Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 298 de 359

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Os Miseráveis

VII — Agrava-se a situação

— Conheço-o.

Quanto a Mário, sen a-se aliviado por aquela a tude do senhor Fauchelevent; e, se pudesse empregar-se uma tal palavra para semelhantes impressões, diríamos, agradava-lhe. Tinha sempre sen do a mais absoluta impossibilidade de dirigir a palavra àquele homem enigmá co, que era para ele, ao mesmo tempo equívoco e majestoso. Além disto, havia muito tempo que o não via, o que para a natureza mida e reservada de Mário aumentava ainda a impossibilidade.

Os cinco homens designados saíram da barricada pelo beco Mondétour, perfeitamente semelhantes a guardas nacionais. Um deles ia chorando. Antes de partirem abraçaram os que ficavam.

Depois de se re rarem os cinco homens reenviados para a vida, lembrou-se Enjolras do condenado à morte, e entrou na loja da taberna. Javert, amarrado ao poste, estava meditando.

— Precisas de alguma coisa? — perguntou-lhe Enjolras.

Javert respondeu:

— Quando me matam?

— Espera. Por enquanto precisamos de todos os nossos cartuchos.

— Então dê-me de beber — disse Javert.

Enjolras apresentou-lhe pessoalmente um copo de água; e como Javert estava

amarrado, ajudou-o a beber.

— Nada mais? — tornou Enjolras.

— Estou mal neste poste — respondeu Javert. Foram pouco compassivos em me deixarem passar a noite aqui. Amarrem-me como quiserem, mas deitem-me sobre uma mesa, como o outro.

E com a cabeça designou o cadáver de Mabeuf.

Havia, como devem lembrar-se, no fundo da casa, uma grande mesa sobre a qual nham fundido balas e feito cartuchos. Como os cartuchos estavam todos feitos e a pólvora toda empregada, achava-se desocupada a mesa.

Por ordem de Enjolras foi Javert desamarrado do poste por quatro insurgentes.

Enquanto o desamarravam, conservava-lhe um quinto a ponta da baioneta apoiada no peito. Deixaram-lhe as mãos presas atrás das costas, ataram-lhes nos pés uma corda delgada mas forte, que lhe permi a dar passos de quinze polegadas como os dos que sobem para o cadafalso, e fizeram-no caminhar até à mesa do fundo da casa, onde o estenderam, estreitamente ligado pelo meio do corpo.

Para maior segurança, por meio de uma corda presa ao pescoço, ampliaram o sistema de ligaduras que lhe tornava impossível toda a espécie de evasão, com o laço, denominado nas prisões gamarra, que parte da nuca, se bifurca sobre o estômago e vem prender as mãos depois de ter passado por baixo das pernas.

Enquanto estavam amarrando Javert, apareceu no limiar da porta um homem, que o observava com singular atenção. A sombra produzida por este homem fez voltar a cabeça a Javert, o qual, erguendo os olhos, reconheceu Jean Valjean. Javert nem sequer estremeceu, baixou altivamente a vista e limitou-se a dizer:

— É uma coisa simples.

VII — Agrava-se a situação

O dia caminhava rapidamente. Mas nem uma janela se abria, nem uma porta se descerrava; era a aurora, mas não o despertar. A extremidade da rua da Chanvrerie oposta à barricada fora evacuada pelas tropas, como já dissemos; parecia desimpedida e aberta aos transeuntes com sinistra tranquilidade. A rua de S. Diniz estava muda como a Avenida das Esfinges em Tebas. Não se via vivalma nas encruzilhadas aclaradas pelo reflexo do Sol. Não há nada tão lúgubre como a claridade das ruas desertas.

Não se via coisa alguma, mas ouvia-se. Em certa distância havia um movimento misterioso. Era evidente que se aproximava o instante crí co. Como na véspera à noite, recolheram as vedetas, mas desta vez todas.

A barricada estava mais forte do que na ocasião do primeiro ataque. Depois da partida dos cinco, tinham-na alteado ainda mais.

Enjolras, seguindo a opinião da vedeta que observava a região dos Mercados, e com medo de uma surpresa pela retaguarda, tomou uma resolução grave. Fez com que se fizesse uma barricada na estreita garganta do beco Mondétour, desimpedida até então.

Para isso descalçou-se mais uma porção de rua. Deste modo, a barricada, murada sobre três ruas, na frente a da Chanvrerie, na esquerda as do Cisne e da Pequena Truanderie, e na direita o beco Mondétour, estava verdadeiramente quase inexpugnável; é verdade

que também ali se estava fatalmente encerrado. Tinha três frentes, mas nem uma única saída. Fortaleza, mas também ratoeira, dizia Courfeyrac, rindo.

Enjolras fez amontoar na frente da porta da taberna um punhado de pedras,

«arrancadas de mais», dizia Bossuet.

O silêncio era naquela ocasião tão profundo do lado de onde devia vir o ataque, que Enjolras fez com que cada um ocupasse imediatamente o seu posto de combate.

Neste momento foi distribuída a todos uma ração de aguardente.

Não há nada mais curioso do que uma barricada que se prepara para um assalto.

Cada um escolhe um lugar, como no teatro. Escoram-se, encostam-se e empurram-se.

Alguns há que improvisam logo um assento de pedras. Depara-se um ângulo de muro que incomoda, todos se afastam; descobre-se um redente que pode proteger, todos se abrigam nele. Os canhotos são precisos, ocupam os lugares incómodos aos outros.

Muitos dispõem-se para combater sentados. Querem estar com comodidade para matar e comodamente para morrer. Na funesta guerra de Junho de 1848, um insurgente que nha uma pontaria temível, e que se estava batendo num terraço sobre um telhado, mandara ir para ali uma cadeira à Voltaire; um tiro de metralha ali mesmo o foi apanhar.

Apenas o chefe dá a voz de «chega a postos», cessam todos os movimentos desordenados, nada mais de incertezas de uns para outros, nem de conversações, nem de apartes, nem de grupos separados; tudo o que es a nos espíritos converge e se muda na expecta va do assaltante. Uma barricada antes do perigo é o caos; no perigo é a própria disciplina. O perigo produz a ordem.

Desde que Enjolras pegou na sua carabina e se postou junto de uma espécie de seteira, que reservara para si, todos se calaram. Ao longo das pedras re niu confusamente uma série de estalidos secos.

Era o emperrar das espingardas.

Quanto ao mais as a tudes apresentavam-se mais al vas e mais confiantes do que nunca; o excesso de sacri cio é um fortalecimento; já não nham esperança, mas nham desespero. O desespero é a úl ma arma, que dá algumas vezes a vitória, disse-o Virgílio.

Os recursos supremos saem das resoluções extremas. Embarcar na morte é muitas vezes o meio de escapar ao naufrágio; e a tampa do ataúde transforma-se em tábua de salvação.

Como na noite da véspera, todas as atenções estavam voltadas, e poder-se-ia quase dizer, apoiadas, no extremo da rua, agora iluminada e visível.

A expecta va não foi muito demorada. O movimento recomeçou dis ntamente do lado de Saint-Leu, mas não se assemelhava ao do primeiro ataque. Um ruído de correntes, o balouçar inquietador de uma massa, o nir de bronze ressaltando na calçada, uma espécie de mo m solene, anunciaram a aproximação de sinistra ferramenta. Houve um estremecimento nas entranhas daquelas velhas ruas pacíficas, abertas e construídas para a circulação fecunda dos interesses e das ideias, e não feitas para o monstruoso rodar das rodas de guerra.

A fixidez dos olhos de todos os combatentes no extremo da rua, tornou-se feroz.

Apareceu uma peça de artilharia.

Os ar lheiros empurravam a peça, desengatada do armão; dois sus nham a carreta, quatro iam às rodas, os mais seguiam o caixão. O morrão aceso via-se fumegar.

— Fogo! — gritou Enjolras.

Toda a barricada fez fogo, uma nuvem de fumo cobriu e fez desaparecer a peça e os ar lheiros; passados alguns segundos dissipou-se o fumo e tornou a aparecer a boca de fogo e os homens; os serventes da peça acabaram de a fazer rodar para a frente da barricada, vagarosa e correctamente, sem se apressarem.

Nem um só fora alcançado pela descarga. Em seguida o chefe da peça, pesando sobre a culatra para elevar o ro, começou a pontaria com a gravidade de um astrónomo, assestando um óculo.

— Bravo, artilheiro! — gritou Bossuet.

E toda a barricada deu palmas.

Um instante depois, via-se no meio da rua, assestada contra o reduto dos insurgentes, a temerosa boca de uma peça de artilharia.

— Olhem a patusca! — disse Courfeyrac. — Agora o caso é sério! Até aqui eram só piparotes, mas agora esperem-lhe pela volta! O exército estende para nós a sua grande pata, A fuzilaria arranha, mas a artilharia segura!

— É uma peça de bronze de calibre oito e do novo modelo — acrescentou Combeferre. — Nesta qualidade de peças, por pouco que se exceda a proporção de dez partes de estanho por cem de cobre, ficam arriscadas a rebentar, porque o excesso de estanho torna-as brandas, do que resulta ficarem com cavidades ao ouvido. Para obviar a este perigo e poder forçar a carga, talvez fosse necessário recorrer ao processo do século XIV, que consis a em cingir exteriormente a peça com uma série de arcos os anéis de aço sem soldadura, desde a culatra até ao munhão. Entretanto, remedeia-se como é possível esse defeito, indagando onde são as cavidades do ouvido por meio da raspadeira. Há, porém, outro meio mais pro cuo de chegar ao mesmo fim: é a estrela móvel de Gribeauval.

— No século XVI — atalhou Bossuet — as peças eram raiadas.

— Eram — respondeu Combeferre, — Essa circunstância aumenta a força balís ca, mas diminui a justeza da pontaria. No ro para pequena distância, a trajectória não tem todo o vigor que seria para desejar, exagera-se a parábola, o caminho do projéc l não é suficientemente rec líneo para poder ferir os objectos intermediários, o que é uma necessidade no combate, necessidade que aumenta com a proximidade do inimigo e a precipitação do ro. Esta falta de tensão na curva do projéc l, que se dá nas peças raiadas do século XIV, era devida à fraqueza da carga; necessidade reclamada pelas exigências da balís ca, tais como, por exemplo, a conservação das carretas. Em suma, a peça de ar lharia é uma espécie de déspota, que não pode quanto quer; a força é uma grande fraqueza. Uma bala de ar lharia não anda mais que seiscentas léguas por hora, enquanto que a luz vence setenta mil léguas por segundo. Tal é a superioridade de Jesus Cristo sobre Napoleão.