Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 258 de 359

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Os Miseráveis

II — Mário

Isto parecia recen ssimo. Os traços, destacando-se vivamente do fundo escuro da parede, inculcavam estar de fresco, e junto desta via-se uma moita de ur gas recentemente calcadas e cobertas do pó fino da cal que caíra ao abrir das letras.

Evidentemente, aquilo tinha sido escrito naquela noite. Mas que era? Um aviso para ele?

Um sinal para alguém? Em todo o caso, era evidente que o jardim fora violado, penetrando nele quem quer que fosse. Vieram-lhe então à lembrança os estranhos incidentes que já por duas ou três vezes nham derramado o susto em casa, entrou daí em conjecturas e para logo resolveu não falar no caso a Cosette para a não assustar.

No meio destas preocupações, conheceu que alguém acabava de parar por trás dele, pela sombra que um vulto produzira no espaço alumiado pelo Sol. Ia, portanto, a voltar-

se -e a erguer os olhos para o cimo do talude, quando sobre os joelhos lhe caiu um papel dobrado em quatro como se alguém o vera deixado cair por cima dele. Pegou no papel, abriu-o e leu estas palavras, escritas a lápis em letra garrafal: MUDE DE CASA

Jean Valjean ergueu-se com presteza, porém já não viu ninguém sobre o talude; circunvagou a vista em torno e deu com os olhos numa espécie de criatura, com mais corpo do que uma criança e menos do que um homem, ves da com uma blusa escura e umas calças de veludilho russo, saltando o parapeito e desaparecendo no fosso do campo de Marte.

Após isto, Jean Valjean recolheu-se imediatamente a casa, ainda mais pensa vo do que dela saíra.

II — Mário

Mário saíra desorientado de casa de Gillenormand, nha ali entrado com uma esperança pequeníssima; saíra com um desespero imenso.

No fim de tudo os que têm observado os recessos do coração devem compreendê-lo o lanceiro, o oficial, o papalvo, o primo Teodulo, não lhe nham deixado a mínima sombra no espírito. Nem a mais leve. O poeta dramá co poderia pela aparência esperar algumas complicações daquela revelação feita à queima-roupa pelo avô. Mas o que o drama podia nisso ganhar perdia-o a verdade. Mário estava na idade em que não se acredita nada do que respeita ao mal. As suspeitas não são mais do que as rugas. A mocidade não as tem. O que transtorna Otelo, resvala em Cândido. Suspeitar de Cosette!

Há uma multidão de crimes que Mário teria cometido mais facilmente.

Começou a andar pelas ruas ao acaso recurso dos que sofrem. Não pensou em coisa nenhuma de que pudesse recordar-se.

Às duas horas da manhã recolheu-se a casa de Courfeyrac e deitou-se inteiramente ves do sobre o seu colchão. Ia já alto o sol quando adormeceu, mas com o medonho sono pesado que deixa as ideias agitarem-se no cérebro. Quando acordou viu em pé no meio do quarto e prontos para sair, Courfeyrac, Enjolras, Feuilly e Combeferre.

— Não vens ao enterro do general Lamarque? — perguntou-lhe Courfeyrac.

Pareceu a Mário que Courfeyrac lhe falara em chinês.

Saiu pouco depois deles. Meteu na algibeira as pistolas que Javert lhe confiara na ocasião da aventura no dia 3 de Fevereiro e que nham ficado em suas mãos. As pistolas estavam ainda carregadas. Seria di cil dizer que pensamento obscuro nha ele no espírito levando-as consigo.