Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 255 de 359

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Os Miseráveis

VI — Mário torna-se positivo, a ponto de dizer a Cosette onde mora

O que acabava de ocorrer naquela rua não teria causado admiração numa floresta. Os bosques, as charnecas, os maninhos, os ramos asperamente entrelaçados, o mato, existem de um modo sombrio; o irregular movimento selvá co entrevê ali as súbitas aparições do invisível; o que está abaixo do homem dis ngue através do nevoeiro o que está além dele, e as coisas que nós, viventes, ignoramos, confrontam-se na escuridão. A natureza hirsuta e bravia assusta-se em certas aproximações, onde crê pressen r o natural. As forças da sombra conhecem-se e têm entre si misteriosos equilíbrios. Os dentes e as garras temem o que não pode ser agarrado. A bes alidade bebedora de sangue, os vorazes ape tes esfaimados em busca de presa, os ins ntos armados de

unhas e mandíbulas que têm por origem e fim o ventre, observam e farejam com inquietação o impossível lineamento do espectro girando sob um sudário, de pé e envolto no seu vago manto arrepiador e que lhe parece viver de uma vida morta e terrível. Estas brutalidades, que não são mais do que matéria, receiam confusamente ter de se haver com a imensa obscuridade condensada de um ser desconhecido. Uma figura negra intersectando a passagem faz parar de repente o animal feroz. O que sai do cemitério in mida e desorienta o que sai do antro; o que é feroz teme o que é sinistro; os lobos encontrando um fantasma recuam.

VI — Mário torna-se positivo, a ponto de dizer a Cosette onde mora Enquanto aquela espécie de cadela com figura humana guardava a grade, e os seis ladrões abandonavam o terreno na presença de uma rapariga, estava Mário junto de Cosette.

Nunca o céu estivera mais estrelado e mais encantador, as árvores mais ciciantes, mais penetrante o aroma das plantas: nunca os passarinhos nham adormecido sob a folhagem com ruído mais suave; nunca o conjunto das harmonias da serenidade universal correspondera melhor às melodias interiores do amor; nunca Mário se sen ra mais fascinado, mais feliz, mais extasiado.

Mas achara Cose e triste. Cose e chorara. Tinha os olhos vermelhos. Era a primeira nuvem naquele admirável sonho.

— Que tens tu? — tinham sido as palavras de Mário.

— Ora...

Depois sentara-se no banco junto da varanda, e enquanto ele, todo trémulo, tomava lugar a seu lado, prosseguiu:

— Disse-me meu pai esta manhã que me aprontasse, que precisava tratar de uns negócios, e por isso talvez tivéssemos de partir.

Mário estremeceu dos pés à cabeça.

Quando se está no fim da vida, morrer quer dizer par r; quando se está no começo, partir quer dizer morrer.

Havia seis semanas que Mário, pouco a pouco, vagarosa e gradualmente, se apossara de Cose e. Possessão toda ideal, mas profunda. Como já explicámos, no primeiro amor toma-se a alma antes do corpo, mais tarde toma-se o corpo muito antes da alma; algumas vezes não se toma absolutamente a alma: os Faublas e os Proudhome acrescentam: «Porque já a não há»; mas o sarcasmo é por felicidade uma blasfémia.

Mário, pois, possuía Cose e, como se podem possuir os espíritos, mas envolvia-a completamente com a alma e apoderava-se dela ciosamente, com incrível convicção.

Possuía-lhe o sorriso, o hálito, o perfume, o profundo fulgor dos olhos azuis, o aveludado da pele, quando lhe tocava a mão, o gracioso sinal que a jovem nha no pescoço e todos os seus pensamentos. Haviam convencionado não dormir nunca sem sonhar um com o outro, e o caso é que nham cumprido a promessa. Possuía, portanto, todos os sonhos de Cose e. Punha-se-lhe de con nuo a fitar, quando às vezes não chegava quase a beijar com o hálito, os cabelos menos crescidos da parte posterior da cabeça e dizia consigo que nem um só daqueles cabelos deixava de lhe pertencer a ele,

Mário. Contemplava e adorava todas as partes do seu trajo, o laço de fita, as luvas, os punhos, as bo nhas, como objectos sagrados, cujo dono ele era. Pensava em como era ele o senhor daqueles lindos pentes de tartaruga que ela trazia na cabeça, e chegava até a dizer a si próprio surdo e confuso balbuciar da voluptuosidade que tenta mostrar-se que não havia um fio no seu ves do, uma malha nas meias, uma prega no colete, que não fosse dele. Ao lado de Cose e, Mário sen a-se ao pé do seu bem, do seu tudo, do seu déspota e do seu escravo. Parecia que nham de tal forma confundido mutuamente as almas, que, se quisessem outra vez separá-las, lhes seria impossível reconhecê-las.

— A minha é esta.

— Qual é! Essa é que é a minha.

— Olha que te enganas. Não vês que sou eu?

— Cuidas que és tu, mas sou eu.

Mário era uma como parte de Cose e e Cose e uma como parte de Mário. Mário sen a Cose e a viver nele. Para o rapaz, possuir Cose e ou respirar eram coisas pouco dis ntas. Foi no meio desta fé, desta embriaguez, desta posse virginal, singular e completa, desta soberania, que as palavras «talvez tenhamos de par r», de repente caíram e que a voz da realidade lhe gritou de chofre: «Cosette não é tua!»

Só então é que Mário acordou. Havia seis semanas que ele vivia alheado, porém a palavra «partir» fê-lo voltar a si e entrar na mais pungente das realidades.

Não achou uma única palavra para responder.

Cose e, porém, reparou que ele nha a mão muito fria e perguntou-lhe também por sua vez:

— Que tens?

— Não percebi o que me disseste! — respondeu em voz tão baixa, que Cose e mal o ouviu.

A jovem tornou:

— Meu pai disse-me esta manhã que preparasse tudo o que era necessário, que me havia de dar a roupa dele para eu meter na mala, porque se via na necessidade de fazer uma viagem, que havíamos de par r brevemente, que tratasse de arranjar uma mala grande para mim e uma pequena para ele, e, finalmente, que vesse tudo isto pronto dentro de uma semana, porque talvez fôssemos a Inglaterra.

— Isso é monstruoso! — exclamou Mário.

O certo é que, naquela hora, o espírito de Mário não achava nenhum abuso de poder, nenhuma violência, nenhum nefando atentado dos mais abomináveis ranos, nenhuma acção de Busiris, de Tibério ou de Henrique VIII, igualavam em ferocidade o senhor Fauchelevent levando sua filha para Inglaterra, porque tinha negócios a tratar.

— Quando partirás? — perguntou Mário em voz fraca.

— Ele não disse quando seria.

— E quando voltarás?

— Também o não disse.

Mário levantou-se e disse friamente:

— Vai, Cosette?

Cose e voltou para ele os lindos olhos cheios de angús a e respondeu com um certo tom desvairado:

— Para onde?

— Para Inglaterra.

— Porque não me tratas por tu?

— Pergunto-lhe se vai...

— O que queres tu que faça? — disse ela juntando as mãos.

— Logo, vai?

— Se meu pai vai também?

Cosette pegou na mão de Mário e apertou-lha sem responder.

— Bem — disse Mário. — Então irei eu para outra parte.

Cosette sentiu mais o sentido destas palavras do que o compreendeu Tornou-se de tal modo pálida, que o rosto pareceu destacar-se na escuridão e balbuciou:

— O que é que queres dizer?

Mário encarou-a, levantou depois os olhos para o céu e respondeu:

— Nada.

Quando baixou os olhos viu Cose e sorrindo-se para ele. O sorriso de uma mulher que se ama é um clarão que se vê no meio da noite

— Que imbecis que nós somos! Tenho uma ideia, Mário

— O que é?

— Se eu partir, parte também! Dir-te-ei onde estou. Vai ter comigo! Mário era então um homem completamente acordado. Tinha de novo caído na realidade. Ouvindo o que Cosette lhe disse, exclamou:

— Par r também! Estás louca! Para isso é preciso dinheiro e eu não o tenho Ir a Inglaterra? Mas se eu já devo não sei quanto, mais de dez luíses, a Courfeyrac, um dos meus amigos, que tu não conheces! Tenho um chapéu velho que não vale três francos, uma casaca quase sem botões, a minha camisa está toda despedaçada, tenho os cotovelos rotos e as botas despalmilhadas, há seis semanas que não tenho pensado em nada disto, e não to nha dito Sou um miserável, Cose e Não me vês senão de noite e dás-me o teu amor; se me visses de dia dar-me-ias um soldo! Ir a Inglaterra! Nem tenho com que pagar o passaporte!

E arrojou-se contra uma árvore que ali estava próxima, com os dois braços acima da cabeça, a fronte encostada à cor ça do tronco, não sen ndo nem o pau que lhe arranhava a pele, nem a febre que lhe martelava as fontes, imóvel, próximo a cair Como a estátua do Desespero.

Esteve assim muito tempo Ficaria eternidades naquela espécie de abismo. Por fim, voltou-se e ouviu atrás de si um ligeiro ruído sufocado, suave e triste.

Era Cosette soluçando.

Havia mais de duas horas que chorava ao lado de Mário pensativo.

Mário dirigiu-se a ela, ajoelhou e, prostrando-se vagarosamente, pegou-lhe na ponta do pé que lhe saía para fora da roda do vestido e beijou-lho.

Ela, silenciosa, não o interrompeu. Há momentos em que a mulher aceita, qual deusa

sombria e resignada, a religião do amor.

— Não chores! — disse-lhe ele.

Cosette murmurou:

— Choro porque me vou talvez embora e tu não podes ir!

— Amas-me? — tornou Mário.

Cose e respondeu-lhe, soluçando, essa palavra do paraíso que não é talvez nunca tão encantadora como através das lágrimas:

— Adoro-te!

Ele então prosseguiu num tom de voz que era uma inexplicável carícia:

— Não chores. Olha, faze o que te peço; não chores mais!

— E tu amas-me? — perguntou ela.

— Cose e — tornou ele, pegando-lhe na mão — nunca dei a minha palavra de honra a ninguém, porque me causa medo: sinto meu pai ao lado dela. Pois bem, dou-te a minha palavra de honra mais sagrada, que se tu fores, morro.

Estas palavras foram pronunciadas com um acento de melancolia tão solene e tranquilo, que Cose e estremeceu. Sen u o frio produzido pela passagem de uma coisa sombria e verdadeira. O grande sobressalto que experimentou fê-la cessar de chorar.

— Agora, escuta disse ele não me esperes amanhã.

— Porquê?

— Não me esperes senão depois de amanhã.

— Mas porquê?

— Verás.