Os Miseráveis
III — A Cotovia
A senhora Thenardier era justamente de inteligência suficiente para ler esta espécie de livros. Nutria-se com a sua leitura, afogava ali todo o seu entendimento, e isto havia-lhe dado, enquanto foi rapariga e mesmo ainda alguma coisa depois, uma espécie de a tude pensa va, ao pé de seu marido, velhaco dotado de certa profundidade, rufião quase entendido em gramá ca, grosseiro e fino ao mesmo tempo, mas, pelo que respeita a sen mentalismo, ledor de Pigault-Lebrun, e «em tudo o que toca ao sexo»,
como ele dizia , na sua linguagem habitual, parvo rematado e sem mescla. A mulher nha uns doze ou quinze anos menos do que ele. Mais tarde, quando os cabelos roman camente soltos, começaram a embranquecer, quando a megera se desligou da Pamela, a senhora Thenardier não passou de uma gorda e má mulher, que saboreava romances estúpidos. Ora, ninguém lê imbecilidades impunemente; resultando daqui que a filha mais velha foi mimoseada com o nome de Eponine, enquanto a mais nova esteve a ponto de se chamar Gulnare; deveu, porém, a não sei que feliz diversão, causada por um romance de Ducray-Duminil, chamar-se apenas Azelma.
Todavia, digamo-lo de passagem, nem tudo é ridículo e superficial naquela curiosa época a que fizemos alusão e a que poderíamos chamar a anarquia dos nomes de bap smo. Ao lado do elemento român co, existe o sintoma social. Não é raro hoje em dia que um boieiro se chame Artur, Alfredo ou Afonso, e que um visconde se ainda há viscondes se chame Tomás, Pedro ou Jacques. Esta deslocação que dá ao plebeu o nome elegante e o nome rús co ao aristocrata, não é senão um borbotão de igualdade.
Conhece-se nisto como em tudo, a irresis vel penetração do novo sopro. Sob esta aparente discordância, existe uma coisa grande e profunda: a revolução francesa.
III — A Cotovia Para prosperar não basta ser mau. O negócio da estalagem não dava lucro. Graças aos cinquenta e sete francos de Fan ne, Thenardier pudera evitar o protesto de uma letra e, por conseguinte, o descrédito da sua assinatura. No mês seguinte, veram ainda necessidade de dinheiro; a mulher dirigiu-se a Paris e empenhou no Monte de Piedade o enxoval de Cosette por sessenta francos.
Apenas este dinheiro se consumiu, logo os Thenardier se acostumaram a ver na pobre pequenita unicamente uma criança que nham em casa por caridade e passaram atratá-la como tal. Como já não possuía enxoval, ves ram-na de saias e camisas velhas que nham sido do uso das outras duas pequenas, isto é, de farrapos Não lhe davam para comer senão os sobejos de todas as outras pessoas, alimentação um pouco melhor que a do cão e alguma coisa pior que a do gato. O cão e o gato eram, de resto, os seus comensais habituais; Cose e comia com eles debaixo da mesa, numa escudela de pau, igual à deles.
A mãe, que se nha fixado, como mais tarde se verá, em Montreuil-sur-mer, escrevia, ou, para melhor dizer, mandava escrever todos os meses, pedindo no cias da sua filhinha. Os Thenardier respondiam invariavelmente: «Cosette passa magnificamente».
Findos os primeiros seis meses, Fan ne enviou sete francos para pagamento do sétimo mês e continuou a mandar com a maior exac dão as suas remessas mensais. Não tinha ainda terminado o ano, quando Thenardier disse:
— Ora olhem que grande favor! Que quer ela que se faça com sete francos?
Escreveu pois imediatamente à pobre mãe, exigindo-lhe doze francos. Fan ne, persuadida de que sua filha era feliz e passava bem, submeteu-se à exigência e mandou os doze francos.
Certas naturezas não podem amar por um lado sem odiar pelo outro. A Thenardier queria apaixonadamente às suas duas filhas, o que fazia com que detestasse a que lhe era estranha. É triste a ideia de que o amor maternal possa apresentar aspectos repugnantes.
Por mais pequeno que fosse o lugar que Cose e ocupava naquela casa, parecia-lhe um roubo feito aos seus e que a pobre pequenita lhes diminuía o ar que respiravam Esta mulher, como muitas da sua espécie, nha para prodigalizar em cada dia uma soma de carícias e outra de pancadas e injúrias. Se ela não vesse Cose e, é certo que suas filhas, apesar de idolatradas, teriam recebido tudo, mas a criança estranha prestava-lhes o serviço de afastar delas e fazer recair sobre si as pancadas que lhes eram des nadas e em troco das quais elas só nham carícias. Cose e não fazia um movimento que não visse desabar sobre si uma saraivada de castigos violentos e imerecidos.
Doce e frágil criaturinha, que não devia compreender nada deste mundo nem de Deus, sem ser incessantemente punida, repreendida, tratada com a maior rudeza, espancada e vendo a seu lado duas criancinhas como ela, a viver num raio de aurora!
A Thenardier, sendo má para Cose e, fez com que Eponine e Azelma o fossem também, porque as crianças naquela idade são simples cópias da mãe. A diferença é o formato ser mais pequeno.
Assim se passou um ano e depois ainda outro. Entretanto, dizia-se na aldeia:
— Que excelentes pessoas são estes Thenardier. Apesar de não serem ricos sustentam e educam uma pobre criança que foi abandonada em sua casa!
Todos julgavam que a mãe de Cose e a nha abandonado. Thenardier, contudo, tendo sabido por qualquer obscura via, que a criança provavelmente era bastarda, e que a mãe não o podia confessar, exigiu quinze francos por mês, dizendo que a pequena comia e crescia cada vez mais, ameaçando-a ao mesmo tempo de pô-la fora de casa.
«Não pense ela que está a tratar com algum tolo» exclamou ele. «Se se põe a torcer o nariz, mando-lhe a pequena, sem me importar com os seus segredos. Preciso de mais dinheiro!» E a infeliz mãe pagou os quinze francos.
De ano para ano, a criança crescia, crescendo também a sua miséria.
Cose e, enquanto pequena, foi sempre maltratada pelas faltas das suas duas companheiras; apenas começou a desenvolver-se, quer dizer, antes ainda de ter cinco anos, tornou-se a criada da casa.
Com cinco anos, dir-se-á, isso é inverosímil! Infelizmente, é verdade. O sofrimento social começa em qualquer idade. Não vimos ainda há bem pouco o processo de um tal Dumolard, órfão que se tornou bandido, o qual desde a idade de cinco anos, segundo dizem os documentos oficiais, vendo-se só no mundo, «trabalhava para viver, roubando?»
Obrigavam a pobre Cose e a fazer os recados, a varrer os quartos, o pá o e a rua, a lavar a loiça e até a carregar com coisas pesadas. Os Thenardier julgavam-se muito mais autorizados a proceder deste modo, porque a mãe, que con nuava a estar em Montreuil-sur-mer, começava a pagar mal, chegando a ficar alguns meses em atraso.
Se a pobre mãe vesse voltado a Mon ermeil no fim destes três anos, não teria decerto reconhecido a filha. Cose e, tão fresca e rosada quando chegou àquela casa, estava agora magra e amarela. O seu aspecto era sempre inquieto Os Thenardier
chamavam-lhe sonsa.
A injus ça fizera-a rabugenta e a miséria tornara-a feia. Já não lhe restavam senão os seus belos olhos, que causavam pena, porque, grandes como eram, pareciam conter ainda maior quantidade de tristeza.