Os Miseráveis
VI —Fauchelevent
Toda a pessoa de Javert exprimia o homem que espia e que se esconde. A escola mís ca de José de Maistre, que naquela época dava um sabor de alta cosmogonia ao que chamavam jornais-ultras, tê-lo-ia infalivelmente denominado um símbolo. Não se lhe descobria a cabeça, oculta pelo chapéu; não se lhe viam os olhos, perdidos no emaranhado das sobrancelhas; não se lhe divisava a barba, enterrada na amplidão da gravata; não se lhe enxergavam as mãos, de con nuo me das nas mangas; não se lhe descor nava a bengala, que trazia debaixo do casacão. Mas, chegada a ocasião, via-se sair subitamente de toda esta sombra, como de uma emboscada, uma fronte angulosa estreita, um olhar funesto, uma barba ameaçadora, umas enormes mãos e um bordão monstruoso.
Nos seus momentos de descanso, que eram pouco frequentes, Javert lia, embora aborrecesse os livros, o que era causa de que ele não fosse de todo ignorante.
Reconhecia-se-lhe isso pelo ênfase com que falava.
Já dissemos que não nha um só vício. Quando se sen a sa sfeito de si próprio, concedia-se a distracção de tomar uma pitada de rapé. Era este um ponto pelo qual se ligava à humanidade.
Facilmente se compreende que Javert era o terror de toda esta classe, que a esta s ca anual do ministério da jus ça designa sob a rubrica de gente sem profissão.
Bastava pronunciar o nome de Javert para pô-la em debandada; o seu aparecimento petrificava-a.
Tal era este homem terrível.
Javert era uma espécie de olho sempre fito no senhor Madelaine, mas olho cheio de suspeitas e conjecturas. O senhor Madelaine chegou por fim a fazer reparo nisso, mas pareceu não lhe dar cuidado nenhum semelhante coisa. Não fez uma só pergunta a Javert, não o procurava nem lhe evitava a presença; lançava a tudo, sem parecer dar por tal, aquele seu olhar mor ficante e quase pesado, tratando Javert como a toda a gente, com bondosa afabilidade.
Por algumas palavras que Javert deixara escapar, adivinhava-se que ele nha inves gado secretamente, com a curiosidade que denuncia a raça e onde há tanto de ins nto como de vontade, todos os ves gios anteriores que o senhor Madelaine vesse por acaso deixado atrás de si noutras partes. Parecia saber e dizia-o às vezes, enigma camente, que alguém tomara várias informações em certa terra, a respeito de uma família que desaparecera. Uma vez chegou até a dizer, falando consigo próprio:
«Parece-me que o filei!» Depois disto, andou três dias pensa vo, sem pronunciar uma palavra. Parecia ter-se-lhe quebrado o fio que conseguira segurar.
Apesar de tudo isto, e é este o correc vo necessário ao sen do demasiadamente absoluto que se poderia dar a certas palavras, não pode haver nada verdadeiramente infalível numa criatura humana, e a principal propriedade do ins nto consiste precisamente em poder ser perturbado, apanhado e derrotado. Sem isto seria superior à inteligência, e encontrar-se-ia no animal melhor luz que no homem.
Javert ficara evidentemente algum tempo embaraçado com a serenidade e o modo inteiramente natural do senhor Madelaine.
Um dia, todavia, o estranho proceder daquele homem pareceu impressionar o maire de Montreuil-sur-mer. Eis aqui em que ocasião.
VI —Fauchelevent
O senhor Madelaine, certa manhã, indo a passar por uma viela de Montreuil-sur-mer, ouviu barulho, olhou e, vendo um grupo de gente a alguma distância, dirigiu-se para ali.
A causa daquele ajuntamento era um velho chamado Fauchelevent ter caído, ficando debaixo das rodas do carro que guiava, acidente devido ao cavalo que o puxava ter tropeçado e caído também.
Este Fauchelevent era um dos raros inimigos que o senhor Madelaine nha ainda naquela época. Quando Madelaine veio estabelecer-se na terra, Fauchelevent, an go
tabelião e aldeão quase letrado, negociava, mas o seu negócio principiava a correr mal.
Fauchelevent viu enriquecer aquele simples operário, enquanto que ele, sendo patrão, se arruinava, e isto acometeu-o de inveja, de maneira que daí em diante não perdeu uma só ocasião de prejudicar Madelaine no que podia. Viera, porém, a quebrar, e vendo-se velho, sem família e sem filhos, sem ter de seu mais que um carro e um cavalo, fez-se carroceiro para ganhar a vida.
O cavalo nha as duas pernas quebradas, não podendo por isso levantar-se, e o velho estava entalado entre as duas rodas. A queda fora de tal modo desastrosa, que todo o peso da carroça, demasiado carregada, lhe oprimia o peito. O pobre velho soltava os mais dolorosos gemidos, devido às dores que sen a. Haviam tentado rá-lo dali, mas em vão. Qualquer esforço mal aplicado, qualquer ajuda pouco jeitosa, podia matá-lo. Era impossível livrá-lo de tão terrível posição, senão levantando a carroça por baixo. Javert, que apareceu ali no momento do desastre, mandou imediatamente buscar um macaco para levantar o carro.
Foi nesta ocasião que chegou o senhor Madelaine e todos se afastaram respeitosamente.
— Quem me acode! — gritava Fauchelevent. — Não há aí uma alma caridosa que acuda ao pobre velho?
O senhor Madelaine voltou-se para os assistentes.
— Não há por aí um macaco?
— Foram já arranjá-lo — respondeu um aldeão.
— Quanto tempo levará a chegar?
— Mandou-se aonde era mais perto, ao lugar de Flachot, onde há um ferrador, mas mesmo assim não gastará menos dum quarto de hora para chegar aqui.
— Um quarto de hora! — exclamou Madelaine.
Como nha chovido na véspera, o terreno estava encharcado, de maneira que o carro se enterrava cada vez mais, oprimindo cada vez mais o peito do desventurado velho. Era evidente que antes de cinco minutos estaria com as costelas quebradas.
— É impossível esperar um quarto de hora — disse Madelaine para os que o rodeavam.
— Pois não há outro remédio!
— Mas então já será tarde! Não vêem como a carroça se vai enterrando?
— Valha-nos Deus!
— Escutem — tornou Madelaine — debaixo da carroça há ainda bastante espaço para que ali se meta um homem e a levante com as costas. Bastará erguê-la por meio minuto, para que se possa rar o pobre homem. Se houver aqui alguém que tenha força e bom coração, ganhará por isso cinco luíses de oiro!
Nem um só se mexeu no meio do grupo.
— Dez luíses! — disse Madelaine.
Todos os presentes baixaram os olhos e um deles murmurou:
— Era preciso ser de ferro... E depois pode-se ficar esmagado.
— Vamos! — tornou Madelaine. — Vinte luíses!
O mesmo silêncio.
— Não é boa vontade o que lhes falta! — disse uma voz.
Madelaine voltou-se e reconheceu Javert, em quem não nha reparado quando ali chegara. Javert continuou:
— O que lhes falta é força. Seria preciso um homem muito possante para levantar com os ombros um carro destes.
Depois, olhando fixamente para Madelaine, prosseguiu, acentuando cada uma das palavras que pronunciava:
— Senhor Madelaine, ainda não conheci senão um homem que fosse capaz de fazer o que o senhor quer.
Madelaine estremeceu.
Javert acrescentou com ar de indiferença, mas sem despregar os olhos de Madelaine:
— Era um forçado.
— Ah! — exclamou Madelaine.
— Que estava nas galés de Toulon.
Madelaine empalideceu.
Entretanto, a carroça con nuava a enterrar-se vagarosamente. Fauchelevent gemia e gritava:
— Acudam-me, senão morro aqui esmagado!
Madelaine tornou a olhar em volta de si.
— Então não há ninguém que queira ganhar vinte luíses, salvando a vida a este pobre homem?