Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 290 de 359

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Os Miseráveis

III — Enquanto Cosette e Toussaint dormiam

— Isso é que é ser homem às direitas — disse Gavroche.

E meteu num dos bolsos a moeda de cinco francos.

Sentindo em seguida aumentar-se-lhe a confiança, acrescentou:

— O senhor é daqui da rua?

— Sou, porquê?

— Sabe dizer-me onde é o número 7?

— O número 7, para quê?

O rapaz calou-se, receou ter falado de mais; e metendo energicamente os dedos pelos cabelos, limitou-se a responder:

— Ora aí está!

De repente foi Jean Valjean acometido por uma ideia. A aflição tem às vezes lucidez.

— Tu é que me trazes a carta que eu espero? — disse ele ao gaiato.

— O senhor? — retorquiu Gavroche. — O senhor não é mulher.

— A carta não é para a menina Cosette?

— Cose e? — murmurou Gavroche, — Sim, parece-me que é um nome assim arrevesado.

— Pois sou eu quem lhe hei-de entregar a carta. Dá-ma.

— Então há-de saber que foi da barricada que aqui me mandaram?

— Sei muito bem — respondeu Jean Valjean imperturbavelmente. Gavroche mergulhou a mão noutra algibeira e rou dela um papel dobrado em quatro.

Em seguida fez uma continência militar.

— Respeito para com o despacho — disse ele vem do governo provisório.

Gavroche conservava o papel levantado acima da cabeça.

— Não pense que é alguma carta de amores. É para uma mulher, mas é do povo. Nós cá batemo-nos, mas respeitamos o sexo: Não somos como a sociedade fina, onde há leões que fingem de camelos.

— Dá cá.

— A falar a verdade -continuou Gavroche — o senhor parece ser bom homem.

— Dá cá depressa.

— Aqui tem.

E entregou o papel a Jean’ Valjean.

— É a Saint-Merry que deve ser levada a resposta? — tornou Jean Valjean.

— Aí fazia você um bolo dos que vulgarmente denominam brtochel .

52 Esta carta vem da barricada da rua da Chanvrerie, para onde volto já. Boas noites, cidadão.

Gavroche depois disto foi-se ou, para melhor dizer, con nuou para o sí o: donde viera, o seu voo de pássaro fugido da gaiola. Mergulhou na escuridão, como se nela se fizesse um buraco, com a rapidez rígida de um projéc l; a rua do Homem Armado tornou a ficar silenciosa e solitária; aquela estranha criança, que par cipava da sombra e do sonho, internara-se no nevoeiro daquelas fileiras de casas escuras, perdendo-se nele, qual fumo no meio das trevas; e podê-lo-iam julgar dissipado e ex nto, se alguns minutos depois da sua desaparição, a estrondosa quebradela de vidros e o esplêndido ruído de um lampião caindo na rua, não vessem acordado novamente os burgueses indignados.