Os Miseráveis
Livro Nono — Noite Escuríssima, Brilhante Aurora
Pouco a pouco, este velho deixou de chegar até à esquina da rua das Mulheres do Calvário; parava a meio do caminho, na rua de S. Luís, ora mais próximo, ora mais re rado do fim da rua. Um dia, não passou adiante da esquina da rua Culture-Sainte-Catherine e pôs-se a olhar de longe para a das Mulheres do Calvário. Depois abanou silenciosamente a cabeça da direita para a esquerda, como se a si mesmo recusasse alguma coisa, e voltou para trás.
Daí a pouco, nem à rua de S. Luís já chegava. Caminhava até à rua Pavêe; chegado aí, abanava a cabeça e retrocedia; em seguida não passava da dos Três Pavilhões; por úl mo, já não ia senão até à rua de Blancs-Manteaux. Dir-se-ia uma pêndula a que não se dá corda, encurtando gradualmente o balanço das suas oscilações até de todo parar.
Esse velho todos os dias saía de casa sempre a mesma hora, empreendia o mesmo trajecto, e, sem nunca o dar por findo, encurtava-o, todavia, constantemente, sem talvez dar por isso.
A expressão do seu rosto denunciava apenas esta única ideia:
— Que vou lá fazer?
Em seus olhos amortecidos já não resplandecia o menor clarão; aquela lágrima que se formava ao canto dos olhos secara-se; no seu olhar não havia pranto, mas havia tristeza.
A cabeça trazia-a sempre estendida para diante; às vezes bulia com os lábios; as rugas de seu descarnado pescoço me am compaixão. Algumas vezes acontecia estar a chover e ele continuava o seu caminho com o guarda-chuva debaixo do braço, em vez de o abrir.
— É um pobre idiota! — diziam, compadecidos, algumas boas mulheres da vizinhança.
Os rapazes seguiam-no, fazendo galhofa!
LIVRO NONO — NOITE ESCURÍSSIMA, BRILHANTE AURORA