Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 216 de 359

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Os Miseráveis

XXII — O pequeno que gritava na segunda parte

Os homens da polícia tornaram a entrar no quarto e dentro de poucos segundos a ordem de Javert foi executada.

A Thenardier, ao ver-se a si e a seu marido de mãos atadas, caiu desfalecida no chão e exclamou entre soluços:

— Minhas filhas!

— Já estão à sombra! — disse Javert.

Entretanto, os beleguins nham dado com o bêbado adormecido atrás da porta e trataram de o acordar.

Depois de muito sacudido, acordou, balbuciando:

— Já se acabou, Jondrette?

— Acabou! — respondeu Javert.

Os seis bandidos amarrados achavam-se de pé, ainda, porém, com o mesmo aspecto de espectros; três enfarruscados de negro, três mascarados.

— Não tirem as máscaras — disse Javert.

E, depois de os passar em revista com um olhar de Frederico II na parada de Potsdam, disse aos três «rebocadores»:

— Bons dias, Bigrenaile. Bons dias, Brujon. Bons dias, Deux-Milliards.

E depois voltou-se para os três mascarados e disse ao homem da corda:

— Bons dias, Gueulemer.

E ao homem do cacete:

— Bons dias, Babet.

E ao ventríloquo:

— Salve, Claquesous!

Neste momento, Javert deu com os olhos no prisioneiro dos bandidos, o qual, desde que os agentes entraram, não nha proferido uma palavra, conservando-se com a cabeça inclinada.

— Desamarrem aquele senhor! — disse ele, e acrescentou: — Ninguém saia daqui!

Após estas palavras, sentou-se soberanamente diante da mesa, sobre a qual estava a vela e o papel do aviso, rou do bolso uma folha de papel selado e deu princípio ao auto de corpo de delito.

Depois de ter escrito as primeiras linhas, que não eram mais do que as fórmulas do estilo, ergueu os olhos e disse:

— Esse senhor que os malandrins tinham preso que se chegue aqui.

Os agentes circunvagaram a vista em derredor da mansarda e Javert perguntou:

— Então ele onde está?

O prisioneiro dos bandidos, o senhor Leblanc, o senhor Urbano Fabre, o pai de Úrsula ou da Cotovia, tinha desaparecido.

A porta estava guardada, mas não o estava a janela.

Apenas, pois, ele se viu solto e viu Javert ocupado na confecção do auto, aprovei-tou a perturbação, o tumulto, a desordem, a escuridão e o momento em que ninguém reparava nele para saltar pela janela.

Um dos agentes correu prontamente à janela e olhou, mas não viu ninguém.

A escada de corda balouçava ainda.

— Diabo! — resmungou Javert por entre dentes — foi pena, que havia de ser o melhor!

XXII — O pequeno que gritava na segunda parte

No dia seguinte àquele em que na casa do boulevard do Hospital veram lugar os

acontecimentos que acabamos de narrar, caminhava pela álea do lado direito, em direcção à barreira de Fontainebleau, um rapazinho, que vinha, ao que parecia, do lado da ponte de Austerlitz.

Era noite fechada.

O rapazinho era pálido, magro, trajava umas calças rotas de linho no mês de Fevereiro e outros andrajos, e ia a cantar de modo a atordoar os mpanos menos sensíveis. À

esquina da rua do Pe t-Banquier, o rapaz foi de encontro a uma velha que estava agachada a mexer num monte de lixo, ao reflexo do lampião e recuou, exclamando:

— Ora esta! Eu a cuidar que era um canzarrão e Sai-me uma velha!

Pronunciou a palavra canzarrão engrossando a voz de um modo chocarreiro e particular, que se exprimiria bem por maiúsculas: «Um cão, um CANZARRÃO».

A velha ergueu-se furiosa.

— Trinca espinhas do diabo! — regougou ela. — Se não es vesse agachada, eu te faria ver as estrelas ao meio-dia com um pontapé!

O rapaz ia já a distância, mas replicou, fingindo que açulava um cão:

— Kse! Kse! Bem digo eu! Nunca me tinha enganado!

A velha, sufocada de indignação, ergueu-se de todo, e o reflexo avermelhado do lampião bateu-lhe de chapa no rosto lívido, marcado de sulcos profundos em inextricável labirinto. No meio da escuridão que a envolvia, apenas se lhe divisava a cabeça. A configuração do resto do corpo perdia-se nas trevas. Dir-se-ia a máscara da Decrepitude recortada por um clarão no meio das sombras da noite.

O rapaz pôs-se a olhar para ela e afinal disse:

— A senhora não possui o género de beleza que me conviria!

E continuou o seu caminho, cantando alegremente:

Houve um rei antigamente

Chamado o Perna de Pau,

Por trazer andas tão altas

Que passava o Sena a vau.

Ao fim destes versos, calou-se.

Tinha chegado -em frente da casa número 50-52, e como encontrasse a porta fechada, começou aos pontapés a ela, pontapés estrondosos e heróicos, que mais davam a conhecer os sapatos de homem que trazia calçados do que os pés de criança que ele tinha.

A este tempo, porém, a velha que ele encontrara à esquina da rua do Pe t-Banquier corria atrás dele, gritando e gesticulando desabridamente:

— O que é isto? O que é isto? Valha-me Deus! Arrombam a porta! Deitam a casa abaixo.

Os pontapés, porém, continuavam, por mais que a velha se esfalfasse.

— Será também agora moda andar a dar pontapés pelas portas? De repente, porém, parou, ao reconhecer o gaiato.

— Ai, que é este mafarrico!

— Oh, com os diabos, é a velha! disse o rapaz. — Adeus, a Burgon! Eu vinha ver os meus antepassados.

— Não está cá ninguém, birbante! — volveu a velha com certo esgar, admirável improvisação da raiva ajudada pela caducidade e pela fealdade, esgar que, infelizmente, se perdeu na escuridão.

— Ora adeus! — tornou o rapaz. — Então onde está meu pai?

— Na Force.

— Irra! E minha mãe?

— Em S. Lázaro.

— Safa! E minhas irmãs?

— Nas Madelonnetes.

O rapaz pôs-se a coçar atrás da orelha e exclamou, olhando para a tia Burgon:

— Ah!

Depois deu uma volta sobre os calcanhares, e daí por um instante ouvia a velha, que ficara de pé no limiar da porta, uma voz clara e forte, que se ia gradualmente perdendo por baixo dos escuros olmos do boulevard, que sussurravam trémulos aos empuxões do vento de Inverno.

Era a voz do rapaz, que ia cantando com acento vibrante os seus versos favoritos: Houve um rei antigamente.

Chamado o Perna de Pau,