Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 239 de 359

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Os Miseráveis

III — Auxílio dos comentários de Toussaint

Tornou a olhar para o chão. A sombra tinha desaparecido.

Entrou no arvoredo, procurou por todos os cantos, foi até à grade e não achou coisa alguma.

Sentiu-se realmente gelada. Seria uma alucinação?

O quê! Dois dias seguidos! Uma alucinação passa, mas duas alucinações? O mais inquietador era não ser a sombra decerto um fantasma. Os fantasmas já não usam chapéu redondo.

No dia seguinte, Jean Valjean regressou. Cose e «contou-lhe o que julgara ver e ouvir.

Esperava que seu pai a sossegasse e lhe dissesse encolhendo os ombros:

— És uma louquinha!

Jean Valjean tornou-se pensativo.

— Talvez não seja nada — disse ele.

E, separando-se dela sob um pretexto qualquer, dirigiu-se ao jardim e foi visto por Cosette, examinando a grade com muita atenção.

Durante a noite, acordou; daquela vez não se enganava, ouvia dis ntamente passos muito perto da varanda, mesmo por baixo da janela. Correu ao pos go e abriu-o.

Andava com efeito no jardim um homem, com um grosso pau na mão. No momento em

que ia para gritar, a Lua iluminou o perfil daquele homem. Era seu pai.

Tornou logo a deitar-se, dizendo:

— Como ele anda inquieto!

Jean Valjean passou aquela noite e as duas que se lhe seguiram no jardim. Cose e viu-o pelo seu postiguinho.

Na terceira noite, a Lua, decrescendo, começava a erguer-se mais tarde; seria uma hora da manhã quando ouviu uma grande risada e a voz de seu pai chamando-a. Saltou abaixo da cama, ves u um roupão e abriu a janela. Seu pai estava em baixo no tabuleiro de relva.

— Acordei-te para te sossegar — disse ele — olha, ali tens a sombra do chapéu redondo.

E indicou-lhe na relva uma sombra projectada pelo luar, que se assemelhava, com efeito, ao espectro de um homem que vesse um chapéu redondo. Era a sombra produzida pelo tubo de ferro de uma chaminé, com capitel, que se elevava acima de um telhado próximo.

Cose e riu-se também; todas as suas lúgubres suposições caíram, e no dia seguinte, almoçando com seu pai, gracejou muito sobre o sinistro jardim frequentado por sombras de tubos de chaminés

Jean Valjean ficou de novo completamente tranquilo; quanto a Cose e, nem mesmo reparou se o tubo da chaminé ficava bem na direcção da sombra que vira, ou julgava ver, e se a Lua se achava no mesmo ponto do céu. Não se interrogou muito sobre a par cularidade de um tubo de fogão, que receia ser surpreendido em flagrante delito e que se re ra quando lhe olham para a sombra, porque a sombra desaparecera quando Cose e se voltara, e nisto julgara não se enganar. O certo é que a demonstração de Jean Valjean pareceu-lhe completa e que se lhe varreu do sen do a ideia da possibilidade de análogos encontros, quer de dia, quer de noite.

Novo incidente, porém, sobreveio daí adias.

III — Auxílio dos comentários de Toussaint

Por uma tarde daquele mesmo mês de Abril, à hora em que Jean Valjean se achava fora, Cose e desceu ao jardim, e, após ter dado algumas voltas, veio sentar-se num banco de pedra situado junto à grade da entrada e defendido das vistas dos curiosos por um caramanchel, não obstante, da rua se poder chegar ao banco, metendo o braço por entre as grades do portão e os ramos que formavam a latada ou caramanchel.

O sol desaparecera havia já algum tempo. De instante a instante, agitava-se brandamente a ramagem das árvores ao contacto da viração fresca da noite.

Cosette, mergulhada em profunda cogitação, sentia-se gradualmente possuída de uma tristeza indefinida, dessa tristeza invencível, causada pelo declinar do dia, e que bem pode provir quem sabe? de um vago pensamento de além-túmulo, a essa hora em que o anjo dos sepulcros parece e levar-se no ar, apontando para as campas entreabertas.

Quem sabe se o anjo que assim pairava entre as sombras da hora crepuscular era Fantine?

Cose e levantou-se, deu vagarosamente um passeio pelo jardim, caminhando por

sobre a relva inundada de orvalho, dizendo a si mesma, através da espécie de sonambulismo melancólico em que estava mergulhada:

— A esta hora eram realmente precisos uns tamanquinhos para andar no jardim.

Pode apanhar-se uma constipação!

Em seguida voltou ao banco.

Porém, na ocasião em que se preparava para se sentar, reparou numa grande pedra colocada no lugar que ela nha deixado, e que há um instante com toda a certeza ali não estava.

Pôs-se a contemplá-la, pedindo a si mesma a explicação do que via, quando de súbito lhe acudiu e sobremodo a assustou a ideia de que aquela pedra não viera ali colocar-se de per si, que alguém. Já a pusera, metendo o braço por entre as grades. Desta feita não havia que duvidar; a pedra ali estava; portanto, o seu susto assentava num motivo real.

Cada vez mais apavorada pelos pensamentos a que dava margem este caso, deitou a fugir sem ter tocado na pedra nem olhar para trás, refugiou-se em casa, fechando precipitadamente a porta do caramanchel com quantos fechos nha, e depois de a trancar e segurar bem, procurou Toussaint e perguntou-lhe:

— Meu pai já veio?

— Ainda não, menina. 16

Jean Valjean, homem pensa vo e passeante nocturno, muitas vezes só pela noite dentro se recolhia a casa.

— Toussaint — tornou Cose e — você à noite tem sempre o cuidado de olhar que fiquem bem trancadas as janelas que deitam sobre o jardim e que fiquem bem corridos os fechos que encaixam naquelas coisas de ferro?

— Pois tenho, menina, pode estar descansada!

Bem sabia Cose e que nunca essa tarefa esquecia à boa mulher; todavia, não pôde ter-se que não acrescentasse:

— É porque isto por aqui é tão deserto...

— Isso é que é! — atalhou Toussaint. — Pode a gente aqui ser estrangulada sem ter tempo para dizer: «Ai Jesus!» E então logo para maior desgraça, como cá não fica o senhor, somos nós duas sozinhas, sujeitas às vezes a um perigo. Mas escusa de ter medo, menina, que eu às janelas e às portas não lhes deito unais fechos porque os não têm.