Os Miseráveis
II — Raízes
Estando a verdadeira história ligada a tudo, deve o verdadeiro historiador ligar-se a tudo. O homem não é um círculo com um só centro, é uma elipse com dois focos. Os factos constituem uns, as ideias o outro.
O calão não é senão um guarda-roupa, onde a língua, tendo alguma má acção a praticar, se disfarça.
Reveste-se ali de palavras-máscaras e de metáforas-farrapos.
Deste modo torna-se horrível.
Custa a conhecê-la. É realmente a língua francesa, a grande língua humana? Ei-la pronta a entrar em cena, a dar ao crime a réplica, e própria para todos os empregos do repertório do mal. Não anda, manqueja; manqueja na muleta do Pá o dos Milagres, muleta que facilmente se metamorfoseia em maça; chama-se madraçaria; foi caracterizada por todos os espectros que a ajudaram a vestir; arrasta-se e ergue-se com a dupla andadura do rép l. É então apta para todos os papéis, é feita vesga pelo falsário, esverdeada pelo envenenador, mascarada com a fuligem do incendiário; e o assassino dá-lhe o seu vermelho.
Quando se escuta, do lado da gente honesta, à porta da sociedade, surpreende-se o diálogo dos que estão de fora Dis nguem-se perguntas e respostas. Ouve-se sem se compreender um murmúrio hediondo, soando quase como a voz humana, mas mais vizinha do uivo do que da palavra. É o calão. Os termos são disformes e impregnados de não sei que bestialidade fantástica. Julga-se ouvir hidras a falar.
É o ininteligível no tenebroso. É uma coisa que range e segreda, completando o crepúsculo com o enigma. Há escuridão na desgraça, mas mais escuridão ainda no crime.
Estas duas escuridões amalgamadas compõem o calão. Obscuridade na atmosfera, obscuridade nos actos, obscuridade nas vozes. Espantosa língua-sapo que vai, vem, salta, arrasta-se, baba-se, move-se monstruosamente no meio do imenso nevoeiro pardo, feito de chuva, de noite, de fome, de vício, de men ra, de injus ça e de nudez, de asfixia e de Inverno; completo meio-dia dos miseráveis.
Tenhamos compaixão dos cas gados. Ai de mim!, quem somos nós mesmos? Quem sou eu, eu que estou falando? Quem sois vós que me escutais? Donde vimos nós? Há toda a certeza de que não tenhamos feito algumas coisas antes de nascermos?
A terra não deixa de assemelhar-se a uma prisão. Quem sabe se o homem não foi já castigado pela justiça divina?
Observai a vida de perto. É feita de tal modo, que por toda a parte se sente nela a punição.
Sois o que se chama um feliz? Pois bem, estais triste todos os dias. Cada dia tem o seu grande desgosto, ou o seu pequeno cuidado. Ontem tremíeis por uma saúde que vos é cara, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação pecuniária, depois de amanhã a diatribe dum caluniador, e no imediato a desventura de um amigo; depois o bom ou o mau tempo, depois alguma coisa quebrada ou pendida, depois um prazer que a consciência e a coluna vertebral vos repreendem; doutra vez os andamentos dos negócios públicos. Sem contar as penas do coração. E assim por diante. Dissipa-se uma nuvem, forma-se outra. Em cem dias apenas um de plena alegria e de pleno sol. E sois do pequeno número que tem a felicidade! Quanto aos outros homens, têm sobre si a noite estagnante.
Os espíritos reflec dos curam pouco da locução: felizes e infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.
A verdadeira divisão humana éesta: luminoso e tenebroso.
Diminuir o número de tenebrosos, aumentar o dos luminosos, eis o fim. Eis porque gritamos: Ensino! Ciência! Ensinar a ler, é acender lume; toda a sílaba soletrada lança faíscas.
No entanto, quem diz luz não diz necessariamente alegria. Sofre-se na luz; o excesso queima. A chama é inimiga da asa. Arder sem cessar de voar, é onde está o prodígio do génio.
Mas tendo todos os conhecimentos, mesmo amando, sofrereis sempre. O dia nasce lacrimoso. Os luminosos choram, ainda que não seja senão a sorte dos tenebrosos.
II — Raízes
O calão é a língua dos tenebrosos.
O pensamento é agitado nas suas sombrias profundidades, a filosofia social é ins gada às suas meditações, as mais pungentes na presença deste enigmá co dialecto, ao mesmo tempo manchado e revoltado. É ali que há cas go visível. Todas as sílabas são marcadas. As palavras da língua vulgar aparecem ali como enrugadas e encoscoradas pelo ferro candente do carrasco. Algumas parecem ainda fumegantes. Tal ou tal frase
produz-nos o efeito do ombro marcado de um ladrão inopinadamente despido. A ideia quase recusa deixar-se exprimir por aqueles substan vos jus ficados. A metáfora é por vezes tão insolente e atrevida que se tem a impressão de que já usou golilha.
Afinal, a despeito de tudo isto, e mesmo por causa de tudo isto, tem este estranho dialecto direito a um compar mento no grande armário imparcial, onde há lugar tanto para a moeda de cobre oxidada, como para a medalha de ouro, e que se chama literatura. O calão, quer consintam quer não, tem a sua sintaxe e a sua poesia. É uma língua. Se pela deformidade de certos vocábulos se reconhece que foi mascarada por Mandrin, pelo esplendor de certas metonímias, sente-se que foi falada por Villon.
Este verso tão esquisito e tão célebre:
Mais où sont les neiges d’antan?
é um verso de calão. Antan — ante annum — é um termo do calão de Tunes que significava o ano passado e mais extensivamente noutro tempo. Podia ainda ler-se, há trinta e cinco anos, na época da par da da grande corrente de 1827, num dos calabouços de Bicêtre, esta máxima, gravada com um prego na parede, por um rei de Tunes condenado às galés: Les dabs d'antan trimaient siempre pour la pierre du Coësre; o que quer dizer: «Os reis de outro tempo iam sempre sagrar-se». No pensamento daquele rei, a sagração era a galé.
A palavra décarade que exprime a par da a galope de pesado veículo, é atribuída a Villon, de quem é digna. Esta palavra, que a ra com os quatro pés, resume numa onomatopeia magistral todo o admirável verso de La Fontaine:
Six forts chevaux tiraient un coche.
Segundo o modo de ver puramente literário, poucos estudos seriam mais curiosos e mais fecundos do que o do calão. É uma língua, uma espécie de excrescência valetudinária, um enxerto fraco que produziu uma vegetação, um parasita que tem as suas raízes no velho tronco gaulês, e cuja folhagem sinistra trepa por todo um lado do idioma. Isto é o que poderia chamar-se primeiro aspecto, o aspecto vulgar do calão Mas para os que estudam a língua como deve ser estudada, isto é, como os geólogos estudam a terra; aparece o calão como um verdadeiro aluvião. Segundo a escavação é mais ou menos profunda, encontra-se no calão, abaixo do velho francês popular, o provençal, o espanhol, o italiano, o levan no, essa língua dos portos do Mediterrâneo, o inglês e o alemão, o romano nas suas três variantes, la m-francês, la m-italiano, la m-romano, o la m, e finalmente o basco e o celta Formação extravagante e profunda Edi cio subterrâneo edificado em comum por todos os míseros. Cada raça maldita concorreu com a sua camada, cada sofrimento deixou cair a sua pedra, cada coração deu o seu calhau. Uma mul dão de almas más, baixas ou irritadas, que atravessaram a vida e foram desaparecer na eternidade, estão ali quase inteiras e de certo modo visíveis ainda, sob a forma de um termo monstruoso.
Quer-se espanhol? Pulula no velho calão gó co. Eis boffette, bofetada, que vem de bofeton; vantane, janela (mais tarde vanterne), que vem de ventana; gat, que vem de gato; acite, que vem de aceyte. Quer-se italiano? Eis spade, que vem de espada; carvel, barco, que vem de caravella. Quer-se inglês? Eis bichot, bispo que vem de bishope; raille, espião, que vem de rascal, rascalion, tratante; pilcker, estojo, que vem de pilcher, bainha.
Quer-se alemão? Eis caleur, rapaz , kellner; hers, o amo, herzog, duque. Quer-se la m? Eis frangir, quebrar, frangere; affurer, roubar, fur; cadène, cadeia, catena. Há ali uma palavra que aparece em todas as línguas do con nente com uma espécie de poder e de autoridade misteriosa, é a palavra magnus; a Escócia faz dela o seu mac, que designa o chefe de clã, Mac-Farlane, Mac-Callummore; o calão faz daquela palavra o meck e mais tarde o meg, o grande Farlane, o grande Callumtnore ; isto é, o Deus. Quer-se basco? Eis gahisto, odiabo, que vem de gaïztoa, mau; sorgabon, boa noite, que vem de gabon, boa noite. Quer-se celta? Eis blavin, lenço de assoar, que vem de blavet, água nascente; ménesse, mulher (em mau sen do), que vem de meinec, cheio de pedras; barant, enxurrada; de baranton, fonte; goffeur, serralheiro, de goff, forjador; a guédouze, amorte, que vem de guenn-du, branca-negra. Quer-se enfim, história?
O calão chama aos escudos malteses, recordação da moeda que nha curso nas galés de Malta.
Além das origens filosóficas que acabam de ser indicadas, tem o calão outras raízes mais naturais ainda e que saem, para assim dizer, do próprio espírito do homem.
Em primeiro lugar a criação directa das palavras. É onde está o mistério das línguas.
Pintar, por meio de palavras que têm, não se sabe como nem porquê, figuras. É isto o fundo primi vo de toda a linguagem humana, é aquilo a que se poderia chamar seu alicerce. No calão pululam as palavras deste género, palavras imediatas, criadas, completas não se sabe onde nem por quem, sem e mologia, sem analogias, sem derivados; palavras solitárias, bárbaras, algumas vezes hediondas, que têm singular poder de expressão e que vivem. O carrasco, o taule; a floresta, o sabri; o medo, a fuga, taf; o lacaio, o larbin; o general, o prefeito, o ministro, pharos; o diabo, o rabouin. Não há nada mais estranho do que estas palavras que mascaram e que mostram.
Alguns destes termos, o rabouin, por exemplo, são ao mesmo tempo grotescos e terríveis, e produzem o efeito da careta dum ciclope.
Em segundo lugar, a metáfora. O caracterís co duma língua que pretende dizer tudo e tudo ocultar, é a abundância de figuras, A metáfora é um enigma onde se refugia o ladrão, que trama um dos seus feitos, o preso que combina uma evasão. Nenhum idioma é mais metafórico do que o calão devisser le coco, torcer o pescoço; tortiller, comer; ser gerbé, ser julgado; um rato, um ladrão de pão; lansquine, chove, velha figura surpreendente que, de certo modo, tem consigo a sua data, que assimila as compridas linhas obliquas da chuva aos piques bastos e inclinados dos soldados e que resume numa só palavra a metonímia popular: chovem espetos. Por vezes, à medida que o calão passa da primeira para a segunda época, passam as palavras do estado selvá co e primi vo ao sen do metafórico. O diabo deixe de ser o rabouin, e torna-se o boulanger, aquele que mete no forno. É mais espirituoso, mas não tão grande; qualquer coisa como Racine depois de Corneille, como Eurípides depois de Ésquilo. Certas frases de calão que par cipam das duas épocas e têm ao mesmo tempo o carácter bárbaro e o carácter metafórico, assemelham-se a fantasmagorias. Les sorgueurs vont sollicer des gails à la lune (os ratoneiros vão roubar cavalos de noite). Isto passa diante do espírito como um bando de espectros. Não se sabe o que se vê.
Em terceiro lugar, o expediente. O calão vive sobre a língua. Usa dela segundo a sua fantasia, recorre a ela ao acaso, e limita-se muitas vezes, quando surge a necessidade, a desnaturá-la sumária e grosseiramente Por vezes com as palavras usuais assim desfiguradas e envolvidas com palavras de calão puro, compõe locuções pitorescas em que se sente a mistura de dois elementos procedentes, a criação directa e a metáfora: Le cab jaspine, je marronne que la roulo e de Pan n trime dans le sabri; o cão ladra, supondo que a diligência de Paris vai passando pelo bosque. Le dab est sinve, la dabuge est merloussière, la fée est ba ve; o burguês é estúpido, a burguesa é astuta, a filha é bonita. A maior parte das vezes, a fim de desorientar os que possam escutar, limita-se o calão a juntar indis ntamente a todas as palavras da língua uma espécie de cauda ignóbil, uma terminação em aille, em orgue, em iergue, ou em uche. Assim: Vousiergue trouvaille bonorgue ce gigotmuche? Achais bom este pitéu? Frase dirigida por Cartouche a um guarda, a fim de saber se lhe convinha a soma oferecida para evasão.
A terminação em mar foi acrescentada muito recentemente.
O calão, sendo o idioma da corrupção, depressa se corrompe. Além disto, como diligencia sempre esconder-se apenas se sente compreendido, transforma-se. Ali, ao contrário de qualquer outra vegetação, tudo morre com o mais pequeno raio de sol.
Assim, o calão vai-se decompondo e recompondo sem cessar; trabalho obscuro e rápido que não pára nunca. Percorre mais caminho em dez anos do que a língua em dez séculos. Por este modo o larton, o pão torna-se o lartif; o gail, o cavalo, torna-se o gaye; a fertanche, a palha, torna-se a fertille; os fiques, aroupa, os frusques; a chique, a igreja, o egrugeoir; o colabre, o pescoço, torna-se o colas. O diabo passa de gahisto a rabouin, depois o boulanger; o padre é o ratichon, depois o javali; opunhal é o vinte e dois, depois, o surin, depois o lingre; os empregados da polícia são os railles, depois os roussins, depois os rousses, os vendilhões de corda, os coqueurs, e finalmente, os cognes; o carrasco é o taule, depois Charlot, depois o atigeur e o becquillard.
No século XVII um duelo era dar tabaco; no século XIX é mescar a goela. Entre estes dois extremos têm passado vinte locuções diferentes. Cartouche falaria hebreu para Lacenaire. Todas as palavras desta língua estão em perpétua fuga como os homens que a falam.
Contudo, de tempos a tempos, e por causa deste próprio movimento, reaparece o an go calão e torna-se novo. O templo conserva o calão do século XVII; Bicêtre, quando era prisão, conservava o de Tunes. Ouvia-se ali a terminação em anche, dos velhos tunantes. Boyauches tu (bebes tu)? Il croyanche (ele crê). Mas o movimento perpétuo não deixa de ser a lei.
Se o filósofo consegue fitar um momento, para a observar, esta língua que se apavora sem cessar, cai em dolorosas mas úteis meditações. Nenhum estado é mais eficaz e mais fecundo em documentos. Não há uma metáfora, ou uma e mologia do calão que não contenha uma lição. Entre tais homens, bater quer dizer fingir, finge-se uma doença; a astúcia é a sua força.
Para eles a ideia do homem não se separa da ideia da sombra. A noite chama-se a sorgue, o homem, o orgue. O homem é um derivado da noite.
Habituaram-se a considerar a sociedade como uma atmosfera que os mata, como uma força fatal, e falam da liberdade como falariam da saúde. Um homem preso é um doente; um homem condenado é um morto.
O que há de mais terrível para o prisioneiro dentro das quatro paredes de pedra em que se acha enterrado é uma espécie de cas dade glacial; por isso chama castus ao cárcere. Neste lugar fúnebre, é sempre sob o seu aspecto mais risonho que aparece a vida exterior; o preso tem ferros nos pés. Julgais talvez que ele pensa em que é com pés que anda? Não, pensa em que é com pés que dança; assim consiga ele serrar os ferros, e a sua primeira ideia será que já pode dançar, e chama à serra bastringue (dança de tasca). Um nome é um centro; profunda comparação. O bandido tem duas cabeças, uma que raciocina as suas acções e o conduz durante a vida, outra que tem nos ombros no dia da sua morte; chama à cabeça que o aconselha ao crime sorbonne, e à que o expia tronche. Quando um homem já não tem senão farrapos sobre o corpo e vícios no coração, quando tem chegado à dupla degradação material e moral que caracteriza nas suas acepções a palavra gueux (miserável ou tratante), está apto para o crime; é como uma faca bem afiada; tem dois gumes, a penúria e a maldade; assim o calão não diz o gueux diz um réguisé, (duplamente preparado). O que é a galé? Um braseiro de condenação eterna.
O forçado chama-se fagot (feixe de lenha). Enfim, que nome dão os malfeitores à prisão? O de colégio. Desta palavra pode sair completo um sistema penitenciário.
Querem saber onde nasceu a maior parte das can gas de galé, os estribilhos chamados no vocabulário especial, lirlonfa? Escutem isto: Havia no Châtelet de Paris um grande e comprido subterrâneo. Este subterrâneo ficava oito pés abaixo do nível do Sena. Não nha janelas nem frestas; a única abertura era a porta; os homens podiam ali entrar, o ar não. Este subterrâneo nha por tecto uma abóbada de cantaria e por pavimento dez polegadas de lama. Fora lajeado, mas o con nuo ressudar das águas desunira e deslocara completamente as lágeas. A oito pés acima do solo uma comprida e sólida trave atravessa o subterrâneo de lado a lado; desta trave pendem, a distâncias regulares, cadeados com três pés de comprimento e na extremidade de cada cadeado uma golilha.
Era neste subterrâneo que encerravam os condenados às galés até ao dia em que par am para Toulon. Empurravam-nos para debaixo daquela viga onde cada um era esperado pela sua ferragem oscilante nas trevas. As correntes, braços pendidos e as golilhas, mãos abertas, agarravam aqueles míseros pelo pescoço. Prendiam-nos deste modo e deixavam-nos ali. A corrente era demasiado curta para que pudessem deitar-se Permaneciam imóveis naquele subterrâneo, naquela escuridão, debaixo da viga, quase enforcados, obrigados a esforços inauditos para chegarem ao pão ou à bilha da água, com os pés me dos na lama, os excrementos correndo-lhes pelas pernas, esquartejados pela fadiga, dobrando-se pelos quadris e pelos joelhos, pendurando-se pelas mãos às correntes para assim repousarem, não podendo dormir senão em pé, e sendo acordados a cada instante pelo afogamento da golilha; alguns não tornavam a acordar. Para comer traziam com o calcanhar pela perna acima, até lhe chegarem com a mão, o pão que lhes
a ravam para a lama. Quanto tempo permaneciam assim? Um, dois, algumas vezes seis meses; houve um que esteve um ano. Era a antecâmara das galés. Era-se me do ali por haver roubado uma lebre ao orei.
Neste sepulcro, agonizavam; e o que pode fazer-se num inferno, cantavam. Porque, onde já não há esperança, resta o canto. Nas águas de Malta, quando se aproximava uma galé, ouvia-se primeiro o canto dos treinadores do que a bulha dos remos.
O pobre caçador fur vo Survincent que atravessara a prisão subterrânea do Châtelet, dizia: «As rimas é que me amparam». Inu lidade da poesia. Para que serve a ritma? Foi naquele subterrâneo que nasceram todas as can gas de calão. É do cárcere do Grand Châtelet de Paris que vem o melancólico estribilho da galé de Montgomery: Timaloumisaine timoulamison.
A maior parte destas canções é lúgubre; algumas são alegres; há uma que é terna: Icicaille est le théâtre
Du petit dardant. 42
Por mais que façam não será nunca aniquilado o eterno resto do coração do homem, o amor.
No imundo das acções sombrias, todos guardam segredo. O segredo é a coisa que pertence a todos. O segredo, para tais miseráveis, é a unidade que serve de base à união. Divulgar o segredo é arrancar a cada membro desta comunidade feroz alguma parte de si mesmo. Denunciar, na enérgica língua de calão, chamava-se: comer o bocado; como se o denunciante puxasse para si uma porção da substância de todos e se nutrisse com um bocado de carne de cada um.
O que é levar uma bofetada? É ver trinta e seis velas (chandelles). Então intervém o calão e diz: Chandelle, camoufle. Par ndo daqui dá a linguagem usual por sinónimo à bofetada, camoufle. Assim, por uma espécie de penetração de baixo para cima, com a ajuda da metáfora, trajectória incalculável, sobe o calão da caverna à academia; e Poulailler dizendo: acendo a minha camoufle, faz com que Voltaire escreva: Langleviel La Beaumelle merece cem camouflets.
Uma escavação no calão é a descoberta a cada passo. Estudar e aprofundar este estranho idioma, conduz ao misterioso ponto de intersecção da sociedade regular com a sociedade maldita.
O ladrão tem também a sua chair à cânon, amatéria roubável, vós, eu, quem quer que passe; o pantre. («Pan», todo o mundo).
O calão é o verbo tornado forçado.
Que o princípio pensador do homem possa ser recalcado tão baixo, que possa ser ali arrastado e amarrado pelas obscuras ranias da fatalidade, que possa ser preso a não sei que argolas naquele precipício, é o que consterna.
Oh, pobre pensar dos miseráveis!
Pois quê! Não virá ninguém socorrer a alma humana numa tal sombra? Será o seu des no esperar ali para sempre o espírito, o libertador, o imenso cavaleiro dos pégasos e dos hipogrifos, o combatente cor da aurora, que desce do azul vago entre duas asas, o radiante paladino do futuro? Chamará ela sempre debalde em seu auxílio a lança de luz do ideal? Estará condenada a ouvir aproximar-se espantosamente na espessura do pego