Os Miseráveis
III — O 18 de Julho de 1815
Primeiro entra-se no jardim, que fica situado num plano inferior, e está plantado de groselheiras e atulhado de vegetações selvagens; fecha-o um eirado monumental de pedra de cantaria, com balaústres grossos em baixo e estreitos em cima. Era um jardim senhorial no primi vo es lo francês, que precedeu Le Nôtre; porém, hoje em ruínas e coberto de silvas. As pilastras são coroadas por globos, que parecem balas de pedra.
Contam-se ainda quarenta e três balaústres, assentes nas suas respec vas bases; os outros jazem deitados por cima da erva, e quase todos têm arranhaduras, feitas pelas balas de mosquetaria. Vê-se ali um balaústre par do, colocado em cima da sua base, como uma perna quebrada.
Foi neste jardim, que fica mais baixo que o pomar, que seis soldados de caçadores do primeiro regimento de infantaria ligeira, tendo ali penetrado, e não podendo sair, apanhados e encurralados como urso na sua cova, travaram combate com duas companhias hanoverianas, uma das quais fazia fogo com clavinas. Os hanoverianos, colocados em volta dos balaústres, a ravam de cima, porém, os caçadores, apesar de serem seis contra duzentos, levaram um quarto de hora a morrer, respondendo intrépidos debaixo, apenas abrigados pela rama das groselheiras.
Sobem-se alguns degraus e passa-se do jardim para o pomar propriamente dito.
Ali caíram, naquelas poucas toesas quadradas, mil e quinhentos homens em menos de uma hora. A parede parece prestes a recomeçar o combate. Ali existem ainda as trinta e oito seteiras, abertas pelos ingleses a alturas irregulares. Em frente da décima sexta, jazem dois túmulos ingleses de granito. Não há seteiras senão na parede meridional, e era daí que par a o ataque principal. Como a parede fica exteriormente oculta por uma grande sebe, os franceses, cuidando que só nham a transpô-la, chegaram-se, romperam-na e encontraram o obstáculo da parede, os guardas ingleses por trás em emboscada, as trinta seteiras a fazer fogo, uma tormenta de balas e metralha, que deu cabo da brigada de Soye. Waterloo principiou assim.
O pomar foi tomado, e, como não havia escadas, os franceses treparam, agarrando-se com as unhas. Ali arcaram peito a peito os inimigos uns com os outros debaixo daquelas árvores, onde ficou fulminado um batalhão de Nassau, composto de setecentos homens.
Toda aquela erva foi nta do sangue dos combatentes. Por fora, a parede contra a qual foram encurraladas as duas baterias de Kellermann está toda esburacada da metralha.
Aquele pomar é sensível ao mês de Maio, como qualquer outro: tem seus botões de ouro e suas boninas e erva crescida, em que vão pastar os cavalos empregados no serviço da lavoura; os intervalos que vão de árvore a árvore são atravessados por cordas de cabelo, em que a gente da herdade enxuga a roupa, e que fazem baixar a cabeça a quem passa; a cada passo, metem-se os pés nos buracos pra cados pelas toupeiras naquele terreno inculto. Nota-se, derrubado por sobre a erva, um tronco arrancado, mas ainda verde; foi onde se encostou o major Bladkman para expirar. Sob uma grande árvore próxima caiu o general alemão Duplat, oriundo de uma família francesa refugiada na ocasião da revogação do édito de Nantes. Ao pé debruça-se uma macieira velha, enferma, pensada com uma ligadura de palha e barro. As macieiras caem de velhas quase todas. Não existe ali uma só que não tenha sinal de bala. Naquele pomar, no fundo do qual há um bosque cheio de violetas, abundam os esqueletos de árvores mortas, sobre cujos ramos esvoaçam os corvos de contínuo.
Bauduin morto, Foy ferido, o incêndio, a carnificina, a mortandade, um rio de sangue inglês, de sangue alemão e de sangue francês, furiosamente misturados, um poço atulhado de cadáveres, o regimento de Nassau e o de Brunswick destruídos, Duplat morto, Blackman morto, os guardas ingleses mu lados, vinte batalhões franceses, além dos quarenta do corpo de Reille, dizimados, três mil homens mortos naquela mansão solitária de Hougomont, espa eirados, acu lados, degolados, fuzilados, queimados; e tudo para um aldeão dizer hoje a um viajante: Senhor, dê-me três francos que, se quiser, eu conto-lhe como foi esta embrulhada de Waterloo!
III — O 18 de Julho de 1815
Retrocedamos, que é esse um dos direitos do narrador, e imaginemo-nos no ano de 1815, alguma coisa antes da época em que principia a acção contada na primeira parte deste livro.
Se na noite de 17 para 18 de Junho de 1815 não vesse chovido, o futuro da Europa teria sido diferente. Algumas gotas de água de mais ou de menos deitaram Napoleão a perder. Para Waterloo ser o complemento de Austerlitz, bastou à Providência alguma
chuva; uma nuvem que passou pelo céu em contrário do que era de esperar naquela estação, foi o suficiente para o desabamento de um mundo.
A batalha de Waterloo não pôde principiar senão às onze horas e meia, o que deu tempo de chegar Blucher. Porquê? Porque a terra estava molhada.
Foi necessário que o solo enxugasse um tanto para que a ar lharia pudesse manobrar.
Napoleão era oficial de ar lharia, o que facilmente dava a conhecer. Todos os seus planos de batalha são baseados no projecto: Fazer convergir a ar lharia sobre um ponto dado era a chave da vitória. Tratava a estratégia do general inimigo como uma cidadela e ba a até fazer-lhe brecha. Oprimia o ponto fraco com a metralha; atava e desatava as batalhas com a ar lharia. No seu grande génio havia o que quer que fosse de ro.
Esmagar os quadrados, pulverizar os regimentos, romper as linhas, triturar e dispersar as massas, era tudo para ele; bater, bater, bater sem cessar; missão de que encarregava a bala.
Método temível, o qual junto ao génio, tornou invencível pelo espaço de quinze anos, o sombrio atleta do pugilato da guerra.
No dia 18 de Junho de 1815 contava ele tanto mais com a ar lharia, quando era superior o número pela sua parte. Wellington não nha senão cento e cinquenta e nove bocas de fogo; Napoleão dispunha de duzentas e quarenta.
Suponha-se o solo enxuto, deixando rodar a ar lharia, e a acção começada às seis horas da manhã. A batalha estava ganha e terminada às duas, três horas antes da peripécia prussiana!
Que quan dade de culpa tem Napoleão na perda desta batalha? O naufrágio é acaso imputável no piloto?
O evidente declínio sico de Napoleão agravava-se acaso nesta época com uma certa diminuição inferior?
Tinham os vinte anos de guerra gasto tanto a lâmina como a bainha, tanto a alma como o corpo? Porventura o cansaço do veterano se fez sen r no capitão? Numa palavra: esse génio, como muitos historiadores de consideração o julgaram, eclipsava-se?
Tornava-se frené co para ocultar a si mesmo o seu enfraquecimento? Começava a oscilar sobre o desvairamento dum sopro de aventura? Tornara-se ele, coisa grave num general, inconsciente do perigo? Na classe de grandes homens materiais a que se pode chamar gigantes da acção, há porventura uma idade para a miopia do génio? A velhice não influi no génio do ideal; para os Dantes e Migueis Ângelos envelhecer é engrandecerem-se; para os Aníbais e Bonapartes será decrescer? Teria Napoleão perdido o sen do directo da vitória? Teria chegado ao estado de não reconhecer o escolho, de não adivinhar o laço, de não pressen r a beira escorregadia dos abismos? Faltar-lhe-ia o faro das catástrofes? Ele que dantes conhecia todos os caminhos do triunfo, e que do alto do seu carro coruscante os indicava com gesto soberano, teria então o sinistro atordoamento de conduzir aos precipícios as suas tumultuosas parelhas de legiões?