Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 276 de 359

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Os Miseráveis

VII — O homem recrutado na rua dos Billetes

Quando, a perna recurvando,

Teu braço airoso a cingia;

Eu sob o tecto da casa,

Uma estrela a brilhar via,

Li Platão, mas esqueceu-me;

Porém, se esses dedos teus

Uma florinha me davam...

Cria logo no bom Deus.

Que amizade aquela nossa,

E como o tempo desliza...

As vezes via-te ao espelho,

A sorrir... só em camisa.

Como hei-de esquecer-me agora

Dessa quadra de luzeiros,

Quando o amor como avezinha,

Chilreava dias inteiros!

Um vaso, jardim nos era.

Cobria um pano a vidraça;

Em qualquer taça eu bebia Mas tu em chinesa taça,

E umas desgraças pequenas,

O mantelete a esgarçar,

A efígie de Shakespeare

Vendida para cear...

Beijava-te os braços nédios,

Depois as mãos pequeninas.

Um Dante in-fólio era a mesa

De centos de gelosias.

Quando, no canto em que vivo,

Teus lábios senti nos meus,

Tu saíste em desalinho,

Eu fiquei pensando em Deus,

Dessas auroras perdidas!,

Só resta o vago lembrar.

Oh, como os nossos suspiros

Se hão-de na sombra encontrar!

A hora, o local, as recordações da mocidade, algumas estrelas que começavam a brilhar no céu, o repouso fúnebre daquelas ruas desertas e a iminência da inexorável aventura que se preparava, davam um encanto paté co àqueles versos murmurados a meia voz no crepúsculo por Jean Prouvaire que, como dissemos, era um suave poeta.

Entretanto nham acendido uma lanterna na barricada pequena, e na grande um daqueles archotes de cera, como os que no dia do entrudo se vêm nas carruagens carregadas de máscaras, que se dirigem para a Cour lle. Estes archotes, como se viu, vinham do arrabalde de Santo António.

O archote fora colocado dentro de uma espécie de caixa feita de pedras, fechada por três lados, para o abrigar do vento, e disposto de modo que toda a luz reflec a na bandeira. A rua e a barricada ficavam mergulhadas na escuridão e não se via coisa alguma além da bandeira vermelha, formidavelmente iluminada por uma enorme lanterna de furta-fogo.

Aquela luz juntava ao escarlate da bandeira não sei que terrível púrpura.

VII — O homem recrutado na rua dos Billetes

Tinha já anoitecido e contudo não sobrevinha coisa alguma. Só se ouviam rumores confusos e por instantes alguns roteios, mas raro, pouco sustentado e longínquo.

Aquela dilação, que tanto se prolongava, era sinal que o governo aproveitava o tempo e reunia as suas forças. Aqueles cinquenta homens esperavam sessenta mil.

Enjolras sen u-se dominado pela impaciência que se apodera das almas fortes no limiar dos acontecimentos terríveis. De repente foi em busca de Gavroche, que se nha ido pôr a fazer cartuchos, na casa baixa, à claridade duvidosa de duas velas, colocadas à cautela sobre o balcão, por causa da pólvora que estava espalhada pelas mesas. Aquelas duas velas não davam o mínimo reflexo para a rua. Os insurgentes além disso nham tido todo o cuidado de não acender luz nos andares superiores.

Gavroche naquele momento estava muito preocupado, mas não precisamente com os seus cartuchos. O homem da rua dos Billetes, acabara de entrar na loja e sentara-se à mesa que estava no ponto mais escuro. Tinha-lhe cabido uma espingarda, de munição, de modelo grande, que conservara entalada nas pernas.

Gavroche até àquele momento, distraído por cem coisas «diver das», nem mesmo vira o homem. Quando entrou na loja, Gavroche seguiu-o maquinalmente com a vista, admirando-lhe a espingarda e depois, de repente, quando o homem se sentou, o gaiato levantou-se. Os que vessem espreitado o homem, tê-lo-iam visto observar todos os pormenores da barricada e todos os insurgentes com singular atenção; mas desde que entrara na loja da taberna, parecera recolher-se em si mesmo, dando mostras de não ver nada do que se passava. O gaiato aproximou-se do pensa vo personagem e começou a girar à roda dele nos bicos dos pés, como quando se receia acordar alguém que esteja dormindo. Então em seu rosto infan l, ao mesmo tempo tão descarado e sério, tão estouvado e profundo, tão jovial e pungente, todos esses indescri veis movimentos que significam: «Ora esta!» «Não pode ser!» «Tenho poeira nos olhos!» «Estou sonhando!»

«Pois será?...» «Nada, não é!» «Mas é!» «Não é, não é!», etc., etc.

Gavroche balouçava-se sobre os calcanhares, fechava os punhos dentro da algibeira, movia o pescoço como um pássaro e estendia em desmedida beiçola toda a sagacidade do seu lábio inferior. Estava estupefacto, incerto, incrédulo, convencido, deslumbrado.

Apresentava a fisionomia do chefe de eunucos no mercado de escravas, descobrindo-se uma Vénus entre estafermos e o ar de um amador de quadros reconhecendo um Rafael num montão de pinturas insignificantes. Tudo nele se achava em exercício; o ins nto que fareja e a inteligência que combina. Era evidente que estava sucedendo grande coisa a Gavroche.

Foi no momento em que estava mais profundamente preocupado, que Enjolras chegou junto dele.

— Tu és pequeno — disse Enjolras — por isso não te verão. Sai das barricadas, percorre essas ruas, sempre encostado às casas e vem contar-me o que vires ou o que ouvires.

Gavroche endireitou-se quanto pôde.

— Então já os pequenos servem para alguma coisa! Uma fortuna! Vou fazer o que me disse! Entretanto, fie-se nos pequenos e desconfie dos grandes...

E Gavroche levantando a cabeça e baixando a voz, acrescentou, designando o homem da rua dos Billetes:

— O senhor vê aquele grande que ali está?

— Vejo.

— É um agente da polícia.

— Estás bem certo disso?

— Ainda não há quinze dias que me rou pelas orelhas da cornija da ponte Real, onde eu estava tomando ar.

Enjolras afastou-se rapidamente do gaiato e murmurou algumas palavras quase em segredo a um trabalhador do mercado dos vinhos, que ali se encontrava. O trabalhador saiu da loja e tornou a entrar quase imediatamente acompanhado por mais três. Os quatro homens, quatro carregadores de largos ombros, foram-se colocar, sem fazer coisa alguma que pudesse atrair-lhe a atenção, atrás da mesa a que se achava encostado o homem da rua dos Billetes. Estavam evidentemente prontos para se lançarem a ele.

Enjolras aproximou-se então do homem e perguntou-lhe:

— Quem é o senhor?

O homem ouvindo esta pergunta inopinada sobressaltou-se. Mergulhou a vista até ao fundo das pupilas cândidas de Enjolras e pareceu ir ali abraçar-lhe o pensamento. Sorriu-se com um sorriso que con nha tudo que pode haver no mundo de mais desdenhoso, enérgico e resoluto e respondeu com grave altivez:

— Já vejo o que é... Pois bem, não nego!

— Você é espião?

— Sou agente de autoridade.

— Como se chama?

— Javert.

Enjolras fez um sinal aos quatro homens. Num abrir e fechar de olhos, antes que Javert houvesse podido voltar-se, foi agarrado pelo pescoço, lançado por terra, amarrado e apalpado.

Acharam-lhe um bilhe nho circular colocado entre dois vidros, tendo de um lado as armas da França com esta legenda: Vigilância e ac vidade, e do outro esta menção: JAVERT, inspector de polícia; cinquenta e dois anos de idade; e por baixo a assinatura de Gisquet, então prefeito de polícia.

Além disto, nha consigo um relógio e uma bolsa com algumas moedas de ouro. Foi-lhe deixada a posse do relógio e da bolsa. Por trás do relógio, no fundo do bolso, foi ainda encontrado um papelinho dobrado em quatro, que Enjolras logo desdobrou e onde leu estas linhas, escritas pelo próprio punho do prefeito da polícia:

«Apenas o inspector Javert tenha desempenhado a sua missão polí ca, assegurar-se-á, por uma vigilância especial, se é verdade aparecerem malfeitores na encosta da margem direita do Sena, junto da ponte de lena.»

Terminada esta inves gação, levantaram Javert, prenderam-lhe os braços atrás das costas e amarraram-no no meio da loja àquele célebre poste, que noutro tempo dera o seu nome à taberna.