Os Miseráveis
II — Achado
Uma ocasião, Mário, confiado num belo sol de Setembro, acedera aos rogos de Courfeyrac, Bossuet e Grantaire, acompanhando-os ao baile de Sceaux, esperançado —
que sonho! — em que talvez lá a encontrasse. Escusado é dizer que as suas esperanças ficaram frustradas. Por mais que fizesse, não viu quem ele procurava.
— Ora esta. Mas aqui é que se encontram as mulheres perdidas —, murmurava Grantaire num aparte.
Mário deixou os seus amigos no baile e voltou para casa a pé, só, cansado, a arder em febre, com os olhos turvos e tristes no meio da escuridão, aturdido com o barulho e com o pó levantado pelos carros cheios de joviais criaturas que voltavam da função e passavam por ele, cantando, ao passo que o jovem vinha desalentado, aspirando o cheiro acre das nogueiras da estrada para refrescar a cabeça.
Principiou então a viver cada vez mais solitário, desvairado e triste, sempre a braços com a sua angús a ín ma, girando em torno da sua dor como o lobo em roda do fosso, procurando por toda a parte a ausente, embrutecido pelo amor.
Noutra ocasião teve um encontro que lhe causou uma singular sensação. Ao passar por uma das estreitas ruas próximas ao boulevard dos Inválidos, encontrou-se com um homem trajado a modo de operário, com um boné de pala comprida na cabeça, por
baixo do qual lhe saíam umas farripas de alvíssimo cabelo. Impressionado com a beleza daqueles cabelos brancos, pôs-se a contemplar aquele homem que caminhava a passos lentos e como que absorvido em dolorosa meditação. Estranha coisa! Ao vê-lo, afigurou-se a Mário reconhecer naquele velho o senhor Leblanc. Eram os mesmos cabelos, o mesmo aspecto, embora algum tanto modificado pelo trajo, o mesmo modo de andar, apenas com uma diferença para mais triste. Mas que queria dizer aquele trajo de operário? Que significava semelhante disfarce? Mário ficou maravilhado. Apenas voltou a si do seu pasmo, o seu primeiro pensamento foi seguir aquele homem, que talvez lhe fizesse achar os ves gios de quem ele baldadamente nha procurado. Em todo o caso, era necessário ver o homem de perto e aclarar o enigma. Quando, porém, tomou esta resolução, era tarde, porque o homem já nha desaparecido, tomando decerto por alguma viela, de modo que Mário não foi capaz de tornar a encontrá-lo.
O jovem andou alguns dias preocupado com este encontro, ao cabo dos quais se lhe varreu da memória.
«Afinal de contas», disse ele consigo, «talvez não passasse de uma semelhança».
II — Achado
Mário con nuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos nham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da an ga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos: Qu’il luise ou qu’il luiserne,
L’ours rentre en sa caverne.
Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de con nuar o seu an go costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!