Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 115 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Complica-se o enigma

janelas. Davam todas para uma sala assaz vasta, lajeada, cortada de arcadas e de pilares, e onde se não dis nguia senão pequeníssima claridade e grandes sombras. A claridade provinha de uma lamparina acesa a um canto.

A sala estava deserta e não havia nela a menor coisa que se movesse.

Contudo, à força de aplicar a vista, pareceu a Jean Valjean que via no chão, sobre a pedra, um objecto que parecia coberto com um lençol e que se assemelhava a um vulto humano estendido de bruços, com o rosto sobre a pedra, os braços cruzados, e com a imobilidade da morte.

Ter-se-ia dito, ao ver uma tal espécie de serpente arrastando-se pelo pavimento, que a sinistra figura nha uma corda ao pescoço. Toda a sala estava cheia da espécie de nevoeiro próprio dos lugares pouco iluminados e que lhes aumenta ainda o terror, Jean Valjean disse depois muitas vezes, que conquanto muitos espectáculos fúnebres lhe vessem atravessado a vida, nunca presenciara coisa alguma mais medonha e terrível do que aquela figura enigmá ca, consumando não sabia que desconhecido mistério, naquele lugar sombrio e assim entrevisto no meio da noite. Era medonho supor que aquilo estivesse talvez morto; porém mais medonho ainda pensar que estaria vivo.

Jean Valjean teve a coragem de encostar o rosto à vidraça e de se pôr em observação para ver se o estranho objecto se movia. De repente, sen u-se dominado por inexplicável espanto e fugiu, deitando a correr para o alpendre sem se atrever a olhar para trás. Parecia-lhe que se voltasse a cabeça veria a medonha figura caminhando atrás dele a passos largos e agitando os braços.

Chegou ao alpendre como que alucinado. Os joelhos vergavam-se-lhe e nha o corpo coberto de suor.

Onde estava? Quem poderia ter imaginado coisa semelhante naquela espécie de sepulcro no centro de Paris? Que extraordinária casa era aquela? Edi cio cheio de mistérios nocturnos, chamando as almas na sombra com vozes de anjos, e quando elas se apresentavam oferecendo-lhes inopinadamente tão espantosa visão; prometendo abrir a porta radiante do céu e abrindo a horrível porta do túmulo! E era, com efeito, um edi cio, uma casa, cuja porta nha o seu número! Não era sonho! Jean Valjean necessitava tocar as pedras para crer na realidade de tudo aquilo.

O frio, a ansiedade, a inquietação, as comoções porque passara durante aquela noite, tinham-lhe causado verdadeira febre; e todas estas ideias se lhe embatiam no cérebro.

Aproximando-se de Cosette viu que adormecera.

VIII — Complica-se o enigma

Deitada no chão, com a cabeça sobre uma pedra, a criança adormecera. Jean Valjean sentou-se ao lado dela e pôs-se a contemplá-la.

A pouco e pouco, à medida que observava, sen a-se mais tranquilo e readquiriu a liberdade do espírito.

Notou-se então dis ntamente esta verdade: que o fundo da sua vida, dali em diante, enquanto exis sse aquela criança, enquanto a vesse junto de si, não teria necessidades senão para ela, não temeria coisa alguma senão por sua causa. Tendo despido a sobrecasaca para cobri-la, nem mesmo sentia que estava gelado de frio.

Entretanto, e através da meditação a que estava entregue, ouvia, desde algum tempo, um ruído singular.

Era como o som de um guizo; este ruído par a do jardim e, ainda que fraco, ouvia-se dis ntamente. Assemelhava-se ao nir constante que, durante a noite, se ouve nas vizinhanças de um redil.

Jean Valjean voltou-se, olhou e viu que andava alguém no quintal. Pelo centro do meloal caminhava um ente que parecia ser um homem, levantando-se, baixando-se e parando, com movimentos regulares, como se es vesse estendendo ou arrastando alguma coisa pelo chão. Quem quer que era parecia coxear.

Jean Valjean sen u-se agitado pelo estremecimento con nuo dos desgraçados, a quem tudo se torna suspeito. Desconfiam do dia porque ajuda a que os vejam, e da noite porque contribui para que os surpreendam. Havia pouco tremia com a ideia de que o quintal fosse deserto, depois estremecia por ver que nele havia alguém.

Dos terrores quiméricos caiu nos terrores reais. Pensou consigo mesmo que Javert e os beleguins não se nham talvez re rado, que sem dúvida haviam deixado sen nelas na rua; que se aquele homem o descobrisse no quintal, julgá-lo-ia ladrão, pediria socorro e entregá-lo-ia. Em seguida tomou cuidadosamente Cose e nos braços, mesmo adormecida, e levou-a para trás de um montão de móveis velhos e desmantelados, que estava no canto mais recôndito da barraca. Cose e não fez o menor movimento. Dali pôs-se a observar o aspecto da criatura que andava no meloal.

O que parecia extravagante era que o nir do guizo acompanhava todos os movimentos do homem. Quando este se aproximava, aproximava-se também o som do guizo, e se ele se afastava levava-o consigo; se fazia algum movimento mais precipitado, o guizo acompanhava-o com um som trémulo, e quando parava cessava o ruído.

Parecia evidente que o guizo estava preso àquele homem; mas sendo assim o que podia aquilo significar? O que era aquele homem, que trazia um guizo pendente como se fora um carneiro?

Jean Valjean, mesmo fazendo estas reflexões, tocou nas mãos de Cose e e sen u-as geladas.

— Valha-me Deus! — disse ele. E chamou em voz baixa: — Cosette!