Os Miseráveis
Terceira Parte — Mário
Todos os sucessos da sua vida, desde há seis meses, como que o impeliam a pôr em prá ca as piedosas exortações do santo bispo; Cose e com o seu amor, o convento com a sua humildade.
Às vezes, quando à tarde a luz avermelhada do crepúsculo corava ainda de reflexos mal dis ntos o jardim deserto, ajoelhava no meio da rua paralela à capela diante da janela por onde espreitara na noite em que chegara, e voltado para o sí o onde sabia
que a soror, que fazia reparação, estava prostrada a orar. E ele orava assim ajoelhado diante daquela mulher piedosa, como se fora ela a mediadora das suas súplicas a Deus, perante quem parecia não ousar ajoelhar-se directamente. Tudo o que o rodeava, aquele pacífico jardim, aquelas flores odoríferas, aquelas crianças ruidosamente alegres, aquelas mulheres cheias de gravidade e singeleza, aquele claustro silencioso, tudo manso e manso se lhe ia infiltrando no coração e compondo a alma pouco a pouco do silêncio daquele claustro, do perfume daquelas flores, da tranquilidade daquele jardim, da simplicidade daquelas mulheres e da alegria daquelas crianças.
E depois lembrava-se de que foram duas mansões de Deus que sucessivamente o recolheram nas duas conjunturas crí cas da sua vida; a primeira, quando todas as portas se lhe fechavam e que a sociedade humana o repelia; a segunda, na ocasião em que a sociedade se empenhava de novo a persegui-lo e em que para ele se tornavam a abrir as galés; e então reflec a que, se não fosse a primeira reincidiria no crime, e que, se não fosse a segunda, voltaria ao suplício.
E o seu coração transbordava de gratidão e amava cada vez mais.
Muitos anos passaram assim. Cosette crescia.
TERCEIRA PARTE — MÁRIO
É