Os Miseráveis
XI — Christus nos Liberavit
— Ora, ob ve-o! — respondeu Fan ne, sorrindo ao mesmo tempo. Era um sorriso cruel, aquele abrir de lábios. Ao clarão trémulo da vela que lhe ba a no rosto, viam-selhe nos cantos dos lábios uma saliva avermelhada e um buraco negro na bolça. Os dois dentes haviam sido arrancados.
Fantine remeteu os quarenta francos para Montfermeil.
— Porém, tudo aquilo fora um ardil dos Thenardier para obter dinheiro. Cose e não estava doente.
Desesperada, a rou o espelho pela janela fora. Havia tempo que se mudara do quarto do segundo andar para umas águas-furtadas, fechadas apenas com um ferrolho; era um desses sótãos, cujo tacto faz ângulo com o soalho e onde a cada instante se dá com a cabeça nas vigas. O pobre não pode chegar ao fim do seu albergue, senão curvando-se mais e mais, como para chegar ao fim do seu des no. Fan ne já não nha leito,
restavam-lhe uns farrapos a que ela chamava cobertor, uma enxerga que deitava no chão e uma cadeira arrombada. Uma roseirinha que nha, jazia a um canto, seca, esquecida. Noutro canto, estava uma lata das que servem para manteiga, cheia de água, que de Inverno gelava, deixando por muito tempo marcados com círculos de gelo os diferentes níveis da água. Conto perdera a Vergonha, assim perdeu a garridice. Úl mo sinal. Saía já à rua com as toucas muito sujas; e ou fosse por falta de tempo ou por desleixo, não remendava a roupa. A medida que os calcanhares das meias se iam rompendo, ia-os ela puxando para debaixo dos pés, o que se lhe conhecia por certas rugas perpendiculares. Remendava o seu colete velho e roto, com bocados de pano cru, que se tornavam a rasgar ao menor movimento.
As pessoas a quem ela era devedora descompunham-na constantemente, sem lhe deixarem um instante de sossego; encontrava-se com elas na rua, tornava-se a encontrar com elas nas escadas. Passava noites inteiras a chorar, sen ndo aumentar-lhe a tosse, sofrendo uma dor fixa no ombro, por cima da omoplata esquerda com os olhos de con nuo a brilharem com um fulgor estranho. Odiava profundamente o senhor Madelaine, mas não soltava nunca uma queixa. Trabalhava dezassete horas por dia, porém um arrematante do trabalho das prisões, que vendia a obra das presas ao desbarato, fez de repente baixar os preços, o que reduziu o salário das costureiras livres a nove soldos. Dezassete horas de trabalho a nove soldos por dia. Os credores mostravam-se mais do que nunca inexoráveis; o adeleiro «que lhe havia tornado a levar quase todos os trastes» não cessava de lhe dizer:
— Quando me pagas tu, descarada?
Que queriam que ela fizesse, santo Deus? A infeliz sen a-se desnorteada, desenvolvendo-se em todo o seu ser o que quer que fosse de animal feroz, sen ndo-se assim encurralada. Ao mesmo tempo, recebeu uma carta dos Thenardier, na qual lhe diziam que
nham esperado com demasiada bondade, mas que necessitavam imediatamente de cem francos, senão poriam Cose e no meio da rua, ainda convalescente da sua grave doença, exposta ao rigor do tempo e aos perigos das estradas, ela que se arranjasse como pudesse.
«Cem francos!» pensou Fan ne. «Mas onde haverá uma ocupação em que se ganhe cem soldos por dia? Vamos, Vendamos o resto!»
E a desgraçada arrojou o corpo à podridão do prostíbulo.
XI — Christus nos Liberavit
Que vem a ser esta história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
A quem? À miséria.
À fome, ao frio, ao isolamento, ao abandono e à nudez. Doloroso contrato. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita!