Os Miseráveis
VII — Às vezes naufraga-se onde se julga desembarcar
Uma depressão da calçada, mal sus da, pela areia subjacente, fizera empoçar as águas da chuva. Operando-se a infiltração seguira-se o desmoronamento. O escoadouro, deslocado, enterrava-se no lodo. Em que extensão? Era impossível dizê-lo. A escuridão ali era mais densa do que em qualquer outro ponto. Era um buraco de lama numa caverna de trevas.
Jean Valjean sen u faltar-lhe o terreno debaixo dos pés. Entrou naquele lodaçal. Era água na super cie, e no fundo era lodo! Contudo, necessitava passar. Voltar para trás era impossível. Mário estava agonizante, Jean Valjean exausto. Além disto para onde poderia ir? Jean Valjean prosseguiu no seu caminho. Depois o charco pareceu-lhe pouco profundo ao dar os primeiros passos. Mas, à medida que ia avançando, sen a mergulhar
mais os pés. Em pouco tempo chegava-lhe o lodo até meio da perna e água acima dos joelhos. Caminhava, erguendo Mário o mais que podia, com ambos os braços, acima da água. O lodo chegava-lhe já às curvas das pernas e a água à cintura. Já não podia recuar.
A cada passo mergulhava mais e mais.
Aquele lodo, bastante denso para o peso dum homem, não podia evidentemente suportar o de dois.
Mário e Jean Valjean teriam do probabilidade de se rarem dali, mas cada um de per si.
Jean Valjean con nuou a avançar, sustentando sempre o moribundo, que era. Já talvez um cadáver.
A água já lhe dava por baixo dos braços; sen a-se soçobrar; só com muito custo podia mover-se na profundidade de lodo em que se achava. A densidade, que era o sustentáculo, era também o obstáculo. Con nuava a erguer Mário quanto possível; e com inaudito dispêndio de forças, ia indo para a frente, mas submergindo-se cada vez mais. Já não nha fora de água senão a cabeça e os braços, elevando Mário. Nas velhas pinturas que representam o dilúvio, há uma mãe que diligencia assim salvar seu filho.
Como con nuava a sen r-se ir para baixo, inclinou a cabeça para trás, com o fim de afastar a boca da água e poder respirar; quem o vesse visto naquela escuridão julgaria estar vendo uma máscara flutuante na sombra: acima de si dis nguia vagamente a cabeça pendente e o rosto lívido de Mário; fez um esforço desesperado e lançou o pé para a frente; o pé topou com um objecto sólido: um ponto de apoio. Era tempo.
Endireitou-se, inteiriçou-se, e como que lançou raízes com uma espécie de fúria, naquele ponto de apoio, o que lhe produziu o efeito do primeiro degrau duma escada para a vida.
Aquele ponto de apoio achado no lodo e no momento supremo, era o começo de outra vertente do escoadouro, que cedera sem se destruir e se curvara debaixo de água
— como uma tábua e numa só peça. Os empedramentos bem feitos formam abóbada e apresentam destas firmezas,
Aquele fragmento do escoadouro, em parte submergido, mas sólido, era uma verdadeira rampa, e uma vez sobre ele estava-se salvo. Jean Valjean subiu por aquele plano inclinado e chegou ao outro lado do charco.
Ao sair da água bateu numa pedra, que o fez ajoelhar. Achou que era justo e permaneceu assim algum tempo, com a alma entregue a não sei que palavra dirigida a Deus.
Tornou a erguer-se, trémulo, gelado, infecto, curvado sobre o peso do moribundo, que ia, para assim dizer, arrastando, todo ele escorrendo lama, mas com a alma iluminada por estranha luz.
VII — Às vezes naufraga-se onde se julga desembarcar Ainda mais uma vez Jean Valjean se pôs a caminho. No fim de tudo, se não nha deixado a vida no sorvedouro, parecia-lhe ter deixado nela a força. Aquele supremo esforço exaurira-o de todo. O seu cansaço então era tal, que de três em três ou de quatro em quatro passos via-se obrigado a tomar o fôlego, encostando-se à parede.
Duma vez teve de se sentar na banqueta para mudar Mário de posição: julgou que ficaria ali. Mas se o seu vigor estava morto, não o estava a sua energia. Tornou portanto a erguer-se.
Começou a andar desesperadamente quase com pressa, deu deste modo uns cem passos, e de repente esbarrou com a parede. Chegara a um cotovelo do cano; e como ia com a cabeça baixa, foi mesmo direito à esquina; levantou os olhos, e na extremidade do subterrâneo, na sua frente lá muito longe, avistou luz. Desta vez não era a luz terrível; era a boa luz, a luz alva. Era o dia.
Jean Valjean avistava já a saída.
Uma alma condenada que do meio da fornalha avistasse inopinadamente a saída da gehena, experimentaria o que Jean Valjean experimentou. Voaria desorientadamente com os cotos das asas queimadas para a porta radiante. Jean Valjean deixou de sen r a fadiga e o peso de Mário, tornou a achar as suas pernas de aço, e passou a caminhar de modo que mais parecia correr. À medida que se aproximava, desenhava-se a saída mais dis ntamente. Era o Arco mais baixo que a abóbada, que ia baixando gradualmente, menos largo que a galeria e que estreitava na mesma proporção que a abóbada se baixava. O túnel terminava como o interior de um funil; contracção viciosa, imitada dos pos gos das prisões, lógica numa cadeia, desarrazoada num cano, e que depois foi corrigida.
Jean Valjean chegou à saída.
Ali, parou.
Era, com efeito, a saída, mas não era possível sair.