Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 346 de 359

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Os Miseráveis

IV — Combate sem fim

Este caminho, por onde Cose e havia passado, excluía para ele outro qualquer itinerário.

Chegado Jean Valjean a casa, acendeu a luz ,e subiu.

Estava tudo deserto. Nem a própria Toussaint ali se achava. Os seus passos ressoavam pelas salas com maior estrondo do que até ali. Estavam abertos todos os armários.

Entrou no quarto: de Cose e. A cama jazia sem lençóis. Aos pés do colchão, em que Cosette não tornaria a dormir, via-se o travesseiro de riscado, sem a fronha de folhos, colocado sobre os cobertores dobrados.

Todos os objectozinhos femininos a que Cose e ligava algum apreço levara-os consigo: ficaram apenas os móveis e as paredes.

A cama de Toussaint jazia igualmente desguarnecida. Só uma das camas estava feita,

parecendo achar-se como que à espera de alguém: era a de Jean Valjean.

O infeliz principiou então a correr as paredes com os olhos, a fechar as portas de alguns armários e a andar dum quarto para outro.

Por fim, achou-se outra vez no seu e pousou a vela sobre a mesa. A este tempo, Jean Valjean nha rado o braço que trazia ao peito do lenço em que se achava envolto e servia-se da mão direita, como se nada tivesse nela.

Ao aproximar-se da cama, o seu olhar, ou por acaso ou intencionalmente, fitou-se no bauzinho que o acompanhava sempre, no «inseparável», de que Cose e dizia que nha ciúmes. No dia 4 de Junho, logo que chegou à rua do Homem Armado, pusera-o em cima de um velador, à cabeceira da cama.

Dirigiu-se ao velador, rou uma chave do bolso, abriu o baú e principiou a revistar a roupa que Cose e, havia dez anos, trouxera ves da, quando ele a fora buscar a Mon ermeil; primeiro rou o ves dinho preto» depois o lenço, também preto, em seguida os sapatos de criança, que ainda naquela ocasião lhe serviriam, em seguida a casaquinha de fustão, a saia de ponto de meia, o aventalzinho com suas algibeiras e as meias de lã, que não nham mais comprimento do que a mão de Jean Valjean e em que se via ainda graciosamente impressa a forma de uma perninha. Todos estes objectos de vestuário eram de cor escura e fora ele que lhos levara a Mon ermeil. À medida que os ia rando para fora do baú, ia-os colocando em cima da cama. Olhava para aquilo e meditava. Vinha-lhe à lembrança o que se passara na sua ida a Mon ermeil. Fora no Inverno, num frigidíssimo mês de Dezembro. A pobre criancinha andava descalça, quase nua, ritando com frio. Vira-a assim e fizera-a largar os andrajos com que andava coberta para Ves r aquela roupa de luto. Como a mãe da infeliz criança se não regozijaria no seu túmulo, vendo sua filha ves da de luto por ela, e mais ainda de a ver resguardada do frio e bem agasalhada?! Vinha-lhe à lembrança aquela floresta de Mon ermeil que atravessaram, ambos, Cose e e ele; lembrava-lhe ainda o tempo que fazia; as árvores estavam despojadas de folhas, os bosques de pássaros, o céu coberto de nuvens; e, todavia, tudo lhe parecera belo! Estendeu a roupa em cima da cama, o lenço ao pé da saia, as meias junto dos sapatos, a casaquinha ao lado do ves do e pôs-se a contemplá-los alterna vamente. E vinham-lhe à lembrança mil coisas. Tinha ela apenas aquela altura, trazia a boneca nos braços, nha me do o seu luís de ouro no bolso do avental, ria, caminhavam ambos pela mão um do outro, naquele tempo ela só o tinha a ele no mundo!

Então pendeu a cabeça, povoada de cabelos brancos, para cima da cama, escondeu o rosto entre a roupa de Cose e, confrangeu-se-lhe de dor o estóico coração, e se alguém, naquela ocasião, fosse a passar pela escada, ouviria os angus ados soluços do desditoso.

IV — Combate sem fim A velha e formidável luta de que já temos diversas fases, recomeçou de novo em Jean Valjean.

Jacob não lutou com o anjo senão uma noite. Ah, quantas vezes temos visto Jean Valjean estreitado nas trevas pela própria consciência, lutando desorientadamente

contra ela! Inaudita luta! Em certos momentos é o pé que escorrega, noutros é o solo que abate. Quantas vezes nha ele sido acabrunhado por aquela consciência furiosa pelo bem! Quantas vezes a verdade inexorável lhe nha posto! O joelho sobre o peito?

Quantas vezes, prostrado pela luz, nha ele pedido graça! Quantas vezes a luz implacável, acesa nele pelo bispo, o nha alumiado, à força, quando ele desejava estar cego! Quantas vezes se ergueu no combate, preso ao rochedo, ancorado ao sofisma, arrastado pela poeira, ora suplantando a consciência, ora derrubado por ela! Quantas Vezes após um equívoco, após um raciocínio traidor e especioso do egoísmo, ouvira a consciência irritada, gritar-lhe ao ouvido: Miserável! Quantas vezes nha o seu

pensamento refractário arfado convulsivamente sob a evidência do dever! Resistência a Deus, suores fúnebres. Quantas feridas secretas, que só ele sen a sangrar! Que de arranhaduras em sua lamentável existência! Quantas vezes se nha ele erguido, ensanguentado, dorido, despedaçado, esclarecido, com o desespero no coração: e a serenidade na alma; e vencido, se sen ra vencedor! E a sua consciência, depois de o ter deslocado, atazanado, feito em pedaços, de pé acima dele, temível, luminosa e tranquila, dizia-lhe: «Agora, fica-te em paz!»

Mas que lúgubre paz ao sair de tão sombria luta!

Assim, com a consciência jamais se levou a melhor.

Contudo, naquela noite, conheceu Jean Valjean que combatia pela última vez.

Era pungente o ponto que se lhe apresentava. As predes nações nem todas são rectas; não se desenvolvem em avenida rec línea diante do predes nado; tem in paces, cotovelos inopinados e encruzilhadas inquietadoras, oferecendo diferentes caminhos.

Jean Valjean, naquele momento, fazia alto na mais perigosa destas encruzilhadas. Tinha chegado ao supremo entroncamento do bem e do mal. Tinha diante dos olhos esta tenebrosa intersecção. Ainda por agora, como já lhe sucedera noutras peripécias dolorosas, eram duas as veredas que se lhe apresentavam, uma tentadora, outra medonha. Por qual das duas tomaria?

A que assustava era-lhe aconselhada pelo misterioso dedo indicador, que todos nós distinguimos, sempre que fitamos a sombra.

Por mais uma vez ainda, nha Jean Valjean de escolher entre o porto terrível e a emboscada risonha.

Será realmente verdade que a alma se possa curar e a sorte não? Que medonha coisa!

Um destino incurável!

O ponto que se apresentava era o seguinte:

De que modo se comportaria Jean Valjean com a felicidade de Cose e e de Mário?

Essa felicidade fora ele quem a quisera, quem a realizara; fora ele próprio quem a cravara nas entranhas; depois, contemplando-a, podia sen r a espécie de sa sfação que experimentaria um armeiro, reconhecendo a marca da sua fábrica numa faca, ao arrancá-la fumegante do peito. Cose e nha Mário, Mário possuía Cose e. Tinham tudo, incluindo a riqueza; e tudo era obra dele.

Mas o que faria ele, Jean Valjean, daquela felicidade, que exis a, que era real? Impor-se-lhe-ia? Tratá-la-ia como propriedade sua? Cose e pertencia sem dúvida a outro; mas

ele, Jean Valjean, conservaria de Cose e tudo o que podia conservar? Ficaria sendo a espécie de pai entrevisto, mas respeitado, que fora até então? Introduzir-se-ia tranquilamente na casa de Cose e? Juntaria, sem proferir uma palavra, o seu passado àquele futuro? Apresentar-se-ia ali, como tendo direito de O fazer, e iria sentar-se, velado, àquele luminoso lar? Tomaria ele, sorrindo-lhes, em suas mãos trágicas, as mãos daqueles inocentes? Descansaria no pacífico varandim do fogão da sala do senhor Gillenormand os pés, que arrastavam após si a sombra infamante da lei? Par ciparia ele das venturas de Cose e e de Mário? Tornaria mais densa a escuridão na fronte própria e a nuvem na deles? Juntaria, como terceiro, a sua catástrofe àquelas duas felicidades?

Con nuaria a conservar-se calado? Numa palavra, seria ele ao lado daqueles dois entes felizes, o sinistro mudo do destino?

É necessário estar habituado à fatalidade e às suas contradições para ousar erguer os olhos, quando certas perguntas se nos apresentam com a sua horrível nudez.

Por trás de tão severo ponto de interrogação estão o bem e o mal.

— Que vais fazer? — pergunta a esfinge.

Jean Valjean tinha o hábito da provação. Fitou a esfinge.

Examinou o implacável problema por todas as suas faces.

Cose e, existência encantadora, era a jangada daquele náufrago. Que deveria fazer?

Agarrar-se a ela com todas as suas forças, ou largá-la?

Agarrando-se a ela, saía do desastre, subia ao céu, deixava escorrer do vestuário e dos cabelos a água amarga, estava salvo, vivia.

Largava-a?

Então, o abismo.

Era assim que estava dolorosamente em conselho com o seu pensamento; ou, para melhor dizer, combatendo: arremessando-se furioso, dentro de si mesmo, ora contra a sua vontade, ora contra a sua convicção.

Foi uma felicidade para Jean Valjean o ter podido chorar. As lágrimas esclareceram-no, talvez. Todavia, o começo foi terrível. Desencadeou-se-lhe no ín mo uma tempestade mais furiosa do que aquela que o arrastara a Arras. O passado apresentava-se-lhe em face do presente e fazia-o comparar e soluçar. Uma vez aberto o dique das lágrimas, o desesperado contorceu-se.

Sentia-se manietado.

Ah! Neste enfurecido pugilato travado entre O nosso egoísmo e o nosso dever, quando assim recuamos, palmo a palmo, ante o nosso incomutável ideal, desvairados, encarniçados, exasperados com a derrota, disputando o terreno, esperançados na possibilidade de uma fugida, procurando uma aberta, quem imagina o horror da Súbita e sinistra resistência da parede, de encontro à qual vamos bater com as costas?

Sentimo-nos embargados pela sanha sagrada!

Que contrariedade! O invisível mostrando-se inexorável! É pois certo que com a consciência não há tréguas. Toma a tua resolução, Bruto; resolve, Catão. A consciência é Deus, e, por consequência, insondável. Nesse poço lançamos o trabalho de toda a nossa vida, a nossa fortuna, riqueza, triunfo, liberdade e pátria; nele lançamos o nosso bem-

estar, o nosso repouso, a nossa alegria. Mais! Mais! Mais! Despejai o vaso! Que a uma fique vazia! Enfim, temos de lhe lançar também o coração!

Há não sabemos, em que parte da cerração dos antigos infernos um tonel semelhante.

Não será digno de desculpa que a resolução final seja uma recusa? Acaso o inesgotável pode ter direitos?

Porventura, as correntes sem fim não são superiores à força humana? Quem há aí, pois, que ousasse a coimar Sisypho e Jean Valjean por dizerem: «Basta?!»

A obediência da matéria é limitada pelo atrito; pois não haverá também, um limite para a obediência da alma? Se é impossível o moto-con nuo, acaso pode alguém exigir o sacrifício contínuo?

O primeiro passo nada custa; a dificuldade está no derradeiro. Que era o processo Champmathieu em comparação com o casamento de Cose e e das suas consequências?

Que é isto: voltar para as galés, comparado com isto: voltar ao nada?

Como és sombrio, ó primeiro degrau a descer! Como és tenebroso, ó segundo degrau!

Como, deixar de voltar a cabeça desta vez?

O mar rio é uma sublimação, sublimação corrosiva. É uma tortura san ficante. No primeiro instante, podemos obedecer-lhe, sentarmo-nos no trono de ferro em brasa, cingir a fronte da coroa de ferro em brasa, travar do globo de ferro em brasa, empunhar o ceptro de ferro em brasa; porém resta ainda reves rmo-nos do manto de chamas, e então não há um; momento em que a carne miserável se rebela e em que se abdica o suplício?

Jean Valjean sentiu-se, enfim, na serenidade da desolação.

Pesou, meditou, considerou as alternativas da misteriosa balança de luz e trevas.