Os Miseráveis
VIII — A cadeia
Aquela palidez era assaz suficiente para preocupar Jean Valjean. Algumas vezes ele perguntava-lhe:
— Que tens tu?
— Não tenho nada — respondia ela.
E após um momento de silêncio, como ela lhe adivinhasse também a tristeza, continuava:
— E o que tem o meu pai?
— Eu? Nada! dizia ele.
Assim, pois, aquelas duas criaturas noutro tempo
unidas pelos laços do mais tocante e exclusivo amor, que por tanto tempo nham vivido em recíproca dedicação, sofriam agora juntos, um por causa do outro, sem que nenhum deles o dissesse, sem que se quisessem mal, sorrindo.
VIII — A cadeia
Apesar de tudo, o mais infeliz era Jean Valjean. A juventude tem sempre uma irradiação particular, ainda mesmo no meio dos seus sofrimentos.
Ocasiões havia em que Jean Valjean chegava a ser pueril nas suas angús as, condão par cular da dor, que volve os homens à meninice. Ao ver que Cose e irremissivelmente lhe fugia, o seu desejo era lutar, segurá-la, entusiasmá-la por algum objecto brilhante que a demovesse, que a re vesse. Estas ideias, pueris e ao mesmo tempo senis, deram-lhe, por isso mesmo, uma noção quase exacta da influência da passamanaria sobre a imaginação das jovens. Um dia, vendo passar a cavalo por uma rua um general de grande uniforme, o conde Coutard, comandante de Paris, teve inveja daquele homem agaloado.
No seu entender seria uma fortuna o poder ves r aquela farda reluzente, porque a vista dessa realidade brilhante deslumbraria Cose e e lhe raria a ideia de olhar para os rapazes, quando, ao passar por diante da grade das Tulherias com ela pelo braço, as sentinelas lhe apresentassem armas.
Um inesperado acontecimento veio fazer diversão a estes pensamentos de tristeza.
Isolados naquele ermo re ro da rua Plumet, Cose e e Jean Valjean nham adoptado o hábito de ir ver nascer o Sol para algum lugar ameno espécie de prazer sereno que agrada aos que apenas entram na vida e aos que vão saindo dela.
Passear de madrugada equivale para os amantes da solidão a passear de noite, com a vantagem de se gozar o risonho espectáculo que a natureza, a essa hora, apresenta. Não se encontra ninguém pelas ruas e goza-se do canto dos pássaros. Cose e, como eles, madrugava, sempre gostosamente disposta para estas excursões matu nas, aprazadas de véspera para a madrugada do dia seguinte. Ele propunha, ela aceitava, marcava-se a hora, saía-se ao amanhecer. Era uma espécie de conspiraçãozinha, ou, se preferem, uma dessas inocentes excentricidades com que a juventude se deleita, e em que Cose e achava um indizível prazer.
Para estes passeios, o lugar predilecto de Jean Valjean, que, como é sabido, dava sempre a preferência aos lugares pouco frequentados, aos lugares mais solitários e escusos, eram uns campos de mesquinho aspecto, que então havia nas proximidades das barreiras, logo à saída de Paris, e como que fazendo ainda parte da cidade. Eram uns campos tristes, no Verão cobertos de trigo enfezado, no Outono tão ermos de vegetação que dir-se-iam rapados e não ceifados Jean Valjean, porém, escolhia-os de preferência a qualquer outro lugar, e a Cose e não desagradava a escolha; para ele eram a solidão, para a jovem a liberdade. Cose e brincava, corria, rava o chapéu, pousava-o nos joelhos de Jean Valjean, colhia raminhos e punha-se a espreitar as borboletas pousadas nas flores, sem lhes deitar a mão. Com o amor vêm os sen mentos benévolos. Não é pois de admirar que tenha compaixão da asa da borboleta a jovem in mamente agitada por um frágil ideal Cose e tecia grinaldas de papoilas, que punha na cabeça, e que, atravessadas e penetradas de Sol, purpureadas como lume, como que semelhavam uma coroa de brasas sobre o frescor daquele rosado rosto.
Estas excursões matu nas con nuaram ainda depois que o viver de ambos principiou a ser agitado pela tristeza.
Numa manhã de Outubro, tentados pela amena serenidade do Outono de 1831, saíram e, ao romper do dia, achavam-se próximo da barreira do Maine. Ainda não era a aurora, era a alva, transição sombria, mas cheia de encantos. Algumas constelações num ou noutro ponto do azul vago e profundo, a terra toda negra, o céu todo branco, certo estremecimento nas ervas, e por toda a parte a misteriosa inquietação do crepúsculo.
Uma cotovia que parecia envolvida com as estrelas, cantava numa altura prodigiosa; terse-ia dito que aquele hino da pequenez ao infinito, tranquilizava a imensidade. No oriente via-se Vénus, elevando-se fúlgida por trás da cúpula do Vale de Graça, que se destacava obscuramente num horizonte alvacento, e figurava uma alma a evadir-se de um edifício tenebroso.
Era tudo paz e silêncio; nas ruas desertas ou apenas ressoando com os passos de alguns raros operários, que passavam rápidos em direcção ao trabalho.
Jean Valjean sentou-se nuns paus colocados à porta de um armazém de madeiras, numa das áleas laterais, e aí permanecia com o rosto voltado para o caminho e as costas para o ponto do horizonte onde em breve assomaria o Sol aureolado de afogueados clarões. Tudo isso, porém, esquecera, alheado numa dessas profundas abstracções, em que o espírito todo se concentra, encerrando-o como que entre quatro paredes, que nem o olhar deixam livre. Há meditações a que se pode chamar ver cais, porque são um como entranhar-se o espírito por uns espaços lá muito no fundo, de onde leva demorado tempo a voltar de novo à terra. Numa dessas cogitações se nha entranhado Jean Valjean. Pensava em Cose e e na possibilidade da sua grande ventura, se entre eles não surgissem barreiras a separá-los; pensava nessa luz que lhe inundava a vida e que era a respiração da sua alma; e estas cogitações em que se embrenhava, enquanto Cose e, de pé junto dele, olhava para o espectáculo das nuvens purpureando-se, derramavam-lhe no coração, atribulado e alanceado de tantas dores, como que um bálsamo doce que suavemente lhas refrigerava.
De súbito, Cosette exclamou:
— Meu pai, parece que vem ali gente!
Jean Valjean olhou na direcção apontada pela jovem e viu que Cose e não se enganara.
Como é sabido, a calçada que conduz à an ga barreira do Maine é uma prolongação da rua de Sèvres, cortada em ângulo recto pelo boulevard interior. Do ponto onde os dois caminhos se cortam, divergindo para lados diferentes, par a um estrondo di cil de
explicar àquela hora e viu-se quase imediatamente assomar uma massa informe, que entrava na calçada, depois de haver desembocado do boulevard.
O que quer que era ia gradualmente avultando e parecia mover-se com ordem, mas tremia e bramia. Não obstante, só por um rumor de rodas, por um tropear de cavalos e os estalidos de um chicote, acompanhado de gritos, se adivinhava ser uma carruagem, cujos lineamentos, afinal, bem que ainda empanados pelas sombras crepusculares da alvorada, de todo se fixaram. Era, efec vamente, uma carruagem, que nha desembocado do boulevard, dirigindo-se para onde Jean Valjean estava, a caminho da barreira. Seguiu-se a esta uma segunda do mesmo aspecto, e logo em seguida terceira e quarta. Sete desembocaram sucessivamente, com tão pequeno intervalo, que as cabeças dos cavalos de umas tocavam a parte posterior das outras. Ao ver a agitação dos vultos que confusamente se apercebiam em cima dos carros e um como relampejar de espadas desembainhadas, ao ouvir como que o estrondear de cadeias e o crescente e mais dis nto sussurro das vozes que rompiam do meio daquela massa negra, dir-se-ia uma sequência de temerosas visões saídas da caverna dos sonhos.
Apenas chegada ao pé, aquela massa móvel, que transparecia por entre as árvores, com o véu alvacento de uma aparição, tomou formas, as cabeças dos vultos tornaram-se rostos de cadáveres, e ao pálido clarão do crepúsculo matu no, que reverberava sobre aquela massa ao mesmo tempo sepulcral e animada, desvelou-se o véu de sombras em que despontara envolta.
Eis o que era:
Seguiam pelo caminho sete carruagens, umas após outras, sendo as seis dianteiras de singular estrutura. Pareciam carros de tanoeiros, isto é, compridas escadas assentes sobre duas rodas, formando andas na extremidade anterior. Cada um destes carros, ou, diremos melhor, destas escadas, era puxada a quatro cavalos, não emparelhados, mas em fileira. Transportavam estas singulares ambulâncias magotes de homens, que mal se dis nguiam entre as sombras decrescentes da madrugada. Cada carro conduzia vinte e quatro, doze de cada lado, encostados uns aos outros, com as pernas penduradas e o rosto voltado para quem passava. Por uma golilha que cada um destes vinte e quatro homens trazia ao pescoço passava uma comprida corrente de ferro, que os prendia a todos, de modo que, se vessem de apear-se do carro e caminhar a pé, ver-se-iam presos por uma espécie de unidade inexorável, serpenteando pelo solo com a corrente por vértebra, quase como uma centopeia. Adiante e atrás de cada uma das carruagens viam-se dois homens armados de espingardas, segurando debaixo dos pés as duas extremidades da corrente. As golilhas eram quadradas. O sé mo carro, vasto coberto gradeado, nha quatro rodas e era puxado a seis cavalos. Conduzia um monte de caldeiras e panelas de ferro, de fogareiros e correntes, e à mistura alguns homens, com aspecto de doentes, amarrados e deitados ao comprido. Cingia o carro um gradeado velho, em partes quebrado, que inculcava ter servido nos antigos suplícios.
Estes carros seguiam pelo centro da rua. Aos lados caminhavam duas alas de guardas, de hediondo aspecto, rotos, sujos, com Chapéus chatos de três bicos na cabeça, como os soldados do directório, com uniformes de inválidos e calças de gatos pingados, listadas
de azul e cinzento e já esfarrapadas, com dragonas vermelhas, boldriés amarelos, facas de cozinha, espingardas e paus, espécie de soldados de guerrilhas, esbirros, que parecia par ciparem da abjecção do mendigo e da autoridade do carrasco. O que inculcava ser seu chefe brandia na mão um chicote boleeiro. Aos crescentes clarões do sol nascente, todas estas miudezas, esfumadas pelo crepúsculo, tomavam maiores e mais visíveis proporções. À frente e na retaguarda do prés to iam alguns gendarmes a cavalo, de sabre em punho e aspecto severo.
Era tão extenso o cortejo, que, quando a primeira carruagem chegava à barreira, ainda a última vinha a desembocar do boulevard.
Ao insólito estrondo acudira rapidamente, e, para assim dizer, por encanto, como frequentemente acontece em Paris, uma mul dão de espectadores caídos das nuvens, que atulhavam os flancos da rua, olhando espantados para o estranho espectáculo.
Pelas vielas e becos da vizinhança ouviam-se as vozes da gente que se juntava e o estrépito dos tamancos.
Triste era o aspecto daqueles homens acorrentados, ritando, lívidos, ao contacto da fria viração do amanhecer. Não obstante os desencontrados solavancos, em que os baldeavam os carros, nem um só quebrava a sua profunda mudez. Trajavam todos calças de estopa, sendo o demais vestuário a capricho da miséria. O calçado eram tamancos.
Hedionda disparidade de trajes a daqueles homens! Não há coisa mais fúnebre do que os arlequins andrajosos. Chapéus amassados, bonés de oleado, carapuças de lã, jaquetas rotas nos cotovelos; uns com chapéus de mulher, outros com cestos enfiados na cabeça; era uma variedade extravagantemente lúgubre. Por entre os rasgões da roupa entrevia-se a alguns o peito cabeludo, sarapintado de variegados debuxos, representando templos de amor, corações inflamados e Cupidos. A outros divisavam-se-lhes impigens e manchas vermelhas. Dois ou três haviam atado cordas de palha às travessas do carro e nelas apoiavam os pés como num estribo. Um deles nha na mão um objecto negro parecido com uma pedra, que de vez em quando levava à boca, e em que parecia cravar os dentes; era um bocado de pão, que ia comendo. Nem uma lágrima borbulhava nos olhos de um só daqueles homens; conservavam-se todos enxutos, sem brilho ou fúlgidos de um clarão de mau agouro. Os da escolta praguejavam, os acorrentados nem uma palavra proferiam; de espaço a espaço ouvia-se o som de uma paulada nas costas ou nas cabeças dos desgraçados. Era terrível de ver o aspecto daqueles homens andrajosos, bocejando, deixando pender as pernas inertes ao sabor dos solavancos, batendo com as cabeças de encontro uns aos outros, divagando a vista com ferocidade resplendente, fechando ou distendendo as mãos sem força, como de cadáveres, e junto a tudo isto um estrugir de ferros a cada balanço dos carros. Seguiam o fúnebre prés to magotes de crianças rindo galhofeiramente.
Fosse o que fosse, era pavorosamente lúgubre o espectáculo daquela fileira de carros.
Era evidente que podia sobrevir no dia seguinte ou dentro de uma hora uma bátega de água, e após esta outra e ainda terceira, e que aqueles homens não se tornariam a enxugar depois de molhados, que não tornariam a aquecer depois de repassados do frio da humidade, que lhes escorreria a água pelas costas abaixo, pegando-lhes a camisa ao
corpo e ensopando-lhes os socos; que as chicotadas não os estorvariam de ritar, que a corrente con nuaria a segurá-los pelo pescoço e os pés a balancearem-se, e ninguém se podia furtar a um involuntário tremor, ao ver aquelas criaturas humanas manietadas de semelhante modo e expostas ao frio nevoeiro do Outono, à chuva, ao nordeste, a todas as intempéries do ar, como árvores ou pedras e não como homens.
As chicotadas nem aos doentes que jaziam manietados e sem movimento no sé mo carro poupavam ou eram mais raro distribuídas. Parecia, ao ver aqueles homens estirados a granel, que tinham sido para ali atirados como uns sacos cheios de miséria.
De súbito despontou o Sol no horizonte, inundando tudo com purpureados clarões, a cujos revérberos dir-se-ia que ardiam as cabeças sombrias de todos aqueles homens.
Cada qual desprendeu a língua para um concerto estrondosamente unânime de pragas, risadas e cantares galhofeiros. A larga faixa de luz horizontal dividiu em duas toda a fileira, iluminando as cabeças e os troncos, e deixando em sombras os pés e as rodas.
Apareceram então nos rostos os pensamentos; momento horrível, em que os demónios raram a máscara e se tornaram visíveis, em que aquelas almas deixaram a descoberto a sua ferocidade. O Sol cobriu com a sua luz aquela malta e ela ficou ainda tenebrosa.
Alguns me am galhofeiramente na boca canudos de penas, pelas quais sopravam para a mul dão os piolhos que ravam do corpo, escolhendo de preferência as mulheres; a aurora acentuava com a negrura das sombras aquelas las mosas figuras; nem uma só daquelas Criaturas deixava de ser disforme à força da miséria; e era tão monstruoso o espectáculo, que dir-se-ia que transformava a claridade do Sol em clarão de relâmpago.
Os do carro, que abria o prés to, haviam entoado e salmodiavam descompassadamente com desvairada jovialidade um pot-pourri de Dèsaugiers, então célebre, A Ves al; as árvores sussurravam lugubremente; nas áleas laterais viam-se alguns burgueses escutando com idiota bea tude aquelas obscenidades galhofeiramente cantadas por espectros.
Confundiam-se naquele prés to como um caos todas as variedades da miséria; via-se ali o ângulo facial de toda a espécie de animais, velhos, adolescentes, crânios nus, barbas grisalhas, monstruosidades cínicas, resignações impacientes, bocas selvagens, a tudes loucas, porcos com carapuças, cabeças de raparigas com uma espécie de saca-rolhas nas fontes, rostos infan s e por isso mesmo horríveis, magras faces de esqueletos, aos quais só faltava a morte. No primeiro carro via-se um negro, que talvez vesse sido escravo e podia comparar as correntes. Por todas aquelas frontes passara o medonho nível deste mundo, a infâmia; em tal grau de aba mento, as úl mas transformações experimentavam-nas todos nas úl mas profundidades; e a ignorância transformada em embrutecimento igualava a inteligência transformada em desespero. Não havia escolha possível entre aqueles homens, que se ofereciam aos olhos como a flor ao lodo. Era claro que o ordenador daquela imunda procissão, se o teve, não os distribuíra por classes.
Pegaram naquelas criaturas, acorrentaram-nas aos pares, sem escolha, pela desordem alfabé ca talvez, e carregaram-nos ao acaso sobre aqueles carros. Os horrores grupados, porém, vêm sempre por úl mo a dar uma resultante; toda a adição de infelizes dá uma soma; de cada corrente saía uma alma comum, de cada carro sua fisionomia. Logo atrás
dos que iam a cantar seguia-se outro carro, no qual se uivava; os do terceiro mendigavam; os do quarto rangiam os dentes; os do quinto ameaçavam os que passavam; os do sexto blasfemavam; o úl mo ia calado como um túmulo. Dante julgaria ver os sete círculos do inferno em marcha.
Marcha das condenações para os suplícios, feita sinistramente, não no temeroso carro fulgurante do Apocalipse, mas, coisa ainda mais sombria, na carreta das gemónias.
Um dos guardas levava na mão um pau terminando por um gancho, com o qual de espaço a espaço parecia revolver aquele monte de lixo humano. Entre a mul dão estava uma velha, que dizia a um rapazinho de cinco anos, apontando-lhe aqueles homens um a um:
— Vê-te naquele espelho, Velhaco!
Como as can gas e as blasfémias se fossem tornando mais e mais ruidosas, o que parecia ser o capitão da escolta fez estalar o seu chicote, e a este sinal uma terrível paulada surda e cega caiu sobre os sete carros, com o sussurro de uma saraivada; muitos rugiram e escumaram, o que aumentou a alegria aos gaiatos, que nham acudido, como nuvem de varejas atraídas pelo olfacto daquelas dragas.
Os olhos de Jean Valjean despediam um clarão medonho. Não era uma pupila, era -
esse vidrado escuro que subs tui o olhar em detritos infelizes, que parece não ter consciência da realidade, e em que flameja a reverberação dos pavores e das catástrofes.
Aquele homem não presenciava um espectáculo, sofria uma visão. Quis-se levantar, fugir, afastar-se; não pôde sequer descolar os pés de onde os nha. Às vezes as coisas que vemos como que nos agarram e nos retêm. Jean Valjean ficou colado, petrificado, estúpido, perguntando a si próprio, através de uma confusa angús a inexprimível, o que significava aquela perseguição sepulcral e donde saía aquele pandemónio que o perseguia. Lentamente levou a mão à fronte, gesto costumado daqueles a quem subitamente volta a memória; lembrou-se que era aquele, com efeito, o i nerário, que se costumava dar aquela volta para evitar o encontro das pessoas reais, sempre possível na estrada de Fontainebleau, e que, havia trinta e cinco anos, também ele passara por aquela barreira.
Cose e também estava apavorada, mas por diferente mo vo. Não sabia o que aquilo significava, faltava-lhe a respiração, parecia-lhe impossível o que via; por fim, exclamou:
— Meu pai, que levam aqueles carros?
— Forçados! — respondeu Jean Valjean.
— E para onde vão?
— Para as galés!
Neste momento mul plicaram-se assombrosamente as chicotadas, ressoaram sem piedade as pranchadas; foi uma como raiva de chicotes e espadas; os forçados encolheram-se, obedecendo de um modo horrendo no meio daquele suplício, e calaram-se todos com olhares de lobos acorrentados. Cosette tremia como varas verdes.
— Meu pai, aquilo são homens? — tornou ela, convulsa por um geral tremor.
— Às vezes — disse ele.
Era efec vamente a corrente que saíra antes do amanhecer de Bicêtre, tomando a
estrada de Mans, para evitar Fontainebleau, onde então estava o rei. Esta Volta fazia durar o suplício da jornada mais três ou quatro dias; mas que importava, se com isso se poupava a um rei a vista de um suplício?
Jean Valjean recolheu-se a casa acabrunhado. Encontros como aqueles são choques e a recordação que de si deixam são um terrível abalo.
Entretanto, Jean Valjean, voltando Com Cose e para a rua da Babilónia, não ouviu outras perguntas que ela lhe fez, acerca do que acabava de Ver; ia talvez demasiadamente preocupado consigo mesmo, para perceber o que ela lhe dizia e para lhe responder. Unicamente à noite, quando Cose e se despediu dele para se ir deitar, é que a ouviu dizer a meia voz e como que falando consigo própria:
— Se encontrasse no caminho um daqueles homens... Jesus! Parece-me que morreria só de vê-lo ao pé de mim!»
Felizmente, quis o acaso que o dia seguinte ao do trágico espectáculo fosse de festa em Paris, a propósito de qualquer solenidade oficial e houvesse revista no Campo de Marte, teatros nos Campos Elísios, fogo de ar
cio na Estrela e iluminações por toda a
parte. Jean Valjean, violentando os seus hábitos, conduziu Cose e a presenciar aqueles regozijos, a fim de a distrair da impressão da véspera e de apagar, sob o risonho tumulto de toda a cidade, o espectáculo abominável que nha visto. A parada que adubava a festa, tornava muito natural a circulação das fardas; Jean Valjean ves u a sua farda de guarda nacional, com o vago sen mento de um homem que se refugia. No fim de tudo pareceu-lhe ter alcançado o fim daquele passeio. Cose e, para quem era lei agradar a seu pai, e para quem, além disto, todo o espectáculo era novo, aceitou a distracção com a boa vontade fácil e ligeira da adolescência, e não fez beicinho demasiadamente desdenhoso diante da gamela de alegria, que se chama festa pública; de tal modo que Jean Valjean acreditou no seu bom êxito, julgando não restar já o mínimo resto da hedionda visão.
Dias depois, numa manhã em que o Sol apareceu magnífico, e em que estavam ambos na varanda do jardim, outra infracção às regras que Jean Valjean parecia ter imposto a si mesmo e ao hábito de se conservar no seu quarto, que a tristeza nha feito adoptar a Cose e, esta, de penteador, conservava-se em pé, no desalinho das primeiras horas que envolve adoravelmente as jovens, e que tem o ar de uma nuvem sobre o astro, com a cabeça inundada de luz, rosada por ter dormido bem, olhava meigamente para o excelente homem que se achava enternecido e desfolhava ao mesmo tempo um malmequer. Cose e desconhecia a encantadora lenda do «bem-me-queres, mal-mequeres». Quem lha havia de ensinar? Desfolhava a flor, por ins nto, inocentemente, sem suspeitar que desfolhar um malmequer é sondar um coração. Se houvesse uma quarta graça chamada Melancolia, apresentaria Cose e o aspecto dessa graça. Jean Valjean estava fascinado pela contemplação daqueles dedinhos rosados sobre a flor, esquecendo tudo perante o brilho que se destacava da linda criança. Numa moita, ao lado, cantava um pintarroxo. Pelo céu corriam algumas nuvens brancas, tão alegremente, que parecia terem acabado de receber a liberdade. Cose e con nuava a desfolhar atentamente a sua flor; parecia estar pensando em alguma coisa; de repente inclinou a