Os Miseráveis
VI — Bondade absoluta da oração
Mas esses homens ou essas mulheres, encerradas dentro dessas quatro paredes, vestem-se de burel, são iguais, chamam-se irmãos; bem está; mas fazem mais alguma coisa?
Fazem.
O quê?
Olham para a sombra, põem-se de joelhos e erguem as mãos.
Que significa isso?
V — A oração
Fazem a oração.
A quem?
A Deus.
— Que quer dizer a frase: orar a Deus?
Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessariamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de
existência?
Por outras palavras, não é ele o absoluto, cujo relativo somos nós?
Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito, não há outro dentro de nós?
Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, para assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio de vontade sua, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo, O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus. Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar.
Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir.
Devemos mas é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz.
A grandeza da democracia consiste em não negar, nem regenerar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma.
A lei é esmagar os fana smos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros.
Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admi ndo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, rando as supers ções de cima da religião, catando as lagartas a Deus.
VI — Bondade absoluta da oração
Quanto ao modo de orar, todos servem, contanto que sejam sinceros. Voltai o vosso livro do avesso e permanecei no infinito. Sabemos que há uma filosofia que nega o infinito. Também há uma filosofia, patologicamente classificada, que nega o sol; chama-se cegueira.
Erigir em fonte de verdade um sentido que nos falta, é arrojo de cego.
O mais curioso são os modos al vos e superiores, o ar de compaixão que toma esta filosofia que palpa, para com a filosofia que vê a Deus. Parece ouvir-se uma toupeira a gritar: «Que gente, que me causa lástima com o seu Sol!»
Sabemos que há ilustres e fortes ateus. Estes, no fundo impelidos para a verdade pela sua mesma força, não têm grande certeza de serem ateus; dá-se com eles apenas uma questão de definição, e em todos os casos, se não crêem em Deus, sendo grandes espíritos, provam ao menos a sua existência.
Saudamos neles os filósofos, qualificando ao mesmo tempo, inexoravelmente, a sua filosofia.
Continuemos, porém.
O mais admirável também é a facilidade com que alguns se contentam com palavras.
Julgou uma escola meta sica do norte, algum tanto impregnada de nevoeiro, que nha feito uma grande revolução no entendimento humano, subs tuindo a palavra Força pela palavra Vontade.
Dizer: a planta quer, em vez de: a planta cresce, seria, com efeito, uma coisa fecunda, se se acrescentasse: o Universo quer. Porque razão? Porque daria em resultado isto: a planta quer, logo tem um eu; o Universo quer, logo tem um Deus.
Quanto a nós, que, todavia, ao avesso desta escola, não rejeitamos nada à priori, uma vontade na planta como a que esta escola aceita, parece-nos mais di cil de admi r do que uma vontade no Universo, por ela negada.
Negar a vontade do infinito, isto é, negar a Deus, é uma coisa impossível, a não se negar também o infinito. Já o demonstrámos.
A negação do infinito leva-nos direitos ao niilismo. Torna-se tudo «uma concepção do espírito».
Com o niilismo não há discussão possível. Porque o niilismo lógico duvida que o seu interlocutor exista, e nem ele próprio tem grande certeza de que existe.
Debaixo do ponto de vista em que ele toma as coisas é possível que ele próprio não seja para si mesmo mais do que «uma concepção do seu espírito».
Não repara, porém, que tudo o que ele negou admite-o em globo, só com pronunciar esta palavra: Espírito.
Em suma: uma filosofia, que faz terminar tudo no monossílabo. Não, não abre caminho ao pensamento.
Para ‘Não’ só há uma resposta: Sim.
O niilismo é uma coisa sem alcance.
O nada não existe. O zero não existe. Tudo é alguma coisa. Nada é nada.
O homem ainda vive mais de afirmação do que de pão.
Nem mesmo ver e mostrar basta. A filosofia deve ser uma energia; deve ter por esforço e efeito melhorar o homem. Deve entrar Sócrates em Adão e produzir Marco Aurélio; por outras palavras, fazer sair do homem da felicidade o homem da sabedoria.
Mudar o Éden em Liceu. A ciência deve ser um cordial. Se o seu fim, se a sua ambição é só gozar, que triste fim, que deplorável ambição! Ambição brutal! O verdadeiro triunfo da alma consiste em pensar. Estender o pensamento à sede dos homens, dar-lhes a todos, como elixir, a noção de Deus, fazer fraternizar neles a consciência e a ciência, torná-los justos por este misterioso confronto, eis a função da filosofia real. A moral é como um botão fechado que desabrocha em verdades. Contemplar leva a agir.