Os Miseráveis
IX — Eclipsa
— Quanto pode o pudor! — dizia Mário.
VIII — Até os próprios inválidos podem ser felizes
Já que pronunciámos a palavra pudor, e também porque não ocultamos nada, diremos que apesar de tudo houve uma ocasião, no meio dos seus êxtases, em que a
«sua Úrsula» lhe deu sério motivo de queixa.
Foi num dos dias em que ela convencera o senhor Leblanc a deixar o banco e a passear na álea. A brisa soprava fresca agitando os cimos dos plátanos. O pai e a filha, de braço dado, foram passar por diante do banco de Mário. Este, apenas eles passaram, levantou-se e seguiu-os com a vista, como é próprio de tais situações, nas quais a alma está desvairada.
De repente, uma rajada de vento mais forte, provavelmente encarregada de produzir os efeitos da Primavera, precipitou-se do viveiro sobre a álea, envolveu a jovem num arrebatador estremecimento, digno das ninfas de Virgílio e dos faunos do Teócrito, e levantou-lhe o ves do, aquele ves do mais sagrado do que a túnica de Ísis, até quase à altura da liga, deixando ver uma perna de forma irrepreensível.
Mário viu-a. Ficou exasperado e furioso.
A jovem baixara rapidamente o ves do com um movimento divinamente assustado,
mas nem por isso Mário ficara menos indignado. Era verdade que estava só na álea, mas podia ali ter estado alguém. E se es vesse! Pois pode compreender-se semelhante coisa?
Fora horrível o seu procedimento! A pobre criança não fizera coisa alguma, não houvera senão um culpado: o vento. Mas Mário, em quem estremecia confusamente o Bártolo con do em Querubim, decidira-se a ficar descontente e sen a-se cioso da sua sombra. É
assim, com efeito, que se desperta no coração humano e que se impõe mesmo sem direito, o amargo e extravagante ciúme da carne. No fim de tudo, mesmo apesar do ciúme, não vera para ele nada agradável a vista daquela encantadora perna; a meia branca da primeira mulher que aparecesse, ter-lhe-ia causado maior prazer.
Quando a «sua Úrsula», depois de ter chegado à extremidade da álea, voltou para trás com o senhor Leblanc, e passou por diante do banco em que Mário tornara a sentar-se, lançou-lhe este um olhar ferozmente zangado. A jovem fez um movimento acompanhado de ligeiro erguer de pálpebras, que significa: «Ora esta! O que tem ele?»
Foi este o «primeiro arrufo».
Acabava de ter lugar entre a jovem e Mário esta muda cena, em que um ao outro só com os olhos falaram, quando pela álea passou um sujeito. Era um inválido, alquebrado, de fronte encanecida e arregoada pelo arar do tempo, senão pelo queimar do sol dos combates, com uniforme do tempo de Luís XV, com a cruz de S. Luís do soldado ao peito, a qual consiste num retalho de pano vermelho de forma oval com duas espadas cruzadas, e afora isto ornado com uma manga de casaco sem braço, de uma perna de pau e de um queixo de prata. Apesar de tudo afigurou-se ao mancebo ver no rosto daquela estranha criatura um ar de sa sfação, que estaria longe de apresentar outro a quem tão graves mu lações vesse feito a espada inflexível da guerra. Pareceu-lhe até que, quando o cínico velho passou por ele bamboleando donairosamente a sua perna de proveniência estranha, lhe piscara o olho com o mais fraternal e prazenteiro gesto, como se acaso ambos es vessem em inteligência e pudessem saborear em comum as delícias de alguma boa patuscada. Que razões de contentamento teria aquele despontado raio de Marte? Que se nha passado entre esta perna de pau e a outra de carne, que a voluptuosidade da brisa es val não poupara aos seus lascivos ósculos? Mário chegou a sen r-se confrangido nos paroxismos do ciúme, «De certo ele estava por aqui e viu!» E, ao mesmo tempo que dizia isto em monólogo interior, vinha-lhe de ímpeto ao coração o desejo indomável de dar cabo do decepado inválido.
Porém, o tempo tudo desgasta e tudo com ele se adoça. Embora em extremo justa e legí ma, a cólera de Mário contra «Úrsula» passou, como passam todas as coisas desta vida, e ele veio enfim a perdoar, não, contudo, sem grande esforço. Antes de a ngido este resultado, andaram os namorados três dias mudamente desavindos.
No entanto, apesar de tudo isto e por causa de tudo isto, recrudescia o fogo da paixão e já quase atingia o extremo da loucura.
IX — Eclipsa
Viu-se já como Mário descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava Úrsula.
O amor é insaciável. Saber que ela se chamava Úrsula, que muito fora, já agora lhe parecia pouco: dentro de três ou quatro semanas devorara esta ventura, e, portanto,
queria outra. Queria saber onde ela morava.
Não contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se cair na armadilha do banco do Gladiador; não sa sfeito com a segunda, que tão desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc chegava só; cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu Úrsula.
A sua Úrsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova de três andares, de modesta aparência.
A par r desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mário o de segui-la sempre até casa.
A sua fome, porém, como a sede dos hidrópicos, que mais se ateia, se mais a tentam apagar, aumentava.
Já sabia como ela se chamava, isto é, sabia-lhe o nome de bap smo pelo menos; já sabia onde ela morava; quis também saber quem ela era. Para isto, depois de os ter seguido uma tarde até à entrada de casa e vê-los subir a escada que do portal comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalço e desassombradamente perguntou ao porteiro:
— Este senhor que agora entrou, não é o que mora no primeiro andar?
— Não, senhor. O que entrou mora no terceiro.
Ousado com o próspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguações.
— Para o lado da frente? — continuou ele.
— Ora, a pergunta não está má! — exclamou o porteiro. — A casa não tem traseiras.
— E que ocupação é a deste sujeito, sabe? — replicou Mário.
É um rendeiro e homem de bons sentimentos.
Conquanto não tenha lá grandes riquezas, favorece os infelizes como outros que têm muito e não o fazem.
— Sabe-me dizer como se chama? — tornou Mário.
O porteiro, porém, em vez de responder à pergunta, fitou-lhe os olhos e disse-lhe:
— O senhor é espião?
Mário saiu dali corrido e vexado, porém sa sfeito com o feliz sucesso das suas pesquisas e informações que ia colhendo.
— Bem — disse ele consigo. — Já sei que se chama Úrsula, que é filha de um rendeiro e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.
No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porém demoraram-se muito menos do que o costume, re rando-se ainda dia claro, seguidos de Mário, que foi atrás deles até à entrada de casa, como costumava. Ao chegarem à porta, Leblanc deixou passar a filha adiante, parou antes de transpor o limiar da porta e depois voltou atrás e pôs-se a olhar fixamente para Mário.
No outro dia, Mário esperou por eles, mas debalde. Os dois assíduos frequentadores do Luxemburgo não apareceram.
Ao escurecer, Mário dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do terceiro andar visse luz, pôs-se a passear na rua até que a luz se apagou.
No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mário esperou todo o dia, e como não
visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda nocturna debaixo das, janelas da casa da rua do Oeste, que durou até às dez horas. O seu jantar constava do que o acaso lhe deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a aparecer nem Leblanc nem sua filha. Mário fazia tristes conjecturas, porém, receoso, não se atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que andava ligado o seu des no. Contentava-se em ir de noite contemplar o avermelhado clarão que se coava pelas vidraças, a espaços entenebrecido pelo perpassar de umas sombras, que lhe faziam pulsar o coração aligeirado nos estros da comoção.
Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, não viu luz.
— Ora esta! Ainda não acenderam o candeeiro, não obstante ser já noite fechada!
Terão eles saído?
Dito isto, esperou até às dez horas, até à meia-noite, até à uma hora. Ao ver, porém, que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz, nem para aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o coração atribulado.
No dia seguinte pois o mancebo vivia só das esperanças do outro dia, desde que para ele, permitam-nos a expressão, já não havia hojes no dia seguinte, não encontrando ninguém no Luxemburgo, como já esperava, dirigiu-se para a casa da rua do Oeste. Nem sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do terceiro andar e tudo completamente às escuras. Mário bateu à porta, entrou e disse para o porteiro:
— O inquilino do terceiro andar está em casa?
— Mudou-se — respondeu o porteiro.
Mário cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida:
— Há quanto tempo?
— Ontem.
— E onde mora agora, faz favor de me dizer?
— Isso não sei.
— Então ele não disse onde era a sua nova morada?
— Não, senhor.
E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou: