mas nas palhas. Finalmente, nem alguns momentos de sono gozavam: todas as noites, depois de um dia de trabalho, na modorra do primeiro sono, no momento em
que iam a fechar os olhos e principiavam a aquecer, nham de acordar, de erguer-se, de ir orar numa capela escura e fria como gelo, com os joelhos sobre a pedra.
Em certos dias, cada um daqueles entes, por sua vez, nha de estar doze horas ajoelhado ou prostrado nas lajes, com o rosto pregado no chão e os braços em cruz.
Os outros eram homens; estes eram mulheres.
Que haviam feito esses homens?
Tinham roubado, violado, assaltado, matado, assassinado.
Eram bandidos, falsários, envenenadores, incendiários, assassinos, parricidas.
E essas mulheres que tinham feito?
Nada.
Duma parte a rapina, a fraude, o dolo, a violência, a lubricidade, o homicídio, todas as espécies do sacrilégio, todas as variedades do atentado; da outra uma só coisa a inocência.
A inocência perfeita, quase enlevada numa assunção misteriosa, comunicando ainda com a terra pela virtude e já com o céu pela santidade.
Duma parte confidências de crimes, mutuamente feitas em voz baixa Da outra a confissão das faltas, feita em voz alta. E que crimes! E que faltas!
De uma parte miasmas, da outra perfume inefável.
De uma parte uma peste moral, com sen nelas à vista, rodeada de ar lharia e devorando lentamente os empestados por ela; da outra um casto abrasamento de todas as almas no mesmo fogo. Além, as trevas; aqui, a sombra, mas sombra cheia de clarões e clarões cheios de fulgor
Dois lugares de escravidão, mas no primeiro a possibilidade da liberdade, um limite legal, sempre entrevisto, ou pelo menos a evasão. No segundo a condenação por toda a vida, e por única esperança na extremidade longínqua do porvir, esse clarão de liberdade, a que os homens dão o nome de morte.
No primeiro, as cadeias que prendem os que vivem nele são simples grilhões; no segundo, as cadeias são as da fé.
Que saía do primeiro? Uma maldição imensa, o ranger de dentes, o ódio, a malvadez desesperada, um grito de raiva contra a sociedade humana, um sarcasmo contra o céu.
E do segundo? Cânticos de louvor e amor.
E em ambos esses lugares tão semelhantes, e ao mesmo tempo tão diversos, essas duas espécies de entes tão diferentes, tinham por alvo o mesmo fim a expiação.
Jean Valjean compreendia bem a expiação dos primeiros; a expiação pessoal, a expiação das faltas próprias. O que ele não compreendia, porém, era a dos outros, a dessas criaturas irrepreensíveis e sem mácula, e perguntava a si cheio de agitação:
«Expiação de quê? Que expiação?»
A isto respondia-lhe uma voz na consciência: «A mais divina das generosidades humanas, a expiação pelos outros.»
Sobre este ponto abstemo-nos de qualquer teoria pessoal; somos simples narrador; encaramos as coisas como Jean Valjean as encarava, e traduzimos somente as suas impressões.
Diante de si via o cúmulo sublime da sua abnegação, o cimo mais alto a que pode vingar a virtude; a inocência que perdoa aos homens as suas faltas e se oferece por eles em expiação delas; via como essas almas, que não haviam pecado, sofriam a servidão, aceitavam a tortura, reclamavam o suplício, para libertar de tudo isto aquelas que o nham feito; o amor da humanidade consubstanciado com o amor de Deus, mas ainda dis nto, ainda suplica vo; entes frágeis cheios de doçura, vivendo na miséria dos que são punidos e sorrindo como os que são recompensados.
E ele, ele ousara ainda queixar-se!
Alta noite, às vezes, levantava-se para ir escutar os cân cos de graças daquelas criaturas inocentes e vergadas ao peso de ásperas severidades, e sen a arrefecer-lhe o sangue nas veias ao lembrar-se que aqueles que eram justamente cas gados, não elevavam a voz ao céu senão para blasfemar, e que até ele, miserável, chegara a ameaçar a Deus com o punho cerrado.
Notável coisa que o fazia cogitar profundamente como um aviso segredado pela própria Providência; as diligências que empregara para saltar um muro, para penetrar num claustro; os perigos gravíssimos a que se expusera, a difícil e dura ascensão com que fizera perder o rasto aos seus perseguidores, todos esses esforços que ele nha feito para sair do outro lugar da expiação fizera-os para entrar neste. Seria um símbolo do seu destino?
Esta casa era também uma prisão e nha uma lúgubre semelhança com a outra donde ele fugira, e, contudo, nunca imaginara que no mundo houvesse coisa parecida com ela.
Que guardavam essas grades, esses ferrolhos e varões de ferro, que outra vez viu?
Anjos.
As paredes elevadas que outrora vira encurralando gres, via-as de novo, mas fechando ovelhas. Além a jaula, aqui um redil.
Era de expiação e não de cas go este lugar, e, todavia, ainda era mais austero, mais pesadamente melancólico e mais desapiedado do que o outro. Aquelas virgens ainda andavam curvadas debaixo de trabalho mais duro do que os forçados. Um vento frio e ríspido, o vento que gelara a sua mocidade, penetrava a jaula solidamente gradeada dos abutres, mas por aquele viveiro de pombas infiltrava-se uma rajada mais áspera e penetrante ainda
Porquê?
Quando nisto pensava, sen a-se confundido na presença deste mistério de sublimidade.
Assim se desfez a soberba que dele se ia apoderando. Meteu a mão na própria consciência e quando conheceu a sua miséria, chorou muitas vezes fervorosas lágrimas.