Os Miseráveis
III — Enquanto Cosette e Toussaint dormiam
— Isso é que é ser homem às direitas — disse Gavroche.
E meteu num dos bolsos a moeda de cinco francos.
Sentindo em seguida aumentar-se-lhe a confiança, acrescentou:
— O senhor é daqui da rua?
— Sou, porquê?
— Sabe dizer-me onde é o número 7?
— O número 7, para quê?
O rapaz calou-se, receou ter falado de mais; e metendo energicamente os dedos pelos cabelos, limitou-se a responder:
— Ora aí está!
De repente foi Jean Valjean acometido por uma ideia. A aflição tem às vezes lucidez.
— Tu é que me trazes a carta que eu espero? — disse ele ao gaiato.
— O senhor? — retorquiu Gavroche. — O senhor não é mulher.
— A carta não é para a menina Cosette?
— Cose e? — murmurou Gavroche, — Sim, parece-me que é um nome assim arrevesado.
— Pois sou eu quem lhe hei-de entregar a carta. Dá-ma.
— Então há-de saber que foi da barricada que aqui me mandaram?
— Sei muito bem — respondeu Jean Valjean imperturbavelmente. Gavroche mergulhou a mão noutra algibeira e rou dela um papel dobrado em quatro.
Em seguida fez uma continência militar.
— Respeito para com o despacho — disse ele vem do governo provisório.
Gavroche conservava o papel levantado acima da cabeça.
— Não pense que é alguma carta de amores. É para uma mulher, mas é do povo. Nós cá batemo-nos, mas respeitamos o sexo: Não somos como a sociedade fina, onde há leões que fingem de camelos.
— Dá cá.
— A falar a verdade -continuou Gavroche — o senhor parece ser bom homem.
— Dá cá depressa.
— Aqui tem.
E entregou o papel a Jean’ Valjean.
— É a Saint-Merry que deve ser levada a resposta? — tornou Jean Valjean.
— Aí fazia você um bolo dos que vulgarmente denominam brtochel .
52 Esta carta vem da barricada da rua da Chanvrerie, para onde volto já. Boas noites, cidadão.
Gavroche depois disto foi-se ou, para melhor dizer, con nuou para o sí o: donde viera, o seu voo de pássaro fugido da gaiola. Mergulhou na escuridão, como se nela se fizesse um buraco, com a rapidez rígida de um projéc l; a rua do Homem Armado tornou a ficar silenciosa e solitária; aquela estranha criança, que par cipava da sombra e do sonho, internara-se no nevoeiro daquelas fileiras de casas escuras, perdendo-se nele, qual fumo no meio das trevas; e podê-lo-iam julgar dissipado e ex nto, se alguns minutos depois da sua desaparição, a estrondosa quebradela de vidros e o esplêndido ruído de um lampião caindo na rua, não vessem acordado novamente os burgueses indignados.