Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 23 de 359

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Os Miseráveis

IX — Novos agravos

apenas a lividez das nuvens. Presenceia agonizante o imenso delírio do mar e a ví ma dessa demência é ele. No meio da sua angús a, ouve ruídos estranhos ao homem, que parecem provir não sei de que terrível região de além da terra.

Por entre aquelas nuvens pairam aves, como os anjos por cima dos infortúnios humanos. Mas que podem fazer por ele? Voam, cantam, fendem os ares e ele agoniza.

Vê-se sepultado por dois infinitos ao mesmo tempo: o oceano e o céu; um é o sepulcro, o outro a mortalha.

Desce a noite.

Já as forças lhe escasseiam, porque há umas poucas de horas que nada; o navio, esse vulto longínquo em que havia homens, desapareceu: o infeliz está só na medonha voragem crepuscular; mergulha, debate-se, sente por debaixo de si monstruosas e invisíveis vagas, chama e pede que lhe acudam.

Não há um só homem que o oiça. Onde está Deus?

Chama ainda, brada por socorro.

Nada no horizonte, nada no céu!

Implora à imensidade, às vagas, à alga marinha, ao escolho; é tudo surdo. Suplica à tempestade; a tempestade, imperturbável, só obedece ao infinito.

Em torno dele a escuridão, o nevoeiro, a solidão, tumulto tempestuoso e inconsciente, o redemoinho infinito das águas enfurecidas. Nele o horror e a fadiga. A seus pés o abismo incomensurável e nem um só ponto de apoio. Lembra-se das tenebrosas aventuras do cadáver no meio da escuridão ilimitada. Paralisado o frio sem fim. Crispam-se-lhe as mãos, fecha-as e apanha o nada.