Os Miseráveis
VI — Fragmento de história
O boulevard exterior é o seu meio respirável; os arredores de Paris pertencem-lhes; fazem deles uma eterna escola de gazeta, cantando ingenuamente o seu repertório de can gas nojentas. Estão ali, ou antes, existem ali, longe de todas as vistas, à suave luz de Maio ou de Junho, ajoelhados em volta dum buraco feito na terra, jogando, disputando por causa de um soldo, irresponsáveis, livres, felizes; e apenas vos avistam, lembram-se de que têm uma indústria, com que ganham a vida e oferecem-vos para comprardes, uma meia velha de lã cheia de besouros, ou um ramo de lilases. Estes encontros de estranhas crianças, são uma das graças encantadoras e ao mesmo tempo pungentes dos arredores de Paris.
Algumas vezes, naqueles montões de rapazes vêem-se rapariguinhas; serão suas irmãs? Quase mulheres, magras, febris, crestadas pelo sol, com os rostos sardentos, com espigas de centeio e papoilas nos cabelos, alegres, descalças e ariscas. Vêem-se algumas entre o trigo comendo cerejas, e à tarde ouvem-se-lhes os risos. Estes grupos ardentemente iluminados pelo Sol do meio-dia, ou entrevistos no crepúsculo, ocupam por muito tempo o pensador; estas visões invadem-lhe a meditação.
Paris, centro — os arredores, circunferências; eis para tais crianças a terra inteira.
Jamais passam além. Podem tão-pouco sair da atmosfera parisiense como os peixes podem sair da água. Para elas, além de duas léguas das barreiras, não existe mais nada; Ivry, Gen lly, Arcueil, Belleville, Aubervilliers, Ménilmontant, Choisy-le-Roi, Billancourt, Meudon, Issy, Vanvre, Sèvres, Puteaux, Neilly, Gennevilliers, Colombes, Romainville,
Chatou, Asnieres, Bougival, Nanterre, Bnghien, Noisy-le-Sec, Nogent, Gournay, Drancy e Gonesse, é tudo quanto compõe o Universo.
VI — Fragmento de história
Na época, aliás quase contemporânea em que decorre a acção deste livro, não havia, como hoje, um agente de polícia à esquina de cada rua (bene cio que já não é tempo de discu r); por isso abundavam em Paris as crianças vagabundas. As esta s cas dão uma média de duzentas e sessenta crianças sem asilo, apanhadas anualmente pelas rondas da polícia, nos terrenos abertos, nas casas que se andavam construindo e debaixo dos arcos das pontes. Um destes ninhos, que se tornou famoso, produziu «as andorinhas da ponte de Arcole». E este é, no fim de tudo, o mais desastroso dos sintomas sociais.
Todos os crimes do homem começam na vagabundagem da criança.
Exceptuemos, contudo, Paris, Rela vamente, e não obstante o que acabamos de lembrar, a excepção é justa. Ao passo que em qualquer outra grande cidade, um rapazinho vagabundo é um homem perdido, ao passo que, em quase toda a parte, o rapaz abandonado a si mesmo, é de certo modo consagrado e votado a uma espécie de imersão fatal nos vícios públicos, que lhe devoram a hones dade e a consciência, o gaiato de Paris, insis mos neste ponto, tão gasto e safado na super cie, conserva-se interiormente quase intacto. É uma coisa magnífica e agradável de registar, e que brilha na esplêndida probidade das nossas revoluções populares: da ideia que satura o ar de Paris, resulta uma certa incorruptibilidade, como da água do oceano resulta o sal.
Respirar Paris é conservar a alma.
O que acabamos de dizer, não diminui coisa alguma o aperto de coração que se sente todas as vezes que se encontra uma daquelas crianças, em torno da qual parece ver-se flutuar os fios quebrados da família. Na civilização actual, tão incompleta ainda, não são demasiadamente anormais estas fracturas de famílias, vazando-se nas sombras, não sabendo mais o que é feito de seus filhos, e deixando cair as entranhas pelas ruas e praças públicas. Daqui os des nos obscuros. Chama-se a isto, porque tão triste coisa produziu locução: «ser lançado às pedras ( sur lê pavé) de Paris».