Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 158 de 359

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Os Miseráveis

IV — Aspirante centenário

O trajo de Gillenormand não era o vestuário de Luís XV nem mesmo o de Luís XVI; era o dos incríveis do Directório. Julgara-se jovem até àquela época e por isso seguira até então a moda. Trajava, pois, uma casaca de pano leve de rebuço largo, com rabo de pega e botões de aço. Além disto, o calção curto e os sapatos de fivelas. Trazia sempre as mãos nos bolsos do colete.

Costumava dizer em tom de autoridade: «Isto de revolução francesa não passa de uma corja de vagabundos».

III — Lucas Espírito

Uma noite, na Ópera, quando contava dezasseis anos, o senhor Gillenormand vera a honra de ser ao mesmo tempo olhado por duas belezas, então maduras, célebres por terem sido cantadas por Voltaire: a Camargo e a Sallé. Apanhado entre dois fogos, efectuara uma re rada heróica em direcção a uma pequena dançarina sem dúvida chamada Nahenry, que nha como ele, dezasseis anos e que era obscura como um gato, da qual se sen a enamorado. Neste capítulo eram abundantes as suas recordações; às vezes, exclamava: «Como estava bonita aquela Guimard, Guimardini, Guimardine e, a úl ma vez que a vi em Longchamps, frisada em sen mentos sustentados, como os seus vinde aqui ver de turquesas, o seu ves do cor de recém-chegada e o seu regalo de agitação!»

Na sua adolescência usara uma veste de Nain-Londrain, de que falava muitas vezes com saudade, «Parecia um turco do Levante Levan no», dizia ele. A senhora de Bouflers, tendo-o visto, por acaso, quando ele tinha vinte anos, qualificara-o de louco encantador.

Sen a-se incomodado com todos os nomes que via figurar na polí ca e no poder, porque os achava baixos e burgueses. Lia os periódicos; os papéis novos, as gazetas, como ele dizia, contendo o riso. «Que gente é esta?» exclamava ele. «Borbiére! Humann!

Casimiro Perrier! E são isto ministros! Não seria má farsada! São tão estúpidos, que não seria isto impossível!» Denominava alegremente todas as coisas pelos seus nomes limpos, ou sujos, não se contendo nem mesmo na presença de senhoras.

Dizia grosserias, obscenidades e porcarias, com um não sei quê de tranquilo e pouco admirado, que nha certa elegância. Era a sem-cerimónia do seu século. É muito para notar que a época das perífrases em verso fosse o tempo das incivilidades em prosa. Seu padrinho predissera que havia nele um homem de espírito e de génio; e dotara-o com os dois pronomes significativos: Lucas Espírito.

IV — Aspirante centenário

Na sua infância, Gillenormand fora premiado no colégio de Moulins, terra do seu nascimento, e coroado pela mão do duque de Nivernais, a quem ele chamava o duque de Nevers. Nem a Convenção, nem a morte de Luís XVI, nem Napoleão, nem a volta dos Bourbons, nada nha podido apagar-lhe da memória a lembrança dessa coroação. A grande figura do século para ele era o duque de Nevers. «Que galante fidalgo!» dizia. «E

que linda figura ele fazia com o seu cordão azul!» Aos olhos de Gillenormand, Catarina II havia resgatado o crime da divisão da Polónia, comprando por três mil rublos o segredo do elixir de ouro a Bestuchef. Quando falava disto, animava-se. O elixir de ouro!

exclamava ele, a ntura amarela de Bestuchef, as gotas do general Lamo e, de que cada frasco de meia onça custava um luís, eram o grande remédio para as catástrofes do amor, a panaceia contra Vénus no século XVIII. Luís XV mandava duzentos frascos dele ao Papa. Se alguém lhe dissesse que o elixir de ouro era apenas o percloreto de ferro, tê-lo-ia feito exasperar e dar por paus e por pedras.

Gillenormand adorava os Bourbons e professava extremo horror a 1789; contava a cada passo o modo como se salvara na época do Terror e como vera de mostrar-se sumamente folgazão e obrar com toda a finura para não ficar com a cabeça despegada dos ombros. Se por acaso algum mancebo caía em tecer na sua presença elogios à