Os Miseráveis
II — Hougomont
Estava um lindo dia de sol; sobre uma grande árvore, cujos ramos rumorejavam com esse sussurro mal dis nto, que mais parece provir dos ninhos que do vento, balouçava-se um passarinho, naturalmente amoroso, descantando em apaixonados gorjeios.
O viajante curvou-se e pôs-se a examinar uma escavação circular bastante grande, semelhante ao alvéolo de uma esfera, pra cada numa pedra no fundo do pé direito da porta. Neste momento abriram-se os batentes que a fechavam e saiu uma aldeã, que, ao ver o viajante e percebendo o que ele estava a examinar, disse-lhe:
— Foi uma bala francesa que fez isso. — E depois acrescentou: — O que ali vê em
cima, ao pé daquele prego, é o buraco de uma grande bala que não chegou a atravessar a madeira.
— Como se chama este lugar? — perguntou o viandante.
— Hougomont — disse a aldeã.
O viajante endireitou-se e deu alguns passos para ir olhar de cima das sebes, de onde por entre as árvores que se destacavam no horizonte avistou um mon culo, e sobre ele o que quer que fosse, que de longe parecia um leão.
Estava no campo da batalha de Waterloo.
II — Hougomont
Hougomont foi um lugar fúnebre; o começo do obstáculo, a primeira resistência que em Waterloo se opôs ao grande lenhador da Europa, que se chamava Napoleão; o primeiro nó que ele encontrou sob o machado.
Era um palácio acastelado, agora é apenas um casal.
Hougomont, para o an quário, é Hugomons. Este solar foi construído por Hugo, sire de Somerel, o mesmo que dotou a sexta capelania da abadia de Villers.
O viajante abriu a porta, empurrou uma caleça que pejava o alpendre e entrou no pátio.
A primeira coisa que lhe atraiu a atenção foi uma porta do século XVI, que ali simula uma arcada, por se haver derrocado tudo em torno dela. O aspecto monumental nasce muitas vezes da ruína Próximo desta arcada abre-se num muro outra porta cujo cimo se fecha pelo modo usado no tempo de Henrique IV, deixando ver as árvores de um pomar.
Ao lado desta porta uma estrumeira, enxadas, pás, alguns carrinhos de mão, um velho poço com o seu desaguadouro e molinete de ferro, um galo saltando, um peru todo entufado andando majestosamente de roda, uma capela sobrepujada por um campanariozinho, e tendo a parede exterior coberta de ervilheira em latada, toda florida; tal era o pá o cuja conquista cons tuiu um sonho de Napoleão. Se vesse podido apoderar-se deste canto de terra, apoderar-se-ia talvez do mundo. Vêem-se ali algumas galinhas espalhando a terra com o bico, e ouve-se ganir: é um grande cão subs tuindo os ingleses. Neste sí o foram eles admiráveis. As quatro companhias das guardas de Cooke, resistiram ali durante sete horas, ao encarniçamento de um exército.
Hougomont, visto no mapa, em plano geométrico, compreendendo os edi cios e tapadas, apresenta uma espécie de rectângulo irregular, no qual fosse entalhado um dos ângulos. É neste ângulo que fica a porta meridional, guardada pelo muro, que a fuzila à queima-roupa.
Hougomont tem duas portas; a meridional, que é a do solar, e a setentrional, que é a do casal Napoleão mandou contra Hougomont seu irmão Jerónimo; as divisões Guileminot, Foy e Bachelu, ali se encontraram; quase todo o corpo de Reille, ali foi empregado e aniquilado; os esforços das balas de Kellerman foram inúteis sobre o heróico muro.
Não foi demais a brigada Bouduin para forçar Hougomont pelo norte; do sul, a brigada Soye pôde apenas fazer-lhe mossa, sem consegui-lo.
As construções do canal orlam o pá o do lado sul. Preso ao muro está pendurado um
pedaço da porta do norte, despedaçada pelos franceses. São quatro tábuas pregadas sobre duas travessas, nas quais se distinguem ainda os vestígios do ataque.
A porta setentrional, arrombada pelos franceses, e na qual puseram um remendo para subs tuir a almofada suspensa do muro, entreabre-se quase quadrada num muro do fundo do pá o, na base dele e por cima de ladrilho. É uma simples porta de carro como costuma haver em todos os casais, de dois largos batentes feitos de tábuas toscas, do outro lado os campos. A disputa desta entrada foi furiosa. Por muito tempo se viram, por cima da porta, toda a espécie de vestígios de mãos ensanguentadas.
Foi neste sítio que morreu Bauduin.
A tempestade do combate sente-se ainda neste pá o; o horror nele é visível; o destroço da refrega está ali petrificado; sente-se a vida e a morte, como se fosse ainda ontem. As paredes agonizam, as pedras caem, as brechas gritam, os buracos são feridas, as árvores inclinadas e trémulas parecem fazer esforços para fugir.
Em 1815 este pá o era mais enlabirintado de edi cios do que o é hoje. Essas construções, depois deitadas a terra, formavam frentes, ângulos e esquinas, que já hoje não existem.
Aí se entrincheiraram os ingleses e penetraram os franceses, os quais não puderam, contudo, sustentar-se naquela posição. Ao lado da capela, sobressai em ruínas um lanço do solar, único fragmento que resta da mansão de Hougomont. O castelo serviu de reduto, a capela, de for m. Naquele dia, cada qual procurava exterminar o seu adversário. Os franceses, espingardeados de todos os lados, por trás das muralhas, de cima dos celeiros, do fundo das adegas, por todas as janelas e pos gos, por todas as fendas das pedras, trouxeram faxina, e lançaram o fogo às paredes e aos homens à metralha replicaram com o incêndio.
No lanço arruinado entrevêem-se ainda por entre as grades de ferro, que guarnecem as janelas, os quartos demolidos de um edi cio construído de jolo, nos quais se nham emboscado os guardas ingleses; a espiral da escada, rachada desde o chão até ao telhado, parece o interior de uma concha esmagada. Os ingleses, cercados na escada, que tem dois lanços, refugiaram-se nos degraus superiores, cortando os inferiores, para obstar à subida dos inimigos. Os degraus são hoje um montão de pedras, por cujas fendas crescem espontâneas as ur gas em abundância. Juntos à parede apenas se conservam uns dez, sobre o primeiro dos quais se vê gravada a imagem de um tridente.
Estes degraus inacessíveis estão sólidos nos seus alvéolos; o resto parece uma queixada sem dentes.
Duas árvores existem ali, uma morta, outra ferida no pé; esta úl ma reverdece em Abril, e desde 1815 que cresce por entre a escada.
O interior da capela, que par cipou também do horror da luta, oferece um espectáculo estranho. Lá está ainda, encostado a um fundo de pedra bruta, o grosseiro altar de madeira, onde se não tornou a dizer missa desde aquele dia de carnificina.
Quatro paredes caiadas, uma porta defronte do altar, duas janelas pequenas em arco, um grande crucifixo de madeira por cima da porta, por cima do crucifixo um pos go quadrado, tapado com um molho de feno, e no chão, a um canto, uma vidraça velha toda quebrada eis o que é a an ga capela. Ao pé do altar está colocada uma imagem de Sant’Anna, de madeira, do século XV; a cabeça do menino Jesus foi levada por uma bala.
Os franceses, um momento senhores da capela, mas desalojados logo, deitaram-lhe fogo.
As chamas envolveram-na, convertendo-a numa fornalha, e queimando a porta e o soalho, só escapando o Cristo de madeira. O fogo consumiu-lhe os pés, dos quais apenas se vêem os cotos enegrecidos; depois, parou, o que foi um milagre, no dizer da gente da terra. O menino Jesus decapitado não foi tão feliz como o Cristo.
As paredes estão cobertas de inscrições. Por baixo dos pés do Cristo lê-se este nome: Henquinez. Depois estes outros: Conde de Rio Maior; Marquês y Marquesa de Almagro (Habana). Aquela parede, caiada em 1849, e sobre a qual se lêem nomes franceses com pontos de exclamação, como indicando cólera, era o lugar onde mutuamente se insultavam as nações.
À porta da capela foi encontrado um cadáver que ainda nha agarrado na mão um machado. Era o do alferes Legros.
Ao sair da capela encontra-se um poço à esquerda e pergunta-se:
— Porque não há aqui balde nem roldana?
— Porque já não se tira água dele.
— Então porque não se tira água dele?
— Porque está cheio de esqueletos.
O último que tirou água desse poço chamava-se Guilherme Van Kylsom; era um aldeão morador em Hougomont, onde exercia a profissão de jardineiro. No dia 18 de Junho de 1815, a família dele fugiu e foi esconder-se nos bosques.
A floresta que se estende em volta da abadia de Villers abrigou por espaço de muitos dias e muitas noites estas infelizes povoações dispersas. Ainda hoje se vêem ves gios reconhecíveis, como troncos de árvores queimados, que denotam o local destes pobres bivaques errantes no meio das sarças.
Guilherme Van Kylsom ficou em Hougomont «para guardar o solar»; os ingleses foram dar com ele numa adega, onde se agachara, e, arrancando-o do seu esconderijo, obrigaram-no a servi-los, à força de espadeiradas. Os combatentes nham sede, Guilherme levou-lhes de beber. Era desse poço que ele rava a água. Muitos beberam ali o derradeiro trago. Esse poço onde beberam tantos mortos tinha também de morrer.
Após o combate, tratou-se com azáfama de dar sepultura aos cadáveres. A morte tem uma maneira própria de perseguir o vencedor, fazendo acompanhar a glória pela peste.
O fo é um apenso do triunfo. Do poço, pois, que era fundo, fizeram um sepulcro e deitaram nele trezentos mortos, talvez com demasiada pressa. Estariam todos realmente mortos? Diz a lenda que não. Parece que na noite seguinte ao dia em que se sepultaram aqueles trezentos cadáveres se ouviram sair vozes fracas como de quem chamava.
O poço fica isolado no meio do pá o, rodeado de três lados por três paredes de pedra e jolo, dobradas como as folhas de um biombo, e fingindo um torreão quadrado. O
quarto lado está em aberto, e é por ali que se ra a água. A parede do fundo tem um como óculo informe, talvez feito por alguma granada. Do tecto do torreão apenas restam as traves, e os gatos de ferro, que sustentam a parede, desenham uma cruz.
Inclina-se a gente e perde-se a vista num profundo cilindro de jolo, cheio de trevas.
Em roda das paredes que cercam o poço crescem moitas de ur gas que lhes escondem as extremidades inferiores.
Não tem este poço a larga pia azul que serve de aparador a todos os poços da Bélgica; a pia azul é subs tuída nele por um travessão, em que se apoiam cinco ou seis troços de madeira cheios de nós e encurvados, semelhando grandes ossadas. Nem balde, nem cadeia, nem roldana se vê ali já, mas ainda ali se conserva a celha que servia de desaguadouro. Ali se junta a água da chuva, e vem de tempos a tempos alguma ave da floresta, que, depois de beber, levanta voo e foge.
Há ainda uma casa habitada no meio destas ruínas; é a casa da herdade, cuja porta dá para o pá o. Junto à chapa da gó ca fechadura, vê-se um puxador de ferro posto de esguelha. Na ocasião em que o tenente hanoveriano Wilda deitava a mão a este puxador, para se refugiar na herdade, cortou-lhe a mão com um golpe de machado um sapador francês.
A família que ocupava a casa tem por avô o an go jardineiro Van Kylsom, que morreu há muito. Na ocasião em que ali es vemos, disse-nos uma mulher de cabelos russos:
«Tinha eu três anos, quando aqui se deu a batalha. Minha irmã, que era mais velha, chorava com medo. Levaram-nos para os bosques e eu fui nos braços de minha mãe.
Enquanto os outros se deitavam no chão e se punham a escutar com o ouvido colado à terra, eu imitava o estrondo das peças, fazendo: bum! bum!»
O pomar, para o qual, como já dissemos, dá uma porta situada à esquerda, é terrível.
Compõe-se de três partes, ou quase, para melhor dizer, de três actos. A primeira é um jardim, a segunda é o pomar, a terceira é um bosque. Estas três partes têm um recinto comum, do lado da entrada dos edi cios do solar e da herdade; à esquerda uma sebe, à direita uma parede, ao fundo outra parede, aquela de tijolo, esta de pedra.