Os Miseráveis
V — Progresso actual
Se um gigante vesse filtrado aquela cloaca acharia no seu filtro a riqueza dos séculos.
No ponto em que se dividem os dois ramos da rua do Templo e da de Saint-Avoye, deparou-se uma singular medalha huguenote, de cobre, tendo de um lado um porco com chapéu de cardeal e do outro um lobo de tiara na cabeça.
O encontro mais surpreendente foi à entrada do cano geral. Esta entrada fora noutro tempo fechada por uma grade da qual só restavam os gonzos. De um destes gonzos pendia uma espécie de farrapo informe e sujo que, sem dúvida preso ali na sua
passagem, flutuava no meio da sombra, e acabara por se desfiar. Bruneseau aproximou a lanterna e examinou o farrapo. Era bretanha finíssima; e num dos cantos menos consumido do que o resto, dis nguia-se uma coroa heráldica bordada por cima das sete letras: LAUBESP. A coroa era de marquês e as sete letras significavam LAUBESPINE.
Reconheceram que o que tinham diante dos olhos era um bocado da mortalha de Marat.
Marat, na sua mocidade, vera uns amores. Foi quando fez parte da casa do conde de Artois, na qualidade de médico dos escudeiros. Daqueles amores, historicamente comprovados, com uma senhora de elevada jerarquia, nha-lhe restado aquele lençol.
Pela sua morte, como foi o único lençol fino que lhe acharam em casa, amortalharam-no nele. O trágico amigo do povo fora embrulhado para o túmulo, por umas mulheres velhas, no lençol que par cipara da sua voluptuosidade. Bruneseau passou adiante.
Deixou o farrapo onde estava; não o destruiu. Seria desprezo ou respeito; Marat merecia ambas as coisas. E depois, o des no estava ali demasiadamente impresso para que não houvesse hesitação em tocar-lhe. Além disso, é necessário deixar as coisas do sepulcro no lugar que elas escolhem. Em suma, era uma estranha relíquia. Dormira nela uma marquesa: Marat ali apodrecera; e nha atravessado o Panteon para chegar aos ratos do cano. Aquele farrapo de alcova, de que Walteau teria noutro tempo alegremente desenhado todas as pregas, acabara por ser digno do olhar fito de Dante.
A visita total da canalização dos despejos de Paris durou sete anos, de 1805 a 1812.
Bruneseau, ao passo que se ia adiantando; ia determinando, dirigindo e fazendo executar consideráveis trabalhos; em 1808 baixava O nível do cano de Ponceau; e criando por toda a parte novas linhas, levava o cano, em 1809, da rua de S. Diniz até à fonte dos Inocentes, em 1810, por baixo das ruas de Froidmanteau e da Salpêtrière, em 1811, por baixo da rua Nova dos Pe ts Pères, do Mail, da Echarpe, por baixo da Praça Real, e em 1812 por baixo da rua da Paz e a calçada de An n. Ao mesmo tempo fazia desinfectar e melhorar toda a canalização. No segundo ano agregara Bruneseau a si seu genro Nargaud.
Foi assim que no princípio deste século, a velha sociedade cuidou do seu segundo fundo e cuidou da «toilette» dos seus canos de despejo. Sempre limpou alguma coisa.
Tortuoso, fendido, deslajeado, cortado por charcos, cheio de extravagantes cotovelos, subindo e descendo sem lógica, fé do, selvagem, feroz, submerso em escuridão, com cicatrizes nas lájeas, gilvazes nas paredes, espantoso, tal era, visto retrospec vamente, o an go cano de despejo em Paris. Ramificações em todos os sen dos, encruzamento de fossos, pés de pato, estrelas como nas sapas, fundos de saco, abóbadas salitrosas, barrancos infectos, ressudamento herpé co nas paredes, os tectos gotejando, e trevas; coisa alguma igualava o horror desta velha cripta ulcerosa, aparelho diges vo de Babilónia, antro, fosso, pego cheio de ruas, escavação tânica, onde o espírito julga ver girar, através da sombra, na imundície que foi esplendor, a enorme toupeira chamada passado.
Isto, repetimos, era outro tempo.