Os Miseráveis
V — Cosette depois da carta
e às emoções vulgares, domina as nuvens e as sombras deste mundo, as loucuras, as men ras, os ódios, as vaidades e as misérias, habita a amplidão do céu, e apenas sente os profundos e subterrâneos abalos do des no, como o cimo das montanhas sente as convulsões do terramoto.
***
Se no mundo não houvesse quem amasse, apagar-se-ia o Sol.
V — Cosette depois da carta
À medida que a jovem ia lendo, gradualmente se lhe ia alando o espírito para cogitações estranhas a tudo o que a cercava. No instante em que ela desfitava os olhos da úl ma linha do papel, passava por diante da grade, como era seu costume àquela hora, o belo oficial meneando-se airoso e com ar triunfante, e Cose e achou-o hediondo Depois deste incidente, que levemente a distraiu, voltou à contemplação daquele papel que nha nas mãos. Era escrito em lindíssima letra, no sen r de Cose e, pela mesma mão, mas com ntas diversas, em partes muito carregadas, em parte esbranquiçadas, como acusando renovação de nta no nteiro, e, por consequência, em dias diferentes.
Claro estava, portanto, que aquele manuscrito era a expansão de um pensamento, feita suspiro a suspiro, sem ordem, nem escolha, nem fim, inteiramente ao acaso e irregularmente. Nunca a jovem lera coisa assim. Aquele manuscrito, em que ela ainda via mais luz do que escuridão, fazia-lhe o efeito de um santuário entreaberto. Resplendia-lhe aos olhos e inundava-lhe o coração de uma como luz estranha cada uma daquelas misteriosas linhas. A educação que recebera falara-lhe sempre da alma, mas nunca do amor, como quem falasse do ção e não da chama. Aquele manuscrito de quinze páginas revelava-lhe repen na, mas suavemente, todos os segredos do amor, da dor, do des no, da vida, da eternidade, o princípio e o fim. Era uma como mão que se abria, a rando-lhe de chofre ao coração um punhado de raios. Naquelas poucas linhas que os seus olhos viam, sen a ela uma natureza apaixonada, ardente, generosa, honesta, um desejo santo, uma dor imensa e uma imensa esperança, um coração em afago de ânsias, um êxtase em expansão de delícias. Que era aquele manuscrito? Uma carta. Carta sem direcção, sem nome, nem data, nem assinatura, instante e desinteressada, conjunto enigmá co de verdades, mensagem de amor para ser trazida por um anjo e lida por uma virgem, entrevista em regiões que não eram da terra, carta amorosa de um fantasma a uma sombra. Era a mensagem de um ausente que com o coração alanceado, mas o rosto sereno, parecia estar esperando o refúgio da morte, enviando à ausente o segredo do des no, a chave da vida, o amor. Aquelas linhas haviam sido escritas com o pé no túmulo e o dedo no céu. Quase as chamaríeis gotas da alma, caídas uma a uma sobre aquele papel.
Mas de quem viriam aquelas páginas? Que mão as teria escrito?
A hesitação de Cosette não durou um minuto. Um único homem podia ser.
Ele!
De novo se lhe inundou o espírito dos clarões perdidos entre as sombras do olvido; de novo voltaram a ele as miragens apagadas pelo entenebrecer do esquecimento.
Experimentava uma alegria inaudita e uma agonia penetrante. Fora ele, ele que lhe
escrevera, que condensara naquele papel os eflúvios castos da sua alma apaixonada, que metera o braço por entre aquelas grades e depusera naquele banco o edite em que amealhara as riquezas do seu coração amante! E ele vinha encontrá-la, talvez depois de bem penosos esforços, ao passo que ela nem sequer se lembrava. Nem sequer dele se lembrava?! Porventura o esquecera ela? Oh, não! Nunca! Louca que fora, acreditando um instante que assim nha sido. Amara-o sempre, sempre o adorara! Escondera-se o fogo e permanecera algum tempo encoberto, mas fora, como ela via, para minar por mais fundo e rebentar agora de novo, abrasando-a toda. Aquele papel era uma como faísca caída de outra alma para incendiar a sua. E esse novo incêndio sen a-o ela principiar, a cada palavra do manuscrito, que lhe acordava os ecos de uma voz já conhecida.
— Oh, como eu reconheço tudo isto! — dizia ela consigo. — É o mesmo que, antes de ver com os meus olhos aqui, já tinha lido nos dele!
Ao findar pela terceira vez a leitura do manuscrito, passava de novo por diante do portão o tenente Teodulo, batendo os pés nas lajes da rua para tornar mais sensível o nido das esporas. Não pôde Cose e tanto consigo que não levantasse os olhos, e, ao dar com eles no lanceiro, achou-o desengraçado, parvo, tolo, pretensioso, fátuo, desairoso, imper nente e feio. Entendeu o oficial que devia sorrir-se para ela. Cose e voltou-lhe as costas, envergonhada e indignada. O seu desejo naquele momento fora atirar-lhe com o que quer que fosse à cara.
Em seguida deitou a fugir, entrou em casa e meteu-se no quarto para mais uma vez ler o manuscrito, até o saber de cor, e para se entregar a todas as reflexões, doces reflexões, a que ele lhe deixava vasto campo aberto. Lido e relido o precioso manuscrito, beijou-o e meteu-o no seio.
Não havia que duvidar. Cose e volvera ao profundo amor seráfico. Outra vez se lhe abrira o abismo Éden.
No decurso desse dia, Cose e andou sempre como que aturdida, sem poder coordenar um só pensamento, ligar uma só ideia das que tumultuosamente se lhe amontoavam no cérebro, tão confusas como uma meada emaranhada, formar uma só conjectura. Esperava nos trémulos anseios da sua paixão. O quê? Nem ela o sabia. Coisas vagas, pois não ousava a si mesma prometer-se nada; tudo, pois nada queria recusar-se a si própria. De vez em quando passava-lhe pelo rosto súbita palidez e estremecimentos por todo o corpo. Às vezes afigurava-se-lhe ser apenas o ludíbrio de um sonho, e então era o perguntar-se no silêncio do seu coração pela realidade do que via e o apalpar sob o estofo do ves do o papel bem amado, o apertá-lo contra o coração, até sen r na carne as dobras dele. Se Jean Valjean a visse naquele momento, teria estremecido na presença da alegria luminosa e desconhecida que lhe transbordava das pálpebras.