Os Miseráveis
II — A tia Plutarco não sente dúvida em explicar um fenómeno
Era tal a sua sa sfação que quase o não impressionara o medonho e tão inesperado encontro dos Thenardier naquele hediondo covil. Ele conseguira escapar-se; com os ves gios ninguém seria capaz de dar-lhe: que lhe importava o mais? Apenas lhe lembrava semelhante coisa para lastimar aqueles miseráveis
— Eles lá estão presos e impossibilitados de fazerem mal — dizia ele consigo. — Mas que desgraça de gente!
Quanto a medonha visão da barreira do Maine nem uma só palavra tornara Cose e a dizer a semelhante respeito.
Às vezes, à noite, Cose e punha-se a cantar, no modesto albergue do ferido, canções
tristes, que enchiam Jean Valjean de prazer. A jovem aprendera a cantar no convento com soror Santa Matilde e tinha a voz de uma toutinegra que tivesse alma.
Chegada a Primavera, em que o jardim tanto se opulentava de flores, de pássaros, de encantos, Jean Valjean disse à jovem:
— Tu já não vais ao jardim? Eu preferia que fosses.
— Como quiser, meu pai — respondeu Cosette.
E a jovem volveu aos seus passeios no jardim, para obedecer a seu pai, quase sempre só; pois, como algures deixamos dito, Jean Valjean raríssimas vezes vinha ao jardim, talvez com receio de ser visto pelas grades do portão.
A ferida de Jean Valjean tinha sido uma diversão.
Ao ver seu pai menos incomodado, quase restabelecido e na aparência sa sfeito, Cose e sen u um contentamento tão natural e tão suave, que nem deu por ele. Como não havia de ser assim, se aquele era o mês de Março, em que os dias já são maiores, o Inverno principia a ser afugentado pelos clarões da Primavera, levando sempre consigo uma maior ou menor parte das nossas tristezas? Depois chegou o Abril, es vo alvorecer, respirando frescores como todas as madrugadas, risonho como todas as infâncias, às vezes mesmo chorão como um verdadeiro recém-nascido que é. Nesse mês a natureza resplendeu de uns fulgores amenos, que passam do céu, das nuvens, das árvores, dos prados e das flores para o coração do homem.
Cose e, como jovem que era, não podia deixar de sen r-se reanimada aos eflúvios daquela alegria de Abril, imagem sua. Pouco a pouco, e sem dar por tal coisa, varreram-se-lhe do espírito todas as sombras que lho pejavam. Na Primavera afilaram-se as trevas das almas tristes, como os recantos escuros das cavernas com a luz do meio-dia. Assim acontecia, realmente, com Cose e, sem que ela, porém, desse por tal. Quando pela manhã, depois do almoço, após reiteradas instâncias, conseguia, por fim, arrastar seu pai até ao jardim por um quarto de hora, passeando com ele em frente da varanda e sustendo-lhe o braço enfermo, a cada instante lia, tudo a alegrava e ela não dava por nada disto.
Jean Valjean dizia então consigo, ao ver extasiado como a jovem volvia à primi va cor e frescura:
— Abençoada ferida!
E agradecia do coração aos Thenardier.
Restabelecido completamente, Jean Valjean con nuou a dar os seus solitários passeios crepusculares, como dantes.
Erro, porém, seria supor que se pode assim passear só pelos sítios ermos de Paris, sem deparar com algum mau encontro.
II — A tia Plutarco não sente dúvida em explicar um fenómeno Uma tarde, lembrou-se Gavroche, o gaiato, que estava em jejum, e não só isso, mas, o que ainda era mais aborrecido, que também no dia anterior não jantara. Resolveu, portanto, ver se arranjaria de cear e dirigiu-se para o lugar mais deserto da Salpêtrière, de onde costumam vir as boas fortunas, porque onde não há ninguém encontra-se alguma coisa, e foi caminhando até chegar a uma povoação, que lhe pareceu ser a aldeia
de Austerlitz.
Num dos seus precedentes passeios, notara naquele sí o um jardim, onde se achava um velho e uma velha, e logo em seguida ao jardim um pomar menos mau. Junto ao pomar ficava uma espécie de fruteiro mal resguardado, em que facilmente se poderia fazer a conquista de uma maçã. Uma maçã é uma ceia; uma maçã é a vida. O que perdeu Adão podia salvar Gavroche. Ora o jardim deitava para um beco solitário, orlado de silvas do lado das casas; por consequência, apenas o separava da desejada maçã uma sebe.
Dirigiu-se Gavroche para o jardim, deparou com o beco, conheceu o pomar, cer ficou-se do fruteiro, examinou a sebe; uma sebe é um obstáculo que se vence com um salto.
Óp ma era a hora; declinava o dia, no beco não se via nem um gato. Gavroche, portanto, principiou a escalada, mas de repente parou, porque ouviu falar no jardim, Espreitou por um dos interstícios da sebe.
A dois passos dele, do outro lado da sebe, justamente no sí o onde iria sair pela abertura que projectava abrir, havia uma pedra deitada ao comprido, formando uma espécie de banco, na qual estava sentado o velho, dono do jardim, e diante dele e em pé, a Velha que Gavroche noutra ocasião vira. Como a velha es vesse tartamudeando o que quer que fosse o gaiato pôs-se à escuta, pouco escrupuloso de devassar Vidas alheias.
— Senhor Mabeuf! — dizia a velha.
— Mabeuf! — disse consigo Gavroche. — Que ratão de nome!
Como o velho apostrofado não desse sinal de si, a velha tornou:
— Senhor Mabeuf!
— Que é, tia Plutarco? — Decidiu-se enfim o velho a responder, sem despegar os olhos do chão.
— Tia Plutarco! — murmurou Gavroche. — Outro nome ratão!
— O senhorio não está sa sfeito — tornou a a Plutarco, dirigindo-se ao velho, que não teve remédio senão entabular conversa.
— Porquê?
— Porque se devem três trimestres.
— E daqui a três meses dever-se-lhe-ão quatro!
— Diz que não tarda a pô-lo daqui para fora.
— Pois que ponha!
A mulher da lenha também insiste porque lhe paguem. Diz que não torna a dar mais uma acha fiada.
— Como há-de o senhor passar o Inverno, se não há com que acender o lume?
— Temos o Sol.
— O cortador diz que também não torna a dar carne sem lha pagarem.
— Pouco importa; a carne é pesada e nem por isso me faz bem ao estômago!
— Mas então que se há-de comer?
— Pão.
— O pior é que o padeiro quer que se lhe pague o que se lá deve e diz que sem ir
dinheiro não vem pão.
— Está bom.
— Que há-de então comer?
— Temos as maçãs do pomar!
— As maçãs! Lá isso é verdade, mas bem vê que sem dinheiro não se pode arranjar vida.
— Pois eu não o tenho!
A velha re rou-se e o velho ficou só e pôs-se a meditar. Gavroche meditava também.
Era quase noite.
O primeiro resultado da meditação de Gavroche foi, em vez de escalar a sebe, acocorar-se em baixo, no lugar onde os ramos deixavam uma clareira.
— Bravo! Uma alcova! — exclamara ele interiormente, ao dar pelo esconderijo em que se acolheu.
Ficava este tão próximo do banco do o Mabeuf que Gavroche ouvia o sussurro da respiração do octogenário.
Lembrando-se então de que quem dorme come, tratou de ver Se dormia.
Sono de gato era o de Gavroche, que com um olho dormia, com outro estava alerta.
No meio da claridade crepuscular, que ainda iluminava a terra, o beco desenhava uma linha lívida entre duas fileiras de silvedos.
De súbito, dois vultos assomaram no meio daquela faixa esbranquiçada, um adiante e outro atrás, mas a pequena distância.
— Aí vêm dois patuscos — rosnou Gavroche.
O primeiro vulto parecia um velho, alquebrado e pensativo, cujo vestuário era mais do que simples, caminhando vagarosamente em virtude da sua idade, o qual passeava à claridade das estrelas.
O segundo era direito, firme e delgado. Regulava o seu passo pelo passo do primeiro, mas conhecia-se flexibilidade e agilidade na voluntária len dão com que caminhava.
Este vulto apresentava, com o que quer que era de feroz e inquietador, o todo que então se chamava um elegante; o chapéu era de forma moderna, a sobrecasaca preta, bem feita, talvez de boa fazenda e justa ao corpo. Erguia-se-lhe a cabeça com uma espécie de donaire robusto, entrevendo-se por baixo do chapéu, à luz do crepúsculo, um pálido rosto de adolescente, com uma rosa na boca. Este segundo vulto era bem conhecido de Gavroche; era Montparnasse.
Quanto ao outro, o gaiato nada podia dizer senão que era um pobre velho Gavroche pôs-se logo em observação. Um daqueles dois passeantes necessariamente nha projectos a respeito do outro Gavroche estava em óp ma situação para ver o que dali se seguiria A alcova transformou-se em esconderijo
Montparnasse à caça num tal lugar e a semelhante hora, era coisa ameaçadora Gavroche sentiu as entranhas de gaiato contraírem-se-lhe com dó do velho.
O que havia de fazer? Intervir? Uma fraqueza socorrendo outra Seria coisa para provocar o riso a Montparnasse. Gavroche não diligenciava iludir-se. Demais sabia ele que seria um abrir e fechar de mão para aquele temível malfeitor de dezoito anos dar
cabo do velho e dele Enquanto Gavroche deliberava, teve lugar o ataque, repentino e feroz. Ataque de tigre contra o onagro, ataque da aranha contra a mosca. Montparnasse a rou a rosa fora, acometeu o velho de salto, agarrou-se-lhe ao pescoço e pendurou-se-lhe com tal fúria e inopinada celeridade, que Gavroche a custo pôde reter um grito.
Daí a momentos, jazia um homem daqueles por baixo do outro, rugindo e debatendo-se sufocado sob um joelho de mármore que lhe desconjuntava o peito. Com a diferença que não se nha dado o caso que Gavroche receava. O que jazia no chão era Montparnasse, o que estava por cima era o velho. Tudo isto passava-se apenas a alguns passos de Gavroche.
O velho recebera o choque e repe ra-o, e tão terrivelmente o repe ra, que num abrir e fechar de olhos o assaltante e o assaltado tinham trocado os papéis.
— Aquele velhote não é para graças! — disse Gavroche para si.
E não pôde conter-se sem dar palmas. Mas foram palmas perdidas, que nenhum dos dois combatentes ouviu, tão absorvidos e mutuamente ensurdecidos estavam, naquela luta, em que as respirações de ambos se confundiam.
Seguiu-se então um momento de silêncio, em que Montparnasse cessou de debater-se, e Gavroche disse com os seus botões:
— O velho dar-lhe-á cabo da pele?
O velho, que não nha soltado um grito nem até então pronunciara uma palavra, ergueu-se, e Gavroche ouviu-o dizer a Montparnasse:
— Levanta-te!
Montparnasse levantou-se, porém o velho não o largava. Montparnasse estava na atitude humilhada e furiosa de um lobo que se visse abocado por um cordeiro.
Gavroche olhava e escutava, fazendo esforços por ver melhor, escutando bem. O que se passava estava-o intimamente regalando.
Breve foi recompensado da sua conscienciosa ansiedade de espectador com o seguinte diálogo, a que a obscuridade dava como que um trágico acento. O velho perguntava, Montparnasse respondia.
— Que idade tens?
— Dezanove anos.
— És robusto e tens boa saúde. Porque não trabalhas?
— É coisa de que não gosto!
— Que profissão é a tua?
— Vadio.
— Fala sério. Desejas alguma coisa? Que queres tu ser?
— Ladrão.
Seguiu-se uma pausa, durante a qual o velho parecia meditar profundamente, conservando-se imóvel, porém sem largar Montparnasse.
De instante a instante, o moço bandido, vigoroso e lesto, nha sobressaltos de animal apanhado no laço. Dava um puxão, ensaiava um pontapé, torcia-se desesperadamente, forcejando por fugir. O velho, todavia, parecia não dar pelos esforços dele, segurava-lhe
ambos os braços com uma só mão, com a soberana indiferença de uma força absoluta.
Durou algum tempo a meditação do velho, até que, por fim, elevou vagarosamente a voz, com os olhos fitos em Montparnasse, e dirigiu-lhe no meio daquelas trevas em que ambos jaziam, uma espécie de alocução solene, de que Gavroche não perdeu uma só sílaba:
— Filho, entras por preguiça na mais trabalhosa existência. Ah, tu declaras-te vadio!
Prepara-te para trabalhar! Já viste uma máquina temível chamada o laminador? É
preciso toda a cautela com ela, porque é dissimulada e feroz; se nos agarra pela aba do casaco, leva-nos após si. Assim é a ociosidade. Pára, enquanto ainda é tempo e salva-te!
Aliás, estás perdido; não passará muito tempo que não sejas arrebatado pela engrenagem, e depois não esperes mais nada. Ao trabalho, preguiçoso! Deixa o repouso Agarrou-te a mão implacável do trabalho. Não queres ganhar a Vida, ter uma ocupação, cumprir um dever; aborrece-te ser como os outros! Pois não serás como eles. O trabalho é como a lei: quem o repele por aborrecimento tê-lo-á para suplício. Não queres ser operário, hás-de ser escravo. O trabalho solta-nos de um lado apenas, para nos agarrar pelo outro; não queres ser seu amigo, serás seu negro. Ah, não quiseste a honrada fadiga dos homens, vais ter o suor dos condenados! Onde os outros cantam, tu rugirás Verás de longe, debaixo, os outros homens a trabalhar e afigurar-se-te-á que descansam.
Hão-de aparecer-te entre resplendores, como os bem-aventurados do paraíso, o lavrador, o ceifeiro, o marinheiro, o ferreiro. Que fulgor na bigorna! Guiar a charrua, atar os molhos, que alegria! A barca balouçando-se livremente, que festa! Enquanto tu, preguiçoso, trabalha, sua, moureja, caminha! Puxa pelo cabresto, já que és besta de carga nas recovas do inferno! Ah! O teu alvo era não fazer nada? Pois não terás uma semana, um dia, uma só hora de folga, uma só hora livre de angús as! Cada minuto que passar te fará estalar os músculos. O que para os outros é pena, para será rochedo. As coisas mais simples hão-de tornar-se-te barreiras impossíveis de vencer. A vida será como um monstro em roda de . Ir, vir, respirar, outros tantos trabalhos terríveis te hão-de ser. O pulmão parecer-te-á um peso de cem arráteis. Preferir o lugar para andar será para resolver um problema. Outro qualquer, em querendo sair, abre a porta, ei-lo fora.
Tu, se quiseres sair, hás-de primeiro romper a parede que te encurrala. Que é o que faz qualquer, quando quer sair? Desce pela escada. E tu Rasgarás os lençóis da cama às ras, farás com eles uma corda, fio por fio, saltarás pela janela, suspender-te-ás nesse fio sobre um abismo, de noite, no meio da tempestade, à chuva e ao vento, e, se a corda for curta, em vez de descer, terás de saltar. Cair ao acaso, de qualquer altura, a um precipício, sobre o que es ver em baixo, sobre nem tu saberás o quê. Ou treparás por alguma chaminé, em risco de te queimares, ou descerás pelo cano de alguma latrina, em risco de te afogares Não te falarei do que passarás a tapar buracos, apôr e rar pedras vinte vezes por dia, a esconder na enxerga os bocados de cal que veres arrancado. O
burguês abre a sua porta com a chave que lhe fez o serralheiro; tu, se quiseres transpor a que te veda a saída, ver-te-ás condenado a fazer prodígios de ar cio. Tomarás uma
moeda de cobre, que dividirás em duas lâminas, com os instrumentos que primeiro houveres inventado. Isso é con go. Depois cavarás o interior dessas duas lâminas com
todo o cuidado, para não ofender a parte externa, e abrirás em volta uma rosca, de modo que as duas lâminas estreitamente ajustem uma na outra, como um fundo e uma tampa. Feito isto, ninguém adivinhará o que tu tens; para os guardas que continuamente trarão o olho sobre , será uma moeda de cobre; para será uma caixa. De que te servirá ela? De guardar um bocado de aço. A mola de um relógio de algibeira, que primeiro converterás em serra, fazendo-lhe dentes. Com essa serra, do tamanho de um alfinete e escondida num soldo, é que tu terás de cortar a lingueta da fechadura, a barra do ferrolho, a argola do cadeado, o varão da janela e a grilheta do pé. Feita esta obra-prima, completo este prodígio, executadas estas maravilhas de arte, de destreza, habilidade e paciência, sabes qual será a tua recompensa, se descobrirem que és tu o seu autor? Uma masmorra escura! Aqui tens o teu futuro! Vê que precipícios os da preguiça e os do prazer! Vê que lúgubre resolução a de não querer fazer nada! Viver ocioso da substância social! Ente inú l, quer dizer, prejudicial! Irás assim direito ao fundo da miséria!
Desgraçado do que quiser ser parasita, porque será verme. Ah, não gostas de trabalhar? Só queres comer bem, beber bem, dormir bem! Pois beberás água, comerás pão negro, dormirás sobre uma tábua com um cadeado de ferro apertado aos membros e sen rás de cada vez que acordares a impressão fria do ferro nas carnes quebrarás o cadeado e fugirás, assim é; mas terás de andar de rojo por entre as silvas e os tojos e comer erva como os animais, até tornares a ser apanhado! E então passarás anos e anos num subterrâneo, acorrentado a uma parede, caminhando às apalpadelas, se quiseres ir beber à tua bilha, dando dentadas num terrível bocado de pão negro, que os cães rejeitariam, comendo favas, que os vermes hão-de ter comido primeiro do que tu! Serás um bicho de conta num túmulo! Oh, tem piedade de , miserável criança, que não há vinte anos que mamavas, e que de certo ainda tens mãe! Peço-te por quanto há que não desprezes o que eu te digo! Queres andar ves do de fino pano preto, calçar botas de verniz, frisar-te, trazer o cabelo rescendendo perfumes, agradar às mulheres, ser elegante. Serás rapado à escovinha, ves rás uma jaqueta vermelha, o teu calçado serão uns tamancos! Queres andar de anel no dedo; trarás uma manilha ao pescoço! E, se deitares os olhos a alguma mulher, cair-te-á nas costas a corda de um chicote! E entrarás para ali aos vinte anos e aos cinquenta é que sairás! Entrarás moço, corado, fresco, com os olhos cheios de brilho, com os dentes brancos e a tua bela cabeleira de adolescente, e sairás alquebrado, cheio de rugas, fraco, sem dentes, de cabelos brancos, horrível! Ah, pobre moço, o teu caminho é errado, a vadiagem aconselha-te mal, a vida de ladrão é a mais trabalhosa vida que podes abraçar! Acredita-me, deixa-te de abraçar a vida de vadio, a preguiça é o trabalho mais pesado! Não cuides que o ser maroto é uma coisa fácil. Menos custoso te será ser homem de bem. Agora vai, mas pensa no que eu te disse. É verdade que me querias a bolsa? Toma-a lá!
E, ao dizer isto, o velho largou Montparnasse e passou-lhe a bolsa para a mão.
Montparnasse sopesou-a um instante e em seguida meteu-a sub lmente no bolso posterior do casaco, com a mesma maquinal precaução como se a tivera roubado.
Apenas Montparnasse concluiu a sua operação, o velho voltou costas e con nuou
sossegadamente o seu caminho.
— Pateta! — murmurou Montparnasse.
Quem era aquele homem? O leitor já decerto o adivinhou.
Montparnasse, estupefacto, pôs-se então a olhar para o velho, que ia desaparecendo entre as sombras do crepúsculo. A sua contemplação foi-lhe fatal.
Ao mesmo tempo que o velho se afastava, aproximava-se Gavroche.
O gaiato relanceara os olhos para o banco onde antes estava sentado o o Mabeuf e cer ficou-se de que o velho ainda permanecia no mesmo sí o, talvez dormindo. Depois saiu de entre as silvas e principiou a arrastar-se ajudado pela obscuridade, para o lugar onde estava Montparnasse imóvel e de costas voltadas para ele. Apenas chegou ao pé do bandido, sem ser visto nem ouvido, meteu sub lmente a mão no bolso posterior do casaco de fino pano preto, que Montparnasse ves a, pegou na bolsa, rou-a
devagarinho, deitou-se de gatas outra vez e evadiu-se, como uma cobra, por entre as trevas. De nada dera conta Montparnasse, já porque não nha razão para se precaver, já porque estava meditando, pela primeira vez na sua vida. Apenas Gavroche voltou ao lugar onde estava o tio Mabeuf, atirou a bolsa por cima da sebe e deitou a fugir.