Os Miseráveis
XX — Os mortos têm razão e os vivos também
— O senhor está-me desgostando. Mate-me antes.
Javert nem reparava que já não; tratava Jean Valjean por tu.
— Vá-se embora — disse Jean Valjean.
Javert afastou-se vagarosamente. Passado um momento voltou a esquina da rua dos Pregadores.
Jean Valjean, apenas Javert desapareceu, disparou a pistola para o ar. Depois entrou na barricada e disse:
— Pronto.
Entretanto, eis o que ocorrera:
Mário, mais ocupado com o exterior do que com o interior, não nha até então; dado muita atenção ao espião quase oculto na escura loja.
Quando o viu à claridade do dia, atravessando a barricada para ir morrer, reconheceu-o e sen u entrar-lhe no espírito súbita recordação. Recordou-se do inspector da rua de Pontoise e das duas pistolas que lhe nha dado; e de que ele, Mário, se servira na
barricada; e não somente se lhe recordou da fisionomia, mas também do nome.
Todavia, esta recordação era nebulosa e embaraçada como todas as suas ideias. Não foi uma afirmativa que apresentou a si mesmo, foi uma pergunta que se dirigiu:
— Não foi este o inspector de polícia que me disse chamar-se Javert?
Talvez fosse ainda tempo de intervir a favor: daquele homem. Mas em primeiro lugar precisava saber se era, com efeito, Javert.
Mário chamou Enjolras, que acabava de se postar no outro extremo da barricada:
— Enjolras!
— O que é?
— Como se chama aquele homem?
— Qual homem?
— O agente de polícia. Sabes o seu nome!
— Sei. Foi ele que mo disse.
— Então como se chama?
— Javert.
Mário endireitou-se.
Neste momento ouviu-se um tiro de pistola.
Jean Valjean tornou a aparecer, e gritou:
— Pronto.
Mário sentiu apertar-se-lhe o coração
XX — Os mortos têm razão e os vivos também
A agonia da barricada ia começar.
Tudo concorria para a majestade trágica daquele momento supremo: mil estrondos misteriosos na atmosfera, a respiração das massas armadas postas em Movimento nas ruas que se não viam, o galope intermitente da cavalaria, o pesado rodar da ar lharia avançando, as descargas de pelotão e os ros de peça cruzando-se no dédalo de: Paris, o fumo da batalha, elevando-se dourada acima dos telhados, não sei que gritos longínquos vagamente terríveis, por toda a parte relâmpagos de ameaça, o toque de rebate de Saint-Merry, que então se assemelha a soluços, a suavidade da estação o!
esplendor do firmamento cheio de sol e de nuvens, a beleza do dia e o espantoso silêncio das casas.
Porque desde a véspera que as duas fileiras de casas da rua da Chanvrerie se nham transformado em muralhas; muralhas impra cáveis. Portas, janelas, pos gos, tudo fechado.
Naqueles tempos tão diferentes destes em que estamos, quando chegava a hora em que o povo queria pôr termo a uma situação que durara demasiadamente, quando queria acabar com uma carta outorgada ou com um país legal, quando a cólera universal se achava difundida na atmosfera, quando a cidade consen a que lhe descalçassem as ruas, quando a insurreição fazia sorrir a burguesia, segredando-lhe ao ouvido a palavra de ordem, então o habitante, por assim dizer penetrado da revolta, era o auxiliar do combatente, e a casa fraternizava com a fortaleza improvisada que se apoiava nela.
Quando a situação não estava madura, quando a insurreição não era decididamente
consen da, quando a massa negava o movimento, má sorte era a dos combatentes, a cidade transformava-se num deserto à roda da revolta, as almas gelavam-se, os asilos muravam-se e a rua tornava-se desfiladeiro para ajudar o exército a tomar a barricada.
Por surpresa não se faz caminhar um povo mais depressa do que ele quer. Desgraçado do que intenta forçar-lhe a mão! Um povo não deixa que façam dele o que quiserem.
Então: abandona a insurreição a si mesma. Os insurgentes tornaram-se empestados.
Uma casa é uma escarpa, uma porta uma recusa, uma fachada é um muro. Este muro vê, ouve e não o quer dar a conhecer. Poderia entreabrir-se e salvar-vos. Que sombrias são as casas fechadas. Parecem moitas e estão vivas. A vida ali está como suspensa, mas persiste. Ninguém sai delas à vinte e quatro horas; mas ninguém ali falta. No interior dessa rocha andam de um para outro lado, deitam-se, levantam-se; estão reunidas as famílias, come-se, bebe-se, tem-se medo, terrível coisa! O medo desculpa essa inospitalidade temível; e junta-se-lhe o pasmo como circunstância atenuante. Algumas vezes, já se tem visto, o medo; torna-se paixão o susto; pode tornar-se em fúria, como a prudência em raiva; daqui a frase profunda: «Os danados dos moderados». Há crepitações de espanto supremo de onde sai, como uma fumaça lúgubre, a cólera.
— O que quer essa gente? Nunca está contente. Comprometem os homens pacíficos.
Parece que não estão ainda fartos de revoluções! O que vieram aqui fazer? Avenham-se como puderem. Tanto pior para eles. A culpa é sua. Não têm senão: o que merecem. Não temos nada com tudo isto. Aí fica a nossa pobre rua toda crivada de balas. E um bando de vagabundos. Cuidado não abram a porta.
E a casa toma o aspecto; de um túmulo. O insurgente agoniza diante dessa porta; vê aproximarem-se-lhe a metralha e os sabres nus; se grita, sabe que o ouvem, mas que lhe não acudirão; há ali paredes que poderiam protegê-lo, homens que poderiam salvá-lo; e essas paredes têm ouvidos de carne, e esses homens têm entranhas de pedra.
Quem se há-de acusar?
Ninguém, e todos.
Os tempos incompletos em que vivemos.
É sempre por sua conta e risco que a utopia se transforma em insurreição, que de protesto filosófico se torna em protesto armado, e de Minerva se torna Palas. A utopia que se impacienta e se faz revolta sobre o que a espera, quase sempre chega demasiadamente cedo. Então resigna-se e aceita estoicamente, em vez do triunfo a catástrofe. Serve sem se queixar e até desculpando-os, aqueles que o renegam, e a sua magnanimidade consiste em consen r o abandono. É indomável contra o obstáculo e meiga para com a ingratidão.
Mas, no fim de tudo, há ingratidão?
Sim, em relação ao género humano.
Não, em relação ao indivíduo.
O progresso: é o modo de ser do homem. A vida geral do género humano chama-se Progresso; o passo colec vo do género humano chama-se Progresso. O progresso caminha; faz a grande viagem humana e terrestre para o celeste e o divino, tem os seus pontos de alto onde reúne o bando que se deixou ficar atrás; tem as suas estações onde
meditar, em presença de qualquer Chama esplêndida, desvendada de repente no seu horizonte; tem as suas noites em que dorme; e é uma das pungentes aflições do pensador ver a sombra por de sobre a alma humana, apalpar nas trevas, sem poder despertá-lo, o progresso adormecido.
— Deus está talvez morto — dizia um dia Gerard de Nerval a quem escreve estas linhas, confundindo o progresso com Deus e tomando a interrupção do movimento pela morte do Ente.
Quem desespera não tem razão. O progresso acorda infalivelmente, e, em suma, poder-se-ia dizer que caminha, mesmo dormindo porque cresce. Quando se torna a encarar de pé, vê-se que está mais alto. Estar sempre pacífico não é mais próprio do progresso do que do rio; não lhe oponhais diques; não lhe lanceis rochedos; o obstáculo faz espumar a água e ferver a humanidade. Daqui as perturbações; mas depois delas reconhece-se que há caminho adiantado. Até que a ordem, que não é senão a paz universal, seja estabelecida, até que reinem a harmonia e a unidade, terá o progresso de pôr ponto alto às revoluções.
O que é pois, o progresso? Acabámos de o dizer. É a vida permanente dos povos.
Ora, sucede algumas vezes, que a vida momentânea dos indivíduos opõe resistência à vida eterna do género humano.
Confessemo-lo sem amargor, o indivíduo tem o seu interesse dis nto, e pode sem prevaricação fazer es pirações a favor desse interesse e defendê-lo; o presente tem a sua qualidade desculpável de egoísmo; a vida momentânea tem o seu direito e não é obrigada a sacrificar-se incessantemente ao futuro. A geração, que tem actualmente a sua vez de passagem na terra, não é forçada a resumi-la a favor das gerações, no fim de tudo suas iguais, que terão essa vez mais tarde.
— Existo —, murmura esse alguém que se chama Todos. — Sou moço e estou enamorado, sou velho e quero descansar, sou pai de família, trabalho, prospero, faço negócios vantajosos, tenho casas para alugar, emprestei dinheiro ao Estado, sou feliz, tenho mulher e filhos, amo, tudo isto, desejo viver, deixai-me tranquilo.
Daqui, em certos momentos, profunda frieza nas magnânimas avançadas do género humano.
No fim de tudo é necessário convir que a utopia, fazendo a guerra, sai da sua esfera radiante. Ela, a verdade de amanhã, pede emprestado à men ra de ontem o seu meio, a batalha. Ela, o futuro, procede como o passado. Ela, a ideia pura, toma-se via de facto.
Deslustra o seu heroísmo com uma violência pela qual deve com jus ça responder; violência de ocasião e de apuro, contrária aos princípios, e de que é fatalmente punida.
A utopia insurreição, combate com o velho código militar em punho; espingardeia os espiões, executa os traidores, suprime entes vivos e lança-os nas trevas desconhecidas.
Coisa assaz grave: serve-se da morte.
Parece que a utopia não tem já fé no seu esplendor na sua força incorrup vel. Fere com o gládio. Ora, o gládio simples não existe. Todas as espadas têm dois gumes; quem fere com um fere-se com o outro.
Depois de enunciarmos esta reserva, e com toda a severidade, não nos é possível
deixar de admirar, tenham ou não bom êxito, os gloriosos combatentes pelo futuro, os proclamadores da utopia. Ainda quando os esforços abortam, são veneráveis, e é talvez na derrota que se mostram mais majestosos. A vitória, quando é ganha segundo o progresso, merece o aplauso dos povos; mas uma derrota heróica merece o seu enternecimento. Uma é magnífica, a outra é sublime. Para nós, que preferimos o martírio ao bom êxito, John Brown é superior a Washington, e Pisacane a Garibaldi.
É necessário que alguém seja pelos vencidos.
Somos injustos para com esses grandes ensaiadores do futuro, que não conseguem o seu fim.
Acusam os revolucionários de semear o susto. Toda a barricada parece atentado.
Incriminam-lhes as teorias, suspeitam-lhes dos fins, temem-lhes as segundas tenções, denunciam-lhes a consciência. Repreendem-nos por construírem e amontoarem contra o facto social reinante um acervo de misérias, de iniquidades, de dores, de vexames, de desesperos e de arrancarem das profundidades penedos de trevas, para nelas se for ficarem e combaterem. Gritam-lhes: «Vós descalçais o inferno!» Mas eles poderiam responder: «É por isso que a nossa barricada é feita de boas intenções».
O melhor, indubitavelmente, é a solução pacífica.
Em suma, concordamos: quando se vê a rar uma pedra, teme-se o levar com ela; é uma boa vontade com que a sociedade se inquieta. Mas depende da sociedade salvar-se a si mesma; é para a sua própria vontade que apelamos. Não é necessário remédio algum violento. Estudar o mal amigavelmente, conhecê-lo e depois curá-lo. É para isto que a convidamos.
Seja como for, ainda caídos, principalmente caídos, são augustos os homens que em todos os pontos do universo, com os olhos fitos na França, lutam em prol da grande obra, escudados com a lógica inflexível do ideal; dão desinteressadamente a vida pelo progresso; cumprem a vontade da Providência; desempenham um acto religioso.
À hora dada, com tanto desinteresse como o de um actor aceitando a deixa, obedecendo ao contra-regra divino, entram no túmulo.
Neste combate sem esperança, nesta desaparição estóica, aceitam, para o conduzirem às suas supremas e esplêndidas consequências universais, o magnífico movimento humano, irresis velmente começado em 14 de Julho de 1789; esses soldados são sacerdotes. A revolução francesa é um gesto de Deus.
No fim de tudo — convém juntar esta dis nção às dis nções já indicadas noutro capítulo — há insurreições aceitas que se chamam revoluções; há revoluções rejeitadas que se chamam revoltas. Uma insurreição rebentando é uma ideia fazendo o seu exame perante o povo.
Se o povo deixa cair a sua esfera preta, a ideia é fruto seco; a insurreição é temeridade.
Entrar em guerra a qualquer aprazamento e sempre que a utopia o deseja, não é coisa que esteja nas mãos dos povos. As nações não têm a todo o momento o temperamento dos heróis e dos mártires.
São posi vas. A priori, a insurreição repugna-lhes; em primeiro lugar, porque muitas
vezes resulta dela uma catástrofe, depois, porque tem sempre por ponto de par da uma abstracção.
Porque — e isto é belo — é sempre pelo ideal, que se dedicam os que se dedicam.
Uma insurreição é um entusiasmo. O entusiasmo pode encolerizar-se; daqui os armamentos. Mas, toda a insurreição cuja pontaria se dirige a um governo ou a um sistema, mira a mais alto. Assim, por exemplo insis mos nisto — o que os chefes da insurreição de 1832 comba am, e par cularmente os jovens entusiastas da rua da Chanvrerie, não era precisamente Luís Filipe. A maior parte, falando francamente, fazia jus ça às boas qualidades daquele rei médio entre a monarquia e a revolução; nenhum o odiava. Mas atacavam o ramo mais novo do direito divino em Luís Filipe, como nham atacado o ramo mais velho em Carlos X; e o que eles queriam derrubar, derrubando a realeza em França, era a usurpação do homem sobre o homem: e do privilégio sobre o direito em todo o universo. Paris sem rei dá em resultado o mundo sem déspota. Era deste modo que eles raciocinavam. O seu fim estava, decerto longe, era talvez vago e recuava diante do esforço, mas era grande.
Isto é assim. E há quem se sacrifique por estas visões, que para os sacrificados são quase sempre ilusões, mas ilusões às quais, em suma, se alia toda a certeza humana. O
insurgente poe za e doira a insurreição. Lançam-se nestas coisas trágicas, embriagando-se com o que, vão fazer. Quem sabe? Talvez se saiam bem. É pequeno o seu número; têm contra si um exército inteiro; mas defendem o direito, a lei natural, a soberania de cada um sobre si mesmo, que não tem abdicação possível, a jus ça, a verdade; e, sendo preciso, morrem, como os trezentos espartanos. Não pensam em D. Quixote, mas sim em Leónidas, Vão para a frente e, uma vez travada a luta, já não recuam, precipitam-se furiosamente, tendo por esperança uma vitória inaudita, a revolução completa, o progresso posto em liberdade, o engrandecimento do género» humano, a libertação universal; e supondo o pior, as Termópilas.
Estes passos de armas a favor do progresso são muitas vezes malogrados, acabámos de dizer porquê. A turba é rebelde ao enlevo dos paladinos. As pesadas massas, as mul dões, frágeis por causa do seu próprio peso, temem as aventuras; e no ideal há aventura.
Depois — não esqueça isto — os interesses persistem tão pouco amigos do ideal como do sentimental. Algumas vezes o estômago paralisa o coração,
A grandeza e a beleza da França consistem em ter ela menor barriga do que os outros povos; aperta facilmente os rins com a corda. É a primeira que desperta, a úl ma que adormece. Vai sempre na frente. É investigadora.
Isto provém dela ser artista.
O ideal não é mais que um ponto culminante da lógica, assim como o belo é o cume do verdadeiro. Os povos ar stas são também os povos consequentes. Amar a beleza, é ver a luz. É por isto que o facho da Europa, quer dizer, da civilização, foi sustentado, primeiro pela Grécia, que o passou à Itália, e esta à França.
Divinos povos batedores! Vitae Lampada tradunt.
Admirável coisa! A poesia de um povo é o elemento do seu progresso. A quan dade
de civilização mede-se pela quan dade de imaginação; mas o povo civilizador deve conservar-se varonil. Corinto, sim; Sibaris, não. Quem se efemina degenera. É preciso não ser diletante nem virtuoso; mas é necessário ser ar sta. Em matéria de civilização, é necessário não refinar, mas sublimar. Com esta condição dá-se ao género humano o molde do ideal.
O ideal moderno tem o seu po na arte, e o seu meio na consciência. É com a ciência que se há-de realizar a visão augusta dos poetas: o belo social. Reconstruir-se-á o Éden com o A+B. No ponto a que a civilização tem chegado, o exacto é um elemento necessário do esplêndido, e o sen mento ar s co é não somente servido, mas completo pelo órgão cien fico; o sonho deve calcular. A arte, que é a conquistadora, deve ter por ponto de apoio a ciência que é a caminhante. Deve atender-se à solidez do meio de transporte. O espírito moderno é o génio da Grécia, tendo por veículo o génio da Índia; Alexandre sobre o elefante.
As raças petrificadas do dogma, ou desmoralizadas pelo medo, são impróprias para condutoras da civilização. A genuflexão perante o ídolo ou perante o dinheiro disseca o mundo que caminha e a vontade que avança. A absorção hierá ca ou mercan l diminui o brilho de um povo, baixa-lhe o horizonte, baixando-lhe o nível, re ra-lhe a inteligência, ao mesmo tempo divina e humana, do fim universal, que produz as nações missionárias. Babilónia e Cartago não têm ideal. Atenas e Roma conservam, ainda através de toda a espessura nocturna dos séculos, auréolas de civilização.
A França tem a mesma qualidade de povo que a Grécia e a Itália. É ateniense pelo belo e romana pelo grandioso. Além disto é bondosa. Sente-se mais frequentes vezes do que qualquer outro povo, disposta para a dedicação e sacri cio. Só o que tem, é que esta disposição desvanece-se-lhe com a mesma facilidade com que lhe surge, É onde está o grande perigo para os que correm, quando ela apenas quer caminhar. A França tem suas recaídas de materialismo, e, em certos momentos, as ideias que obstruem tão sublime cérebro não têm nada que recorde a grandeza francesa, e são das dimensões de um Missuri ou de uma Carolina do Sul, o que se lhe há-de fazer? A giganta finge de anã; a imensa França tem as suas fantasias de pequenez. Eis o que é.