Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 112 de 359

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Os Miseráveis

V — O que seria impossível com a iluminação a gás

Ao examiná-la, porém, viu que não era uma porta, pois nem nha gonzos, nem

fechadura, nem fenda no meio. Os gatos de ferro atravessavam-na de lado a lado sem solução de con nuidade. Pelas fendas das tábuas entreviu Jean Valjean alguns calhaus e pedras grosseiramente cimentadas, que ainda há dez anos podia ver quem por lá passasse, e reconheceu então com consternação que esta porta aparente era um simples tapamento de madeira reves ndo exteriormente uma construção de pedra. Fácil era arrancar uma tábua, mas arrancada ela deparava-se com uma parede.

V — O que seria impossível com a iluminação a gás

Neste momento principiou a ouvir-se a alguma distância um ruído surdo e cadenciado, que o fez aventurar um olhar rápido fora da esquina da rua. Acabavam de desembocar na rua Polonceau sete ou oito soldados, cujas baionetas, Jean Valjean via brilhar e que se dirigiam para ali.

Os soldados, à frente dos quais ele dis nguia a elevada estatura de Javert, avançavam lentamente e com precaução, parando frequentes vezes. Era visível que exploravam todos os recantos das paredes e todos os vãos das portas e corredores.

Era, e nisso não se podiam enganar as suas conjecturas, alguma patrulha que Javert encontrara e que requisitara para aquela diligência.

Nas suas fileiras marchavam os dois acólitos de Javert.

No passo em que eles vinham e com as paragens que faziam, era-lhes necessário um quarto de hora, pouco mais ou menos, para chegar ao sí o onde Jean Valjean se achava.

Foi para ele um momento terrível aquele. Apenas alguns minutos o separavam daquele temível precipício que pela terceira vez se lhe abrira diante dos pés. E as galés agora já não eram só as galés, era a perda de Cose e para sempre; isto é, uma vida que se assemelhava ao interior de um túmulo.

Só havia uma coisa possível nesta conjuntura.

Jean Valjean nha uma par cularidade; podia-se dizer dele que trazia dois alforges, num dos quais guardava os pensamentos de um santo, noutro o temível talento de um forçado: e tanto em um como em outro metia a mão consoante a ocasião.

Entre outros recursos, Jean Valjean, graças às suas numerosas evasões das galés de Toulon, era mestre na arte incrível de subir, sem escadas, nem ganchos de ferro, só com o auxílio da força muscular, apoiando-se com a nuca, com os ombros, com os quadris e com os joelhos, e ajudado apenas pelas saliências da pedra, pela aresta de uma parede, até à altura de um sexto andar sendo necessário; arte que tão medonhamente célebre tornou o canto do pá o da Conciergerie de Paris, pela qual há vinte anos se escapou o sentenciado Battemolle.

Jean Valjean mediu com a vista o muro, por cima do qual se via a lia, e conheceu que nha dezoito pés de altura, pouco mais ou menos. O ângulo, que ele formava com a empena do grande edi cio, era cheio na sua parte inferior por um maciço de pedra de alvenaria de forma triangular, decerto des nado a preservar de imundícies o recanto demasiadamente cómodo. Este preenchimento preven vo das esquinas das paredes é muitíssimo usado em Paris.

Tinha o maciço cinco pés de altura, pouco mais ou menos, de modo que para chegar do alto dele acima da parede havia a transpor um espaço de catorze pés.

A parede era sobrepujada por uma pedra chata e sem rebordo.

A dificuldade era Cose e, Cose e que não sabia trepar uma parede. Abandoná-la?

Nem por pensamentos ocorria tal coisa a Jean Valjean. Levá-la consigo, porém, era impossível. Todas as forças de um homem lhe são necessárias para ser bem sucedido nestas estranhas ascensões. O menor peso lhe deslocaria o centro de gravidade e o faria precipitar.

Era talvez necessária uma corda, mas Jean Valjean não a nha, e onde havia ele de achar uma à meia-noite, na rua de Polonceau? Certo que naquele instante, se Jean Valjean possuísse um reino, tê-lo-ia dado por uma corda.

Todas as situações crí cas têm seus relâmpagos, que ora nos cegam, ora nos iluminam.

O olhar desesperado de Jean Valjean notou de repente o lampião no beco sem saída.

Naquele tempo as ruas de Paris ainda não eram iluminadas a gás. Ao cair da noite acendiam-se lampiões colocados de distância em distância, os quais subiam e desciam por meio de uma corda, que se prolongava pela parede e que se prendia numa espécie de cavalete. A porção de corda que nha de subir para o lampião descer, estava fechada num armariozinho de ferro, cuja chave o a ça trazia consigo, e a mesma corda era protegida por um tubo de metal.

Jean Valjean, pois, com a energia de uma luta suprema, transpôs, de um salto a rua, meteu-se pelo beco, fez saltar a lingueta do armariozinho com a ponta da navalha que trazia e daí a um instante estava outra vez de volta ao pé de Cose e. Já nha uma corda. Andam lestos estes sombrios achadores de expedientes, quando a braços com a fatalidade.

Já dissemos porque naquela noite os lampiões não tinham sido acesos, e por isso o do beco de Genrot achava-se naturalmente apagado como os demais, de modo que se podia passar próximo dele sem conhecer que já não estava no seu lugar.